Curta metragem portuguesa na Semana da crítica de Cannes

Curta metragem portuguesa na Semana da crítica de Cannes

RFI Português
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"As minhas sensações são tudo o que tenho para oferecer" é uma curta metragem da portuguesa Isadora Neves Marques. O filme compete na Semana da crítica, mostra paralela do Festival de cinema de Cannes. 

A cineasta portuguesa Isadora Neves Marques começa por se referir às expectativas quanto à sua presença neste certame.á

"Com o filme que eu trago aqui à Semana da Crítica era já um objectivo estreá-lo em Cannes e também o meu próprio percurso chegar a Cannes e trabalhar a partir daqui.

Por isso, foi com imensa felicidade que nós fomos recebendo as notícias da estreia."

Então a sua curta metragem. "As minhas sensações são tudo o que tenho para oferecer" na Semana da Crítica está em competição. São cerca de dez curtas metragens.

Imagino que se tenha interessado também pelas outras propostas cinematográficas. Documentou-se? Viu ? O que é que pretende fazer? Quais são os seus objectivos, além de defender, obviamente, as cores do seu filme?

"Confesso que não. No meio de todo o trabalho, não tive muito tempo para olhar profundamente para os outros filmes, mas há algumas outras curtas e também longas que tenho interesse em tentar ainda ver até fora do meu próprio programa. Sim, sim."

E, portanto, só para lembrar que então, o júri presidido pela produtora francesa Sylvie Pialat.

Vamos então falar de "As minhas Sensações são tudo o que tenho para oferecer". Como é que você descreve o seu filme?

"É um filme muito íntimo, telepático, literalmente. Sobre duas jovens mulheres que vão passar um fim de semana a casa dos pais de uma delas.

E esse encontro é a primeira vez que que uma delas conhece a família da outra. E é um trabalho de tanta honestidade, dessa telepatia também emocional, mas também de uma certa violência e de falta de espaço, um certo sufoco.

Com um tom que para mim tem sido comum no meu trabalho, um pouco especulativo, um pouco fora do normal também na narrativa, Mas isso os espectadores vão ver."

Você tem-se tornado muito por questões do género, mas também por questões ecológicas, por questões de tecnologias de ponta. É também algo que encontramos aqui, onde efectivamente há uma relação mesmo telepática, entre as duas jovens que não necessitam de se falar para comunicarem.

"Exactamente, essa foi a premissa do filme. Para mim interessava-me esta ideia de sentir as sensações do outro, de estar dentro do outro.

E isso evoluiu para uma ideia de telepatia a certo ponto, porque também era um dispositivo interessante para a realização e para o trabalho com os actores. Portanto, foi num processo de trabalho que as coisas foram ganhando forma.

Foi um projecto muito rápido de realizar. E sim, este filme em particular tem esse elemento de uma certa tecnologia na sua relação com o corpo, que é tão contemporânea como lá está, especulativa."

Mas são actores com os quais você até já colaborou no passado, alguns entre eles. Como é que foi a constituição do elenco?

"Na verdade, neste filme não. Todo o elenco é novo. Não é a primeira vez que trabalho com os quatro actores. Uma das actrizes eu já conhecia pessoalmente. Já não era a primeira vez que tentávamos trabalhar juntas e finalmente aconteceu.

Mas foi um processo muito fácil. Eu faço um processo de casting normalmente muito íntimo e muito selectivo e então foi muito rápido e fácil construir o elenco. Mas é a primeira vez que trabalhámos."

E é tudo muito fluido. Portanto, são duas jovens, portanto um casal lésbico. E os pais são gays. Mas é um filme bastante fluido.

Faz também evocar muito a sua trajectória até anteriormente com o nome de Pedro Neves Marques.

Por exemplo, "Tornar-se um homem na Idade Média", onde se falava do desejo de ter um filho, situações de infertilidade ou mesmo a implantação de um ovário no corpo do Vicente, nomeadamente.

Ao fim e ao cabo a questão da filiação e da paternidade é também uma questão que a si lhe apraz bastante, não é?

"Sim, este filme, de facto, traz de novo um tema que, sob diferentes formas, eu tenho trabalhado nos meus filmes, que é uma ideia de família, mas que não tem de ser uma família de sangue. Pode ser um colectivo.

Neste caso, há claramente uma família. Há dois pais, um casal homossexual que tem uma filha. Portanto, há e há esse espaço também.

O espaço: essa casa que é estranha. A outra mulher que a vem visitar, não é E é um filme para mim também muito sobre sobre ambição, sobre confronto.

Porque há uma diferença de classe que é colocada em cima da mesa. Entre as duas jovens há uma família mais não necessariamente privilegiada, mas culturalmente bem integrada, que me interessa também. É um perfil particular. E uma ou outra jovem mais artística que vê aquilo como um objectivo, mas também como uma ameaça. Não é uma culpa de classe."

A dada altura estala o verniz, não é ? Com uma pergunta, nomeadamente: Mas qual dos dois é que ela detestava mais, não é?

Ora, obviamente, nós não temos muita noção que, durante a infância, as crianças possam efectivamente detestar os próprios pais, não é? Mas acontece...

"Sim, é uma fala que lá está. É um filme muito simples. É um filme de um fim de semana, mas que está recheado de pequenos momentos de diálogo. A escrita, para mim, é um dos prazeres maiores do cinema."

Interiores e exteriores.

"Sim, e em vários elementos. Há vários momentos em que há estas frases corrosivas ou provocadoras para testar um pouco aquele campo, aquele terreno familiar. Como se aquela personagem, a Lana, que seria a personagem principal do filme se estivesse a testar um pouco os limites do que pode fazer, não é? É sim."

