Reinventar a dança com criadores amadores

Reinventar a dança com criadores amadores

RFI Português
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Este sábado, o festival “1 Km de Danse”, em Pantin, na região de Paris, mostrou que bailarinos e coreógrafos amadores também contam no mundo da dança. É o caso da companhia Danse en Seine que apresentou um espectáculo feito por não profissionais e assinado por um português, Pedro Gomes.

Associações de dança, conservatórios, companhias amadoras, artistas e coreógrafos emergentes investiram, este sábado, cinco palcos junto ao Canal de l’Ourcq, em Pantin, junto a Paris. A terceira edição do evento “1km de Danse”, organizado pelo Centre National de la Danse, cruzou diversos estilos e danças e mostrou que a prática amadora também conta.

Exemplo disso mesmo é a Companhia Danse en Seine que nasceu em 2010 para ser um espaço de criação e de partilha da cultura coreográfica entre amadores. O grupo apresentou o espectáculo “Hantises” [“Assombrações”], do português Pedro Gomes, que integrou a companhia há dez anos. Ele tinha 28 e era a primeira vez que entrava num estúdio de dança. Desde então, tem participado em espectáculos como bailarino e agora assina a sua primeira peça de dança contemporânea, que reúne seis mulheres, de ténis e gabardines, juntas e solitárias, em movimentos sincronizados e alguns instintivos, todos repetidos num compasso lento e contemplativo. Com gestos quase em suspensão e olhares distantes, as intérpretes sugerem ausências e as tais “assombrações” que inspiraram Pedro Gomes, com que estivemos à conversa durante o festival.

RFI: O que conta o espectáculo “Hantises”?

Pedro Gomes, Criador do espectáculo "Hantises": O espectáculo vem de dois tipos de situações quotidianas. A primeira é quando, às vezes, estás com a cabeça um bocado ausente e há uma espécie de movimento um bocado parasita que tu fazes, não sabes muito bem porquê ou uma palavra que tu dizes em voz alta ou, às vezes, dás por ti e estás a cantar. Então é assim um bocado essa ideia dessas coisas que tu fazes sem saber porquê. E o outro sentimento são os sentimentos das vezes - sobretudo quando vou ouvir música a andar na rua - de uma espécie de alegria extraordinária ou de uma melancolia também muito grande como se as minhas emoções não coubessem no meu corpo. E é a ideia de juntar essas duas sensações e pensar que, se calhar, somos outros de nós que existem noutros planos e que nos atravessam nesses momentos.

A peça chama-se “Hantises”. Porquê e como traduziria em português?

Ao princípio, a peça tinha título francês e português: “Hantises- Assombrações” e era a ideia destes espectros que nos atravessam, ou seja, somos nós noutros planos.

A peça desenrola-se com ritmo bastante lento, com um movimento repetitivo, com um círculo de mulheres. Porquê só mulheres? E que forças são estas que as atravessam?

Ao princípio não havia necessariamente uma vontade de fazer uma peça que fosse só com mulheres. O grupo com que começámos a fazer os primeiros ensaios eram oito, nove pessoas e havia um só homem, o que trazia uma dramaturgia para a peça, o facto de haver um só homem no palco. À medida que fomos criando, acabou por a peça transformar-se numa forma também de alguma “sororité”, irmandade entre estas mulheres que estão em palco. E nós gostámos, nós quisemos preservar isso. Acho que é um bocado essa ideia que também tem a ver com esse movimento circular que é estarmos sempre a fazer a mesma coisa, sozinhos e juntos ao mesmo tempo. E aqueles momentos fugazes em que elas se tocam são momentos em que essa ligação ao outro existe.

Em relação à companhia, esta companhia de dança é feita com criadores amadores, ou seja, não profissionais. Qual é a história da companhia Danse en Seine?

A companhia foi criada em 2010 por um conjunto de mulheres que queriam poder ter um espaço de criação e de partilha da cultura coreográfica entre amadores e também para com públicos que podem estar, à partida, mais afastados da criação coreográfica. É uma companhia que faz imensas coisas e uma dessas coisas é um dispositivo de acompanhamento à criação artística que se chama “Scènes Ouvertes” (Palcos Abertos), em que nós, membros da companhia, podemos propor peças enquanto coreógrafos. Foi o que eu fiz nesta peça. Foi a primeira vez que criei uma peça e, portanto, somos acompanhados, acompanhamo-nos uns aos outros e somos também dançarinos para as peças uns dos outros.

Como é que o Pedro Gomes veio parar à companhia? Qual é o seu percurso até aqui?

Eu cheguei a França em 2011 para fazer a minha tese de doutoramento e quando comecei a escrever a minha tese, achei que precisava de fazer um bocado de uma actividade física porque estava farto de estar sempre sentado a tentar escrever a tese.

A tese era sobre o quê?

A tese era sobre o espaço público. Portanto, hoje até calha bem estarmos a fazer um espectáculo aqui…

No festival “1 Km de Danse” em Pantin...

Eu achava que precisava de me mexer, mas eu não gosto de fazer desporto e cruzei um amigo no meu bairro que me disse que estava a sair de uma aula de dança nesta companhia e eu inscrevi-me. Quase dez anos depois, cá estou eu.

Ou seja, contrariamente àquela ideia de que é preciso começar a dançar em criança, afinal é possível começar a qualquer idade?

A primeira vez que eu entrei num estúdio de dança foi com 28 anos, hoje tenho 38, continuo a não conseguir dobrar-me, tocar com as mãos nos meus dedos do pé, mas isso não me impede de dançar muito, com muita alegria e agora, também, de criar as minhas próprias peças.

O lado “amador” dá mais liberdade à criação?

Eu acho que permite pôr a alegria e o prazer de dançar e de fazer isto com um colectivo de pessoas que através da dança se tornam tuas amigas, pôr isso em primeiro lugar e, de facto, estar num lugar que é, acima de tudo, marcado por muita generosidade e por muita disponibilidade para o outro.

No site da companhia vocês falam em "reinventar a dança" graças aos criadores amadores. Como assim?

Sim, é também reinventar aquilo que, enquanto amador, tu podes fazer. Há aquela ideia que quando és dançarino amador não podes ter necessariamente uma proposição artística, que aquilo que tu fazes não é arte, que não te podes dar a ambição de trabalhar com criadores profissionais - o que nós às vezes fazemos - e também que tu não tens nada a dar aos outros, que és sempre só receptor daqueles que detêm o saber. Aqui também dizemos que nós temos coisas a transmitir às outras pessoas e a fazer sempre em colectivo.