
Guimarães chega a Paris com reconhecimento internacional renovado e um estatuto confirmado: é Capital Verde Europeia este ano de 2026. Mais do que distinção simbólica, o município assume o título como responsabilidade política e transformação concreta. O presidente da câmara municipal, Ricardo Araújo, defende que o desafio não é apenas ambiental, mas sobretudo social: fazer da sustentabilidade um motor real de qualidade de vida.
Num tempo em que as cidades deixaram de ser cenário para passarem a ser protagonistas da crise climática, Guimarães apresenta-se em Paris com uma dupla legitimidade: a do reconhecimento internacional e a de um caminho ainda em curso. Este ano, a cidade é Capital Verde Europeia mas, para o presidente da Câmara, esse título é menos uma meta do que um compromisso exigente.
“Em primeiro lugar, é de facto também um privilégio para Guimarães, resultado de um trabalho que tem vindo a ser feito ao longo das últimas décadas, ser reconhecida pelo terceiro ano consecutivo”, afirma Ricardo Araújo, referindo-se à distinção do Projeto de Divulgação de Carbono (CDP). “Recebemos este reconhecimento juntamente com cerca de 120 cidades, num universo de cerca de 700, e isso é um orgulho neste caminho que Guimarães tem vindo a trilhar.”
Mas o tom rapidamente se afasta da celebração. “Capital Verde Europeia e esta distinção não são um ponto de partida. Esse ponto de partida já se iniciou há um tempo atrás, mas também não é de todo um ponto de chegada”, sublinha. E fixa a ideia central: “É um ponto intermédio, porque isto é acima de tudo uma responsabilidade com o presente e com o futuro.”
Essa responsabilidade ganha densidade quando colocada no contexto histórico da cidade. “Estamos a falar de um concelho que teve uma fortíssima tradição industrial, com sectores como o têxtil e o calçado, que naturalmente traziam uma pegada ecológica muito relevante.” A transformação das últimas duas décadas, na qualidade dos rios, do ar, do espaço público, é, por isso, apresentada como um processo de reconversão profunda.
Ainda assim, o objectivo não se esgota no ambiente. “Tenho dito e repetido que quero que Guimarães seja a capital verde europeia, mas se transforme na capital da qualidade de vida na Europa”, afirma. E reforça: “O ser capital verde europeia tem que estar associado à qualidade de vida das pessoas.”
A transparência como práticaUma das dimensões mais valorizadas internacionalmente é a transparência ambiental. Mas, no discurso do autarca, essa transparência só ganha sentido quando se materializa no dia-a-dia.
“Nós temos um conjunto de indicadores que estamos a monitorizar permanentemente e que queremos que estejam acessíveis a cada momento para qualquer cidadão poder verificá-lo”, explica. E concretiza: “Isto tanto se aplica na qualidade do ar, como na qualidade da água, como na gestão das nossas bacias de retenção, na gestão do estacionamento, do tráfego urbano.”
A cidade, acrescenta, tem de ser pensada como sistema inteligente, apoiado em dados e tecnologia: “Temos que utilizar as ferramentas de inteligência artificial e as ferramentas tecnológicas que temos à disposição para podermos ter uma cidade gerida de forma mais inteligente, através da recolha de dados permanente, do seu tratamento e da sua disponibilização.”
Mas a ambição não é técnica é social. “Estes dados têm que servir a decisão política, mas também o próprio cidadão, para que, no seu dia-a-dia, possa fazer melhores opções.” E dá exemplos simples: “Quando as pessoas têm que estacionar um carro, não têm que andar à procura do parque. Quando utilizam o transporte público, este tem que ser cómodo, flexível, simples.”
A advertência surge clara: “A capital verde europeia não pode ser uma capital verde das elites políticas e académicas. Eu quero que isto seja apropriado pelos nossos cidadãos.”
Entre a pedagogia e a transformação físicaO ano de 2026 é pensado em duas escalas complementares. A primeira é a da consciência. “Quero que este ano sirva para consciencializar cada vez mais a nossa população para a importância destas políticas”, afirma, sublinhando o papel da educação ambiental e do envolvimento das escolas. “A qualidade de vida do nosso futuro está intrinsecamente ligada à adoção de políticas que defendam o ambiente.”
A segunda escala é a do território. “Queremos transformar o território e aproveitar este ano para o fazer”, diz. Entre os projectos: duplicar as ecovias, reabilitar extensas zonas ribeirinhas, criar novos parques urbanos, plantar árvores.
“Guimarães é atravessada por três rios: o Selho, o Ave e o Vizela, e queremos acelerar a reabilitação dessas zonas”, explica. O território deixa de ser apenas espaço físico e passa a ser instrumento de política climática e de qualidade de vida.
E depois, a mobilidade, talvez o campo mais sensível da transformação urbana. “Nós vamos operar uma revolução na mobilidade em Guimarães”, afirma. Mas impõe uma condição decisiva: “Esta revolução tem que ser não contra as pessoas, mas a favor das pessoas.”
Os limites da mudança“Este processo tem que ser partilhado e apropriado pelos cidadãos”, insiste. E admite as tensões: “Quando reduzimos o transporte individual ou a circulação automóvel, não podemos fazer simplesmente por uma vontade do presidente ou por uma decisão académica.”
A mudança, diz, exige equilíbrio entre ambiente, economia e vida dia-a-dia. “Temos de perceber a vida normal das pessoas: o comércio, as escolas, os pais, os filhos, isto não pode ser contra uma coisa ou contra outra.”
O mesmo raciocínio aplica-se à economia. “Esta transição ecológica não pode significar uma desvantagem competitiva para as empresas”, alerta. E acrescenta: “As empresas que cumprem, que têm responsabilidade ambiental, não podem ser prejudicadas quando competem com outras que não cumprem, nomeadamente fora do espaço europeu.”
Cidades no centro do presenteEm Paris, a transformação urbana é visível: menos espaço para o automóvel, mais ciclovias, mais espaço público. Para Ricardo Araújo, esse é o sinal do tempo. “Os fenómenos a que temos assistido são uma evidência de que as alterações climáticas já não são futuro, são presente”, afirma. E a resposta, defende, tem de ser urbana.
“Temos que repensar as cidades e o espaço público, olhar para a forma como organizamos e projectamos a cidade para usufruto dos cidadãos, dos jovens e das crianças.” Isso implica, inevitavelmente, reduzir emissões e mudar a mobilidade. “Estamos a fazer um fortíssimo investimento: a frota de transporte público de passageiros é hoje 100% elétrica.”
Mas, mais uma vez, a chave está no equilíbrio. “Retirar o transporte individual tem que ter alternativa. As pessoas têm que poder fazer a sua vida de forma normal e, de preferência, mais cómoda, mais simples e mais barata.”
No final, a ideia regressa ao essencial. “Se nos limitarmos a apregoar conceitos sem que isso se traduza numa melhoria da qualidade de vida das pessoas, não estamos a dar um bom contributo.”