Curta metragem portuguesa em competição na selecção oficial do Festival de Cannes

Curta metragem portuguesa em competição na selecção oficial do Festival de Cannes

RFI Português
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Decorre até 25 de Maio em Cannes a edição de 2024 de um dos maiores e prestigiosos festivais de cinema.

Em competição na selecção oficial consta a curta metragem "Mau por um momento" de Daniel Soares.

Trata-se de um retrato da especulação imobiliária em Lisboa e dos seus malefícios em relação a pessoas de baixa renda, nomeadamente.
 

O cineasta português, já premiado internacionalmente, começa por se referir às suas expectativas em torno deste certame.

Ele admite que ter sido seleccionado para a competição na selecção oficial é algo que o faz feliz.

"Eu não tenho assim grandes expectativas. Ou seja, no sentido eu acho que eu já estou já, pronto, feliz por fazer parte do festival. Tipo, foi bastante inesperado e foi assim, sei lá, uma surpresa. Embora se possa a esperança fazer parte. Mas esse aspecto é ver filmes e, sei lá, apresentar o filme. E é um bocado por aí muita gente da equipa que vai estar presente também. E é isso é desfrutar do momento."

Não é a primeira vez que vai a festivais. Eu sei, por exemplo, que já teve estreias aqui perto, em Locarno, portanto já tem passado pela Galiza, pelos Estados Unidos, obviamente, onde esteve radicado.

Cannes é um festival diferente dos demais, daqueles que você vem fazendo ao longo dos tempos ?

"É assim: ainda não fui, então não consigo responder. Agora, na teoria, é o festival não é  ? É o festival que do qual queremos fazer parte. Ou seja, nesse sentido, sim, será mais especial que os outros, imagino.. Depois eu posso confirmar, depois do festival."

Então falemos um pouco precisamente da competição, das curtas metragens da selecção oficial que você integra. São 11 ao todo, incluindo um outro filme lusófono, no caso brasileiro.

Teve curiosidade? Documentou-se em relação às outras curtas metragens que terá pela frente ?

Também imagino que se tenha interessado pelo júri, que é presidido pela actriz belga Lubna Azabal. Que olhar é que tem então acerca precisamente desta competição, dos filmes que lá vão estar e do júri que estará lá precisamente para avaliar os filmes ?

"É engraçado porque eu tenho um amigo meu que tem um filme em competição lá também, que é do Kosovo. Que é Samir Karahoda, que eu já conheço de outros festivais de Clermont-Ferrand.

Acho que foi aí que nos conhecemos pela primeira vez

E no ano passado também estive no Kosovo, no Docufest e ele faz parte lá da organização, ou seja, é um amigo. Eu, aliás, eu até já vi o filme dele também. Ele viu o meu. Gosto muito dos filmes dele, por acaso. Esse é o único filme que eu conheço e a única pessoa em competição que eu conheço.

Os outros filmes. É óbvio que se vai ver quais são os países, mas ao mesmo tempo não dá para saber muito dos filmes, não é? Porque só tem a sinopse. É sobretudo uma alegria de fazer parte deste grupo.

Eu não vejo tanto a competição do prémio e não sei o quê  Porque eu acho que senão nunca vou estar satisfeito e para mim, fazer parte desses 11 filmes de sei lá, acho que foram 4 400 filmes submetidos. Para mim isso já é um sucesso, Isso se eu não curtir esse momento, não aproveitar e não ficar contente e satisfeito com isso eu acho que nunca ficarei satisfeito com nada.

Falemos um pouco da sua trajectória, que é deveras interessante, não é? Você é de pais portugueses. Nascido na Alemanha, vivia nos Estados Unidos e foi fazendo filmes por onde passou. Não é só nos Estados Unidos, salvo erro, foram três do normal. "People totally free". Depois, efectivamente, "O que resta" "Please make it work"... Alguns destes já premiados e aqui então chega com "Mau por um momento".

