Festival Off Avignon: “Uma festa popular que dura há 60 anos”
29 April 2026

Festival Off Avignon: “Uma festa popular que dura há 60 anos”

Vida em França

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O Festival Off Avignon é “uma festa popular que dura há 60 anos” conta Laurent Domingos, co-presidente deste evento paralelo ao Festival de Avignon. Todos os anos milhares de pessoas rumam a Avignon e dividem o tempo entre o “In” e o “Off”. O “In” é o festival de teatro criado por Jean Vilar há 79 anos e actualmente dirigido pelo português Tiago Rodrigues, com uma programação selecionada e financiada. O Off é o mais espontâneo, com mais de 1.400 companhias espalhadas por 141 teatros e para as quais a oportunidade de encontrar programadores pesa mais do que o risco financeiro. Neste programa, Laurent Domingos fala-nos sobre a história, as esperanças, as oportunidades e as dificuldades do Off Avignon que descreve como “uma excepção no mundo”.

Todos os verões, os dois festivais, o IN e o Off, como são conhecidos pelo público, transformam Avignon no epicentro do teatro e das artes performativas. Este ano, a romaria cultural decorre de 4 a 25 de Julho. Neste programa falamos apenas do Off (sobre o In, pode ouvir a entrevista a Tiago Rodrigues que difundimos a 9 de Abril).

No total, o Festival Off Avignon vai ter 1.432 companhias, 7.000 artistas, 600 técnicos, 1.514 espectáculos e 27.000representações em 141 teatros e 248 salas. A grande maioria das companhias é francesa, mas também há estruturas vindas de cerca de 30 países. Avignon é a vitrina do teatro para o mundo e uma oportunidade para seduzir programadores, mas é também um grande risco financeiro, reconhece Laurent Domingos. Os desafios são muitos e este ano há menos verbas públicas, adverte o também encenador e actor com raízes portuguesas, que também lembra que “criar é cada vez mais um acto de resistência”. Esta edição marca um aniversário redondo de “uma festa que dura há 60 anos” e que “é um sopro de ar fresco num mundo muito duro e que não dá grande espaço à poesia”, acrescenta Laurent Domingos, resumindo esta “festa popular” em torno do teatro como “uma excepção no mundo”.

 

RFI: Qual a diferença entre o Festival de Avignon e o Festival Off Avignon?

Laurent Domingos: co-presidente do Festival Off Avignon: “O Festival Off de Avignon é um festival criado pelos próprios artistas e pelos teatros. Não é um festival organizado por um organismo público e que tem um director que escolhe as peças. Tiago Rodrigues, o director do Festival de Avignon, o chamado IN,  escolhe as peças, promove a criação de algumas e produz todos os espectáculos.

No Festival Off Avignon, temos 140 teatros, 250 salas e 1.500 companhias, estas pessoas organizam-se para criar um festival e nós supervisionamos, acompanhamos todos estes artistas e todos estes teatros para que, no final, haja uma organização de festival. Ou seja, nós organizamos, mas cada um produz os espectáculos que quer produzir.

A diferença é que o nosso festival também é muito maior em termos do número de espectáculos e do número de artistas envolvidos e enche toda a cidade de Avignon.”

Todas estas salas ocupadas pelo Festival Off Avignon no verão existem ao longo do ano?

“Durante o ano, a maioria das salas tem condições para ser aberta porque tem os assentos, o palco, mas elas abrem para o que chamamos de residências, ou seja, ensaios de artistas porque não há público suficiente durante o inverno para encher 140 teatros.

Em contrapartida, existem alguns espaços, digamos uma dezena, que abrem durante o ano mas não de forma permanente. A ambição da AF&C [Avignon Off & Compagnies] e da cidade de Avignon é incentivar estes espaços a abrirem durante todo o ano, talvez até para acolher um festival ou eventos durante o inverno, e aumentar o número de ensaios e residências ao longo do ano.”

Como é que as companhias, muitas vezes pequenas, conseguem financiar-se para estar no festival?

“Na verdade, é muito caro para uma companhia vir ao Festival Off de Avignon. É um risco muito grande para a companhia. Há muitas companhias que não sobrevivem se não correr bem em Avignon. Portanto, é um risco muito grande porque envolve uma enorme quantidade de dinheiro. Por exemplo, no meu caso, para um espectáculo com cinco pessoas em palco e dois técnicos, estamos a falar de um investimento muito próximo dos 60.000 euros. Ou seja, 60.000 euros por um mês e esperamos que a venda de bilhetes ajude... Portanto, é muito complicado.”

As receitas de bilheteira não cobrem?

“Exactamente. Quando as companhias vêm a Avignon é para venderem o seu espectáculo a programadores que depois o levem em digressão durante o ano. É isso que se procura. As companhias não vão apenas para actuar no festival, vão apresentar o seu espectáculo a profissionais que o vão comprar. Mas se não conseguirem essa digressão, é um fracasso.

Este ano é ainda mais complicado porque o Ministério da Cultura francês fez cortes?

