
A Cimeira Mundial da Energia Nuclear realizou-se em Paris na semana passada, reunindo chefes de Estado, responsáveis de organizações internacionais, instituições financeiras e líderes da indústria nuclear para discutir o papel da energia nuclear no futuro energético mundial. A reunião teve como principal objectivo reforçar a cooperação internacional e promover o desenvolvimento seguro e sustentável da energia nuclear civil, num momento em que a procura global de electricidade cresce e aumenta a pressão para reduzir as emissões de carbono. Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação do governo português e antigo director de novas tecnologias de energia na Comissão Europeia, defende que a energia nuclear é a melhor solução e explica porquê.
Por que motivo a energia nuclear volta a estar no cento do debate internacional?
A energia nuclear está a voltar ao debate nacional porque sempre foi e continua a ser o tipo de energia que resolve os problemas com os quais a humanidade está confrontada. Por ser a energia mais densa, tem maior densidade energética, não sofre de intermitência e permite, de uma forma limpa, produzir energia fiável, disponível 24 horas por dia. Estes são os grandes trunfos da energia nuclear.
Para lhe dar uma ideia, para produzir a mesma unidade de energia é necessário 20 vezes mais materiais e recursos físicos. Estamos a falar de betão, aço, cobre, vidro, de todos os tipos de materiais. Alguns deles até críticos e difíceis de obter, como as terras raras, que neste momento estão completamente controlados pela China. Com energia renovável, precisa-se de 20 vezes mais do que com energia nuclear. Por isso, em termos de densidade energética, esta tem um valor extraordinário. Com muito pouco combustível, consegue produzir muita energia, à medida das necessidades, e não à medida da meteorologia.
O objectivo é, até 2050, atingir a neutralidade carbónica e responder à procura global de electricidade. Num contexto actual, a energia nuclear é a melhor solução?
É a melhor solução. Sempre foi. No passado, a energia nuclear foi confrontada com uma campanha muito negativa. Primeiro, uma campanha intensa feita por razões geopolíticas, na altura da Guerra Fria, porque a União Soviética não queria que o Ocidente ganhasse independência através da energia nuclear, embora eles próprios a estivessem a desenvolver, criando uma campanha política contra a energia nuclear. Depois houve o acidente de Chernobyl, que também afectou gravemente a credibilidade e a percepção de segurança desta forma de energia. Houve ainda Three Mile Island e o acidente de Fukushima, mais recentemente, quando estávamos novamente numa época de renascimento nuclear.
No entanto, todos estes acidentes tiveram pouquíssimas vítimas. Apenas Chernobyl registou vítimas mortais, número que é infinitamente inferior ao que ocorre todos os anos, por exemplo, na produção de energia eléctrica a partir do carvão ou de outras fontes fósseis.
Mas também se sabe que, no processo de desmantelamento das centrais nucleares, todo aquele material demora anos até desaparecer…
Isso acontece com qualquer actividade industrial perigosa. No caso da energia nuclear, de forma muito mais controlada, os resíduos estão monitorizados e o desmantelamento é obrigatório. Há actualmente desenvolvimentos muito interessantes em novas tecnologias, como os pequenos reactores modulares.
Na cimeira falou-se do financiamento de novos projectos nucleares, incluindo os reactores tradicionais. Qual é a importância destes reactores?
Os pequenos reactores modulares existem na frota dos porta-aviões, nos submarinos nucleares e nos quebra-gelos russos, e existem também adaptados para a produção de energia civil russo e existe um novo reator deste tipo na China, no deserto de Gobi. Estes reatores são extremamente promissores e julgo totalmente possível que, nos próximos anos, apareçam pequenos reactores a produzir energia eléctrica a um valor competitivo no mercado, cerca de 30 euros por MWh.
Isso vai pôr em questão o investimento em energia eólica. Não fará já sentido económico substituir parques eólicos cuja substituição será mais cara do que esta solução. Além disso, os parques eólicos e centrais solares têm uma vida útil muito mais curta, cerca de 20 a 25 anos, enquanto uma central nuclear demora no mínimo 60 anos e pode durar até 100 anos.
Mas os países estão preparados para este desafio?
Uns estão mais preparados, outros menos, e há quem ignore o problema - é o caso de Portugal, que por enquanto não participa na Aliança Europeia dos Pequenos Reatores Modulares. Para mim, seria obrigatório estar presente, até para acompanhar o que está em desenvolvimento. A Europa não está a acompanhar o esforço desejado. Os Estados Unidos, até por razões militares, estão a investir nesta área, tal como a China e a Rússia. Para nos mantermos competitivos e atrair investimento na indústria, precisamos de uma base de energia muito competitiva. Hoje, os nossos custos são o dobro dos Estados Unidos e o triplo da China.
Nesta competição, a França pode ser um exemplo?
A França tem tentado investir nos pequenos reactores modulares com a New Board, mas sofre, como toda a Europa, de uma hiperregulação, com exigências desnecessárias que tornam a construção muito mais cara. É preciso fazer um esforço para simplificar estes processos, sem nunca pôr em causa a segurança, que deve ser sempre salvaguardada. Os Estados Unidos estão a simplificar o licenciamento de novas centrais para tornar o processo mais ágil.
A inteligência artificial tem aumentado o interesse pela energia nuclear. Como se explica este fenómeno?
A inteligência artificial requer enorme quantidade de energia para funcionar, com centros de dados que consomem tanto como países inteiros. Por isso, será indispensável utilizar energia nuclear, pois só esta combina densidade energética e fiabilidade, sem intermitência. Sem isso, estamos fora do mercado, como já aconteceu em várias indústrias que foram para a China, devido à nossa obsessão por liderar a transição climática com métodos inadequados, como a dependência excessiva das energias renováveis. Renováveis são um óptimo complemento, mas nunca podem ser o pilar; a base tem de ser nuclear. A China está a liderar todos os sectores críticos para a transição energética.
A cimeira foi marcada por críticas, nomeadamente da Greenpeace, que contesta o nuclear e alerta para riscos de segurança e dependência de cadeias de abastecimento ligadas à Rússia. A urgência de atingir a neutralidade carbónica e responder à procura de eletricidade não pode sobrepor-se aos perigos da energia nuclear?
Não. Pelo contrário, os maiores perigos estão associados à alternativa que a Greenpeace defende: energias voláteis, variáveis e incontroláveis. Isso é que constitui um grave risco ambiental. Para produzir a mesma unidade de energia, é necessário 20 vezes mais recursos, o que é insustentável ambientalmente. Além disso, é preciso armazenar energia em baterias ou barragens, duplicando o consumo de recursos. Por isso, os ambientalistas que rejeitam a energia nuclear acabam por ser os maiores inimigos do ambiente. Os verdadeiros aliados do ambiente são aqueles que defendem a energia nuclear, que é limpa, segura e competitiva.