Roland Garros: "Há muito tempo que não havia uma comitiva portuguesa tão grande"

Roland Garros: "Há muito tempo que não havia uma comitiva portuguesa tão grande"

RFI Português
00:10:18
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Nesta edição de Roland Garros que decorre até este domingo, 9 de Junho, o ténis português esteve representado por Henrique Rocha, Jaime Faria e Francisca Jorge nas qualificações do segundo Grand Slam da temporada, juntaram-se a Nuno Borges e Francisco Cabral, no quadro principal de singulares e de pares.

Jaime Faria começou a temporada fora do top-400 do ranking, ocupa agora o lugar 183.º ATP. Estreou-se no Grand Slam francês, saíndo no terceiro e último encontro da fase de qualificações. O tenista português de 20 anos jogou o primeiro encontro no court Susanne Lenglen, o segundo maior de todo o complexo.

Jaime Faria: Joguei no Lenglen a primeira ronda, depois de passar pelo Lenglen, os outros courts iam ser mais fáceis de encarar. Tive apoio dos portugueses e fiquei um pouco triste de desiludir a massa associativa.

RFI: O que é que leva de Roland Garros?

Levo uma boa experiência e muita vontade de voltar cá. Tenho muita vontade de jogar no quadro principal. É tudo um bocadinho novo para mim. Tive um bocadinho deslumbrado nos primeiros dias, mas isso já passou e agora é trabalhar para isto. Este é o nível em que quero estar. Quero bater-me com os melhores e para isso tenho que ganhar estes jogos. Comecei o ano fora do top 400, estou nos 180. Senti que fiz uma boa semana. Não posso ir de cabeça para baixo, mas tenho que ir com muita vontade de melhorar e para o ano apresentar-me melhor, com um melhor nível, melhor de cabeça, melhor de experiências vividas. Acho que no final de contas foi um balanço positivo.

Agora vou estar no Challenger de Zagreb e no Challenger de Bratislava. Quero jogar uma semana de relva antes de Wimbledon. Porque também só fui uma vez à relva nos juniores. Foi espectacular, mas tenho que pisar um bocadinho mais para depois chegar bem preparado a Wimbledon.

Até ao final do ano, há expectativas ou não?

Para ser sincero, ainda não defini muito bem objectivos de ranking. Eu acho que no ténis é complicado, nunca sabe muito bem, para o bem e para o mal. Vou continuar a trabalhar semana após semana para querer mais, mais e mais, ambicionar mais, mais e mais. É assim que eu tenho subido ao longo deste ano. Não consigo pôr uma meta, um ranking definido, até porque eu tinha definido para este ano jogar um primeiro Grand Slam, que seria à partida, o último, que era o mais fácil de lá chegar, porque tinha mais tempo para me preparar. Chego logo no primeiro possível porque a Austrália fecha antes de 2024. Vou continuar a trabalhar e tentar quebrar cada vez mais barreiras.

Está a trabalhar com alguns dos antigos melhores jogadores de Portugal, com Neuza Silva, com o Pedro Sousa, com o Rui Machado. Como é que é trabalhar com eles? Estiveram nos três jogos na bancada a apoiá-lo e imagino que fora dos courts e dos jogos também estejam permanentemente a ajudá-lo. É bom a crescer com eles? 

Sem dúvida, eles já passaram por tudo isto. Já não sei em que timings ao certo, mas eles sem dúvida que passam muita experiência, passam muita tranquilidade também. Eles têm me acompanhado desde o início do meu caminho. Eu cheguei ao CAR, Centro da Alto Rendimento, com 16 anos. Fazer este trajecto com eles é especial. O Pedro entrou no ano passado, mas o Pedro tem uma grande experiência, muita rotatividade ao nível de Challenger e ATP, portanto tem passado muito boas experiências. Tê-los na bancada a puxar por mim é especial porque sinto que eles acreditam em mim e eu acredito muito no trabalho deles.

Para quem não o conhece, como é que surgiu a paixão pelo ténis? 

O meu pai jogava ténis e foi um bocadinho por aí. Eu vivi no Algarve, na altura, com sete anos, fui ver um torneio de exibição que era o Grand Champions, que reunia uma série de lendas do ténis que iam lá jogar e eu era muito novo... Os meus pais compraram bilhete para todos os dias e eu e o meu irmão íamos ver os jogos e ficávamos ali mesmo atentos e adorava aquilo. Pedi ao meu pai para jogar e, claro, como ele também jogou ténis, disse que sim, claro ! Desde  aí tem sido uma paixão. Chegar aqui também é um bocadinho um sonho que eu cumpri. Um grande sonho.