Bem, desde logo há uma verdadeira crise na distribuição em França porque há um número enorme de espectáculos que querem fazer digressões, mas muito poucos conseguem. Além disso, o financiamento público está a diminuir cada vez mais. Este ano, havia um financiamento público que ajudava as companhias e os artistas que era o FONPEPS [fundo nfrancês para o emprego na área do espectáculo] e que foi reduzido, o que vai pôr em risco muitas das companhias.”

Como é que as pequenas companhias conseguem financiar o alojamento em Avignon?

“É complicado. Tentam encontrar financiamento, fazem empréstimos. É realmente muito complicado. O alojamento é um pesadelo em Avignon porque os preços são muito inflacionados a cada ano. Não existe regulamentação, é apenas oferta e procura. Existem hotéis que são a 100 euros por noite e passam a 300 euros durante o festival. Em suma, o alojamento durante o festival tornou-se uma loucura.”

O que seria preciso fazer?

“Em França, penso que é possível, a nível do governo civil, congelar as rendas, mas é complicado. É uma questão política porque isso trava os rendimentos das pessoas que são eleitores.

O problema é que todos querem estar dentro das muralhas de Avignon, um centro pequeno, mas existem muitas cidades à volta. É preciso trabalhar nos transportes públicos, nos autocarros,  comboios, mobilidade gratuita. A SNCF [companhia francesa dos caminhos-de-ferro] nem nos ajuda muito nesse sentido, mas é preciso tentar trabalhar com a Região para facilitar o acesso de quem não vive perto.”

No editorial deste ano, vocês escrevem que “o festival é um acto”, nomeadamente de “resistência, criação e liberdade”. Porquê?

“Criar está a tornar-se um acto de resistência - em França, talvez menos do que noutros lugares porque aqui ainda temos poderes políticos que nos ajudam a nível local ou nacional. Mas criar está a tornar-se um acto de resistência porque é cada vez mais difícil para os artistas expressarem-se. Há cada vez menos financiamento. Há cada vez mais autarcas que, em algumas cidades, recusam determinados espectáculos porque não estão alinhados com eles e, de certa forma, censuram espectáculos. Há muita censura e muitas dificuldades para criar espectáculos.

Criar significa enfrentar todas estas dificuldades e resistir. A cultura sempre resistiu ao longo da história, mas com diferentes graus de dificuldade e agora estamos numa fase muito complicada num mundo onde as pessoas se fecham, onde há muitas culturas que se opõem, muitas guerras, muitos problemas de poder de compra, pessoas que não se conseguem alimentar, pagar as contas. Neste contexto, montar espectáculos é complicado.”

Esta edição marca os 60 anos do Festival Off Avignon. O que representa e há temas em destaque?

“Sessenta anos representa uma imensa vontade de viver e de sobreviver dos artistas e uma riqueza da criação francesa. É impressionante que há 60 anos haja milhares de artistas a criar espectáculos populares para todos. É uma excepção no mundo, aliás não existe outro festival como este no mundo. Fala-se sempre no Festival Fringe de Edimburgo que é um grande festival, são 3.500 espectáculos, mas se contarmos o número de actuações, não sei se não somos um dos maiores.

É uma fonte de esperança porque vemos que as gerações mais jovens, as companhias mais jovens, estão a assumir o legado e vão continuar esta tradição. O Off tem um lado muito popular. Os artistas distribuem panfletos, desfilam pelas ruas. É uma festa que dura há 60 anos, é um sopro de ar fresco num mundo muito duro e que não dá grande espaço à poesia. Vivemos num mundo muito prosaico e que não é poético.”

O Laurent Domingos tem origens portuguesas...Que ligação tem com essas raízes?

“Sim, mas infelizmente não falo muito bem português. O meu pai é português, fui criado pelo meu avô português... Não digo que o português tenha sido a minha língua materna, mas os meus avós não falavam francês... Volto lá regularmente. Sou do sul de Portugal, sou do Algarve, de Vilarinhos que fica em São Brás de Alportel.

Lembro-me ter visto, nas ruelas de Lisboa, muitos concertos de fado nos pequenos restaurantes. Desde pequeno, vivi de perto esta coisa popular dos espectáculos. O meu avô tinha um jardim grande e toda a gente ia lá comer, lembro-me do grão-de-bico com toucinho, lembro-me das sardinhas grelhadas. E havia esta coisa muito popular, com as pessoas reunidas, em que alguém se punha a cantar, com uma guitarra. Esta coisa da festa popular foi algo que me ficou e - não digo que tenha sido por isso - mas há algo que está ligado a esta coisa popular do Festival Off.

Há muito poucas companhias portuguesas no Off. Deveria haver mais, lembro que o festival ajuda as companhias estrangeiras e as portuguesas podem tentar... Fiquei extremamente contente de ver o Tiago Rodrigues a tornar-se director do Festival de Avignon, o IN. Por vezes fazemos alusões a Portugal e é bastante curioso ver que na mesma cidade há um co-presidente de um festival e um director de um festival que são ambos portugueses.”