E no entanto, você não é só cineasta, tem uma obra tão versátil. Obviamente. Esteve na Bienal de Veneza, por exemplo, representando Portugal com "Vampires in the space", por exemplo.

É artista plástica e poetisa, ensaísta. Como é que consegue encaixar tantos perfis numa única identidade? E o que é que lhe apraz, se calhar, fazer mais, entre tantas coisas que faz ?

"Para mim é muito natural. Flui tudo muito naturalmente e eu preciso de todos esses elementos para me sentir satisfeita.

Eu venho de um percurso da arte contemporânea, onde estabeleci uma carreira que, como disse, terminou ou culminou na Bienal de Veneza há dois anos atrás.

Mas o cinema tornou se algo para mim, muito, muito estimulante já há alguns anos. E é onde eu tenho, onde eu tenho estado a focar as minhas energias, muito de facto. E estar em Cannes agora e para mim é um pouco essa prova, essa seriedade. Mas eu multiplico-me um pouco."

 

Inclusive geograficamente: Brasil, Estados Unidos, Portugal, obviamente não é?

"Sim !"

Neste momento está está mais aonde?

Neste momento, numa fase de transição, é complexo ainda falar sobre o assunto, mas estou em mudança novamente.

Eu vivi muitos anos nos Estados Unidos. Foi onde eu vivi mais tempo. Vivi quase uma década em Nova Iorque e foi muito importante para mim por vários motivos.

Mas o regresso à Europa também foi... Veio com o cinema também, na verdade, foi um processo conjunto do regresso e tem sido mesmo o reencontro com Portugal também através muito do cinema.

Acho que esta relação com o cinema também me devolveu a Portugal. E tem sido esse processo conjunto. Mas sim, faz parte de mim, do meu perfil, da minha história. "

E que tipo de filmes é que vê, quais são as influências que de facto a marcam sobremaneira ?

Eu divido-me muito entre um cinema muito clássico, muito de guião, de actores. É algo de que eu gosto muito de "slice of life", como se diz no inglês, e tenho-me encaminhado muito para esse registo.

Trabalho com actores, profundo, etc. Divido-me entre esse perfil e algo mais especulativo, mais ficção científica, mais B. É o que eu tenho tentado fazer muito naturalmente. É essa união desses dois universos: narrativas muito naturais, mas que também tem sempre algo um pouco estranho por lá.

E de repente, em 2024, há muito cinema falado em português e nomeadamente cinema, mesmo português. Que olhar e que tem tido curiosidade e que tem em relação aos filmes que estão em cartaz, nomeadamente com uma longa metragem portuguesa que está em competição na seleção oficial ?

Refiro-me a "Grand Tour" do Miguel Gomes.

Vai tentar ver, tem interesse  ? E como é que interpreta o facto de este, neste ano, o cinema português ter tanta visibilidade?

"É incrível como o cinema português nos grandes festivais vai sempre manter uma presença forte. Não é um filme ou dois, são vários, não é  ?

Para um país com uma incapacidade estrutural de financiamento tão profunda é impressionante ! Impressiona-me. E impressionou-me também quando voltei. E lá está, quando voltei da América para Portugal e ver a energia com que se faz cinema em Portugal e é contagiante.

E as pessoas de facto são muito generosas. E é por isso que o cinema português existe, é porque há essa generosidade é sim, sem dúvida.

Por exemplo, o filme do Miguel Gomes. Sem dúvida que é um filme que eu quero ir ver e irei ver, na verdade.

Tenho imenso interesse também por algumas escolhas de realização e de narrativa do Miguel já há bastante tempo. Apesar de ser um projecto diferente do meu, mas acompanho com bastante interesse sempre e vou ver."

Mas você nunca ficou muito dentro de fronteiras. Fez nomeadamente dois filmes implicando o Brasil. Como é que isto se articulou para estes dois filmes no Brasil?

"Eu vivi. Eu vivi em São Paulo. Na verdade, em 2011, 2012, antes de ir para os Estados Unidos, tinha interesse de viver e consegui na altura um financiamento para ir para lá e depois fiquei lá um pouco.

E desde então que nos últimos mais de dez anos tenho uma relação íntima com o país e tenho não só amigos, como parceiros de trabalho, actrizes, por exemplo, actores com quem tenho trabalhado mais de uma vez.

E é muito naturalmente, não é ?Eu deixo-me também beber dessas relações.

Para mim, as relações interpessoais acabam por influenciar muito os meus trabalhos e a minha escrita. E foi assim. Neste momento não tenho tido projectos no Brasil, mas tenho sentido o "bichinho" de novo de voltar, mas logo se verá quando."

E em que medida é que, de facto, o seu percurso pessoal é complicado de se viver em Portugal.

Você tem o atrevimento de assumir e portanto sempre pegou nas questões do género. E isto é complicado no dia-a-dia. Como é que as pessoas a veem? Isso é algo que lhe é muitas vezes colocado como problemático?

"Não, não.

Sinto-me bem. Não me sinto... não me tenho sentido confrontada pessoalmente, o que é incrível !

A maneira como eu, no meu trabalho, penso muito essas questões de género, por exemplo: tento fazê-lo sempre de um modo muito incorporado nas histórias, nos personagens, algo que está claramente inserido nas narrativas.

Que as histórias sejam a mensagem, digamos assim,

E eu, enquanto pessoa trans, para mim é muito importante. Eu sei o que isso significa, mas é algo que eu escolho sempre estar dentro do meu trabalho e eu depois estou lá atrás. Mas. Mas sim, tem sido muito bom."