Faz parte desta nova geração de jovens portugueses estão a crescer tal como o Henrique ou o Nuno. Sente que a modalidade está a crescer cada vez mais em Portugal?

Acho que a modalidade está a crescer, não sei se a largas passadas ou não. A cultura do ténis em França ou em Itália, mesmo na República Checa, onde tive agora há duas semanas, o ténis em Portugal está a crescer e ter pessoas para quem olhar e ter referências como o João Sousa, que foi muito importante, trouxe muita gente. O Nuno está a conseguir quebrar muitas barreiras e acho que eu e o Henrique também podemos vir a estar nesse lote de jogadores de topo. Estamos a fazer o nosso caminho. Mas acho que sim, acho que o ténis português está a crescer.

A número 1 portuguesa, Francisca Jorge, foi eliminada na primeira ronda da qualificação para Roland Garros. Este foi o segundo Grand Slam desta temporada da 194.ª do ranking mundial.

Francisca Jorge: Queria muito jogar Roland Garros. Às vezes não é a abordagem mais fácil e gerir emoções torna-se difícil, claramente, mas acho que faz parte. Sem dúvida que espero voltar para cá para o ano e jogar melhor, desfrutar um bocadinho mais do momento, desfrutar do jogo e conseguir levar uma vitória.

RFI: Gerir emoções será uma das maiores dificuldades desta modalidade, do ténis?

Acho que o ténis está cada vez mais mental, física e mental, mas acima de tudo porque toda a gente joga bem ténis e passa por quem conseguir gerir melhor as emoções e conseguir manter-se mais presente no jogo e em todos os pontos para conseguir jogar o seu melhor nível, para conseguir levar as vitórias para casa.

Esta foi a sua estreia aqui em Roland Garros, isso é importante?

E importante. É de valorizar que tenha chegado aqui e consegui marcar presença. Vou tentar levar o lado positivo desta experiência. Mas sem dúvida continuar a trabalhar porque a época não acabou. Agora tenho um caminho muito longo pela frente para garantir presença em Wimbledon e todo o resto. 

Imagino que esteja focada no próximo Grand Slam, em Wimbledon?

O auge do ténis é jogar os grandes Slams. Vou jogar mais dois torneios, agora em terra batida, acabar essa gira de terra batida e o resto está ainda em aberto. Depende também como estiver o meu ranking, a ver se asseguro a entrada ou se tenho que jogar mais um torneio ou outro para fazer pontos e garantir a minha entrada em Wimbledon.

É a jogadora portuguesa melhor classificada neste momento, como é que olha para o ténis no feminino em Portugal?

Sinto que está a evoluir, sem dúvida. Faltam mais jogadoras, há poucas miúdas a jogarem ainda. Acho que está a evoluir. Acho que estamos a crescer enquanto comunidade, enquanto desporto em Portugal, mas sem dúvida que falta ainda um bocadinho de nível. Falta às miúdas de base crescerem com a Jogar melhor ténis. É um caminho bastante longo e vai crescer, mas precisa de tempo.

A edição de Roland Garros deste ano contou com a participação de cinco portugueses o que não aconteceu nos últimos anos. Este é um marco importante para o ténis português?

Sim. Sim, claro. Acho que houve uma época, há uns cinco ou mais anos atrás, que tivemos aqueles portugueses todos a jogar Grand Slams e não havia assim uma comitiva tão grande. É muito especial, sem dúvida. Eu fui a única portuguesa do lado feminino e estou super orgulhosa do Henrique e do Jaime por terem conseguido tão cedo esta entrada nos Grand Slams Seniors. É sem dúvida um orgulho. Acho que eles deviam também estar super contentes com o trabalho que têm vindo a fazer. É super importante para as camadas jovens também para acreditarem que é possível. O Borges também está a representar muito bem e o Cabral na vertente dos pares. Acho que cada um está a fazer o seu caminho e estou super entusiasmada pelo que vem aí para a frente.

Também joga em pares com a sua irmã, que também joga ténis, de onde é que vem esta paixão desta modalidade, vem da sua família?

Sim, os meus pais sempre foram amantes do ténis. Nunca levaram muito a sério. Conheciam as estrelas da altura deles, sempre foram acompanhando bastante, porque é um desporto que gostam, Mas nunca tiveram como ambição ter duas filhas tenistas profissionais. Acabamos por ter o gosto pela modalidade e realmente vimos nisto uma paixão imensa. É com muito orgulho que represento esta modalidade e Portugal. Por isso é continuar a trabalhar para continuar a crescer e a evoluir e ser maior ainda.