Violência baseada no género: Associação cabo-verdiana defende prevenção e educação
29 January 2026

Violência baseada no género: Associação cabo-verdiana defende prevenção e educação

Vida em França

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O assassínio de Lisabeth, jovem francesa de origem cabo-verdiana, de 23 anos, em plena luz do dia em Nice, França, teve um impacto profundo na comunidade cabo-verdiana residente no local. O caso trouxe para o centro do debate a urgência na prevenção da violência. Emilie da Veiga Moura, da associação Dix Étoiles, reconhece que a violência baseada no género é uma realidade recorrente e lembra que um dos maiores obstáculos continua a ser o silêncio das vítimas, muitas vezes imposto pela vergonha.

Para Emilie da Veiga Moura, presidente do conselho directivo da associação Dix Étoiles (Dez Estrelas), “foi chocante”. O crime ocorreu numa zona considerada tranquila, próxima de uma creche e de uma escola, o que acaba por abalar o sentimento de segurança.

As investigações apontaram rapidamente para um conflito intrafamiliar, reforçando uma realidade que, segundo a dirigente associativa, não pode continuar a ser ignorada. “Para nós, foi mais uma vez uma demonstração da violência, desta vez intrafamiliar, mas não só, da violência em geral”, sublinhou.

Apesar da dimensão do crime, a dirigente associativa e terapeuta rejeita leituras generalizadas sobre a comunidade cabo-verdiana. “A câmara de Nice tratou o assunto de forma a não ficarmos estigmatizados. Os cabo-verdianos não são todos violentos”, afirmou. Ainda assim, reconhece que a violência baseada no género é uma realidade existente e recorrente. “É uma forma de violência que existe. Esta é a causa principal da existência da nossa associação”, referindo-se à criação da associação Dix Étoiles a 08 de Março de 2025.

A instituição nasceu precisamente da necessidade de agir antes que a violência atinja níveis extremos. “É um problema que existe, mas tem que ser feito algo em termos de educação, em termos de prevenção”, defendeu. Um dos maiores obstáculos continua a ser o silêncio das vítimas, muitas vezes imposto pelo medo e pela vergonha: “Há muitas mulheres que vivem debaixo da pressão do marido, do companheiro e sentem vergonha”.

“Como terapeuta estou a acolher cada vez mais pessoas, começam a dizer ‘eu acho que sou vítima’, mas ainda não estão prontas para fazer queixa”, relatou. Contrariamente a uma ideia comum, aqui a dependência económica nem sempre é o principal factor. “Há muitas mulheres que ganham muito mais que os homens, cá no sul”, afirmou Emilie da Veiga Moura, que aponta o peso da humilhação, da exposição social e da educação como causas do silenciamento.

A estratégia da Dix Étoiles assenta na prevenção e na intervenção precoce, actuando em diferentes níveis da comunidade. Entre os projectos em curso estão a parceria com a Associação Cabo-Verdiana de Luta Contra Violência Baseada no Género, o trabalho local com jovens em situação de vulnerabilidade e a criação de um grupo de teatro franco-cabo-verdiano como ferramenta de sensibilização e diálogo intercultural.