Há assim, algum fio condutor que nos possa explicar relativamente às obras que você foi concebendo ao longo do tempo acerca dos temas que lhe são caros ?

"Eu acho que o primeiro filme é o "Forgotten", ou seja, todos os anteriores não são bem filmes, foram os exercícios onde eu fui, sei lá, documentando por exemplo, o "Totally Free". Eram uns skaters, uns roller skaters."

Patins !

"Exacto. Que eu fui seguindo e não sei quê. Mas eu cheguei ao cinema muito tarde e nessa altura eu fazia coisas sem saber muito bem o que é que era o cinema. E fui-me apaixonando com o cinema muito tarde. Porque eu trabalhei muito tempo como director de arte e como designer gráfico. Isso foi assim, como você já disse exactamente. Eu nasci na Alemanha, os meus avós e os meus pais eram imigrantes [portugueses].

Eu acho que a partir do filme "O que resta" é quando eu começo a fazer ficção.

Ou seja, estes últimos três e depois "Please make it work", que foi filmado em Locarno, na Suíça, sobre uma imigrante mulher de limpeza que limpa Airbnb sofisticados nos Alpes suíços. Ou seja, eu acho que há aqui uma coisa que o fio condutor que é: Muitas vezes os meus filmes são sobre a classe trabalhadora ! Que é enfim, é de onde eu venho, de certa forma.

Ou seja, esta ideia de... Em França será o mesmo: estas raízes na imigração dos anos 70/80.

Os portugueses que foram para lá foram fazer trabalhos que se calhar os alemães, os suíços, os franceses não queriam fazer.

E foi assim um bocado aí que eu cresci.

E depois, claro, através do esforço dos meus pais e depois dos estudos e não sei quê, eu fui por outro caminho, graças a eles, é claro.

E aí muitas vezes eu vejo-me do outro lado. Então interessa-me muito esta coisa das classes sociais, das divisões, das classes sociais, das tensões e mesmo de solidificação."

Eu fiquei com a noção, por exemplo, em "O que Resta", que tem muito o governo, precisamente com o êxodo rural, com a desertificação do interior em Portugal ?

"Esse filme foi filmado na aldeia dos meus avós e da minha mãe, de onde eles saíram. Ou seja, foi o primeiro filme de ficção. Eu queria filmar num lugar que eu conhecesse, com muitos portugueses. Eu vivia na Alemanha e voltava nos verões para passar os tempos lá.

Aquelas férias de seis semanas longas e nós íamos todos os anos. E para mim eu conhecia muito bem os espaços, os lugares, as pessoas e portanto, para mim fazia sentido fazer esse filme.

E esse filme também era sobre um agricultor que se separa do seu último animal e que também foi baseado na história do do meu avô, que depois quando eles voltaram para Portugal tinham uma quinta, uns animais, enfim, os campos e trabalhavam nos campos. E eram felizes dessa forma, depois de voltar."

"Mau por um momento", já é um retrato bastante contemporâneo do Portugal de Lisboa, da gentrificação desta mega-metrópole. Do facto de as pessoas de baixa renda terem cada vez mais dificuldades em se manterem na cidade, porque há projectos imobiliários que obrigam a desalojamento para se conseguir ter porventura a vista mais bonita sobre a capital portuguesa, não é?

"Exacto. E não é só a vista mais bonita, mas também assim a vista mais bonita é vista a que não estamos habituados a muitas vezes, por exemplo, da Ponte 25 de Abril.

Estamos habituados a ver a ponte de um lado, de um certo lado.

E aqui o filme começa com este postal da Ponte de Lisboa da Ponte 25 de Abril, mas depois tem esta panorâmica e acabamos neste bairro social.

E é isso, ou seja, esta exploração do espaço que parece não ter fim e que depois começa a chegar a lugares que há dez anos ninguém queria viver lá e hoje em dia começa a ser..  E depois, muitas vezes com nomes ingleses, existe um rebranding dos Passos e não sei o quê. E é isso. Constrói-se então esses lugares. Sim, é esta luta pelo espaço, é quase de certa forma, uma guerra pelo espaço."

