“Salon/Ensaio”: Uma alternativa intimista para se criar e mostrar arte "em casa"
14 April 2026

“Salon/Ensaio”: Uma alternativa intimista para se criar e mostrar arte "em casa"

Vida em França

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Em Paris, um casal de artistas transformou o seu apartamento-atelier num espaço alternativo e intimista onde se cruzam diferentes artes uma vez por mês. O projecto chama-se “salon/ensaio”, começou há dois anos e nasceu da vontade de se reinventar os "salons" franceses dos séculos XVIII e XIX. Neste programa fomos até ao 14° “salon/ensaio” de Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz.

Um refinado instrumento de música barroca, a viola da gamba, a acompanhar mornas cabo-verdianas foi uma das mais recentes criações nascidas e apresentadas no “salon/ensaio”. O “salon” é um “ensaio” artístico imaginado  por Ângelo Ferreira de Sousa e Olivia Gutherz e que começou há dois anos no apartamento-atelier-estúdio do casal. Inspirados nos “Salons” franceses dos séculos XVIII e XIX, Ângelo e Olivia abriram as portas de casa para deixar entrar a arte sem o peso das convenções. Neste espaço intimista é assim alcançada uma proximidade entre os artistas e o público que esboça algo que Ângelo Ferreira de Sousa descreve como “revolucionário”.

“Salon é esta tradição francesa dos séculos XVIII e XIX de reunir artistas, escritores, intelectuais na sala de estar de alguém. É o que nós fazemos aqui visto que isto é o nosso ‘atelier-logement’, quer dizer que é um atelier atribuído pela Câmara de Paris a músicos e aproveitámos esta oportunidade que nos deu a Câmara para organizar o salon. O salon é um evento artístico que se organiza uma vez por mês, que reúne, pelo menos, dois artistas: pode ser um músico e um escritor, pode ser um performer vindo das artes visuais e um músico... Já houve um pouco de tudo ao longo destas 14 edições. A ideia é produzir e consumir esses produtos com muita proximidade, sem uma grande moldura pesada que afasta o público e o artista. Achamos que essa proximidade pode fazer toda a diferença e pode ser até revolucionária”, descreve o anfitrião do "salon/ensaio".

Cada “salon/ensaio” é um exemplar único e conjuga, por exemplo, música com artes visuais, literatura, performance ou outra proposta. Ângelo é artista plástico, performer e tradutor literário. Olivia é música e vem da tradição de música barroca, mas tem explorado a música improvisada no "salon" com os seus convidados. A melodia da sua viola barroca já faz parte do espírito deste estúdio da Rua Piat.

“Tivemos vontade de fazer as nossas performances, experimentar, partilhar com o público e também poder convidar outros artistas para mostrarem o seu trabalho nesta proximidade. Este espaço também nos inspirou porque é uma grande sala quadrada, insonorizada, e estamos obrigados a estar perto uns dos outros, sentados no chão. Além disso, o meu instrumento, a viola da gamba que é um instrumento da época barroca,  não é um instrumento potente em termos de som e as melhores condiçoes para ser ouvido é na intimidade, na proximidade. Quanto mais próximos estivermos, mais ouvimos as cores e as nuances diferentes. Foi toda esta mistura de condições que nos deu a vontade de organizar estas reuniões”, conta Olivia Gutherz.

A artista sublinha que outra das notas fundamentais do “salon” é o facto de haver sempre pessoas novas, oriundas de vários países e que trazem esse mundo para o atelier. “Vivemos numa grande cidade, com imensas pessoas muito diferentes, mas são bastante raros os momentos em que nos encontramos numa sala, em que não conhecermos as pessoas, mas partilhamos algo”, descreve.

No “salon/ensaio” número 14, Olivia Gutherz actuou ao lado do cantor e cravista português Jorge Silva, numa noite em que se celebrou “a festa das independências" dos países africanos de língua oficial portuguesa. Houve filmes apresentados por Raquel Schefer, professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle, e debate em torno do pai das independências da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral. Também houve mornas imortalizadas por Cesária Évora que foram interpretadas por Jorge Silva, que tem também raízes cabo-verdianas.  

“Foi muito espontâneo. A Olivia contactou-me, perguntou se eu tinha músicas em crioulo que eu quisesse cantar. Eu perguntei se ela tinha guitarrista porque em Cabo Verde cantam mais com guitarra, ela disse que não, mas que tinha a viola da gamba. Fizemos uma coisa assim muito natural e foi muito bonito. Mostrar músicas cabo-verdianas ou africanas com um instrumento dito barroco como é a viola da gamba acho mesmo excelente mostrar estes dois mundos. É mesmo um salão em que se pode abrir novos horizontes”, conta Jorge Silva.

O público são os amigos que trazem um amigo também e que também trazem uns comes e bebes para animar o prólogo da noite. Ana Rita Rodrigues assistiu a todas as edições desde o começo e também cantou em dois “salons”: num deles fez uma homenagem a José Afonso por ocasião do 25 de Abril e num outro propôs uma viagem cantada até ao Brasil. Para ela, o “salon” é, por excelência, o lugar onde o artista está com o público.

“Estamos com o público à nossa volta e é como se estivéssemos a cantar em casa com um grupo de amigos. Corresponde perfeitamente ao meu estilo, à minha concepção do que é a música. A música não é só um espectáculo, é também uma partilha. É como estar em casa”, explica a cantora.

"É como estar em casa", mas uma casa de portas abertas para o mundo. Raquel Estrócio é outra presença habitual do “salon”. “É sempre uma troca muito rica de imensas formas de colaborações. As trocas depois e antes, durante as 'soirées', são extremamente enriquecedoras. Acho que nos descobrimos a nós ao ouvir as outras pessoas e nestas trocas. As ideias surgem também aí: outras ideias para outros salons”, diz a arquitecta paisagista.

Em Maio, já está agendado novo “salon/ensaio”, este espaço alternativo e caseiro onde se tenta fazer e mostrar arte de forma intimista, a uma escala mais humana e sem espartilhos institucionais.