Eu retenho sobretudo uma frase "O mundo será melhor lá fora se descarregarem a raiva aqui dentro". Quer comentar ?

"Sim. Ou seja, esta ideia do filme começou não necessariamente com gentrificação, mas começou-se com esta ideia de pronto.

Aí em Paris, por exemplo, eu lembro-me também de ver nos subúrbios de Paris muitas pessoas a atacarem carros, a destruírem carros muito jovens, revoltados com as suas situações.

E ao mesmo tempo, como os media, catalogaram estas pessoas. E ao mesmo tempo este fenómeno que existe à volta do mundo, de lugares, de espaços onde o pessoal pode, em troca de algum dinheiro, destruir coisas por simples prazer.

Ou seja, a motivação de destruição acaba por ser se calhar uma coisa parecida, uma de uma motivação parecida. Mas para quem tem dinheiro. E  para quem tem dinheiro não há nenhum problema e para quem não tem, obviamente tem repercussões diferentes.

Ou seja, e é isso, esta ideia de estes espaços que se chamam "Car smash" ou "Red rooms". Existem muitos nomes para isso. E esta teoria quase filosófica de que se todos tivermos um espaço onde possamos livrar-nos da nossa raiva através da destruição que o mundo lá fora podia ser um lugar melhor."

E que as empresas possam fomentar este tipo de eventos, precisamente do chamado "team building" .

"Depois existem as empresas que também vão fazer isso com eventos de team building e não sei quê... Que mostra claramente que aquilo que muitas pessoas fazem no seu dia-a-dia, no seu trabalho, é uma coisa que os deixa de certa forma..."

Enraivecidos.

"Enraivecidos. E é isso. E por exemplo, agora, depois da minha história pessoal, eu também trabalhei muito tempo com publicidade e muitas vezes eu questionava-me.

Ou seja através daquilo que, das campanhas que fazemos e não sei o quê, que isto pá,: Isto não torna o mundo um lugar melhor, não é?

Esta. As campanhas, muitas vezes pelo contrário, Mas mesmo assim nós vamos fazendo e íamos fazendo e as pessoas vão fazendo.

Interessava-me muito também no processo da gentrificação, não só contar a história de quem está no fundo, mas quem activamente participa nisso.

E como é que essa pessoa auto-justifica as suas ações ? O que muitas vezes é tal coisa que passa por pôr comida na mesa, tem que pagar a renda.

E isso é o início de justificações que contamos a nós próprios, depois vai por aí além. E podem ir a outros espaços."

Eu sei que fala muito em Abbas Kiarostami, em Haneke, nos irmãos Dardenne como influências.

E sei também que este filme chega através do "Som e da Fúria" e de "Kid With a Bike", que é também o nome de um filme dos irmãos Dardenne, não é? Pode explicar ?

"Exacto. Aquilo que é uma produtora minha e de uma amiga, Romina Orsini, que fomos criando desde o filme "O que resta."

E sim, exactamente vem desse filme" Kid with a bike" que é um filme que me encantou bastante quando eu o vi pela primeira vez, dos irmãos Dardenne.

E ao mesmo tempo evoca o meu primeiro emprego, quando tinha 14 anos, era um gajos que entregava tipo revistas de porta em porta na Alemanha.

Então com uma bicicleta lá ia também a distribuir essas revistas grátis que existem lá, com publicidades e não sei o quê !

Então achei que faria sentido chamar a produtora, isso sim.

O filme é produzido pela "Som e Fúria", maioritariamente, e sem eles isto não teria sido possível fazer este filme.

Sim, como disse também que "O Som e a Fúria" já tem toda uma história no cinema mundial, e, sobretudo português. E foi um orgulho também fazer este filme com ele."