
Documentário mostra legado de tenor brasileiro e busca novos públicos para a música clássica
Brasil-Mundo
Durante 14 anos, pesquisas, viagens e emoções se entrelaçaram para compor “Aldo Baldin – Uma Vida pela Música”, em cartaz no Brasil. O filme, dirigido por Yves Goulart, já recebeu 24 prêmios em festivais pelo mundo, e é um dos dez indicados a Melhor Documentário no Septimius Awards, que acontece no início de setembro em Amsterdã. Mais do que um retrato de uma voz única, o documentário é um símbolo de resistência.
Cleide Klock, correspondente da RFI em Los Angeles
Ao resgatar um artista ausente da memória popular, a obra convida à reflexão sobre arte erudita, democratização cultural e a necessidade de dar acesso à música clássica a uma nova geração. Aldo Baldin (1945-1994) foi um tenor brasileiro de projeção internacional, considerado um dos intérpretes mais importantes da música erudita do século 20 no Brasil. O cantor nasceu em Urussanga, que também é a cidade natal do cineasta Yves Goulart. Mas o diretor só conheceu a história de seu conterrâneo quando já estava morando nos Estados Unidos.
“Eu reconheci a minha cidade na capa de um disco que tinha a Igreja Matriz de Urussanga. Eu me perguntei como que a Igreja Matriz de Urussanga, onde eu fui sacristão, está aqui em Nova York? Que história é essa? Que disco é esse? Virei a capa e estava escrito ‘Aldo Baldin’, tenor brasileiro, nascido em Urussanga. Ali, então, foi a minha garra de dizer: precisamos fazer um documentário sobre o tenor catarinense Aldo Baldin”, relembra Goulart.
Foram 14 anos de pesquisas, filmagens e viagens, principalmente na América do Sul e na Europa, onde começou e depois se consolidou a carreira do tenor.
“Imagina, hoje eu estou com 50 anos, eu comecei quando tinha 35. Foi muito importante esse amadurecimento até para mim como artista, como documentarista, para evoluir nessa linguagem”, diz o cineasta.
A viúva de Aldo, Irene Fleisch Baldin, foi quem abriu todas as portas para Yves e assina como diretora musical. Entre os tesouros encontrados, está uma fita cassete gravada por Aldo três dias antes de sua morte precoce, aos 49 anos, na qual deixou sua história contada por sua própria voz, com as pessoas que fizeram parte de sua trajetória. No documentário é possível ouvir Aldo e também ver pessoas citadas por ele, peças-chave da música clássica brasileira e mundial, dando depoimentos sobre a importância do artista pouco conhecido do grande público.
Música clássica em tempos de algoritmos
Mais do que uma biografia, o documentário reflete sobre o desafio de formar novos públicos para a música clássica. Em tempos de consumo rápido e algoritmos que priorizam conteúdos efêmeros, a ópera e o canto lírico enfrentam dificuldades para dialogar com o grande público.
“Eu recebi uma resistência, sim. Eu percebo isso e encaro também com muita humildade e com sabedoria para não me frustrar. O que acontece é que nós estamos afastando o público da música clássica. Tanto é que hoje a gente não chama mais de música erudita, porque fica um distanciamento, uma erudição. Parece que eu preciso saber o que é erudito para colocar isso em algum lugar. Não. A música clássica hoje se fala dessa forma porque ela pode ser de acesso de todos”, diz.
O diretor considera que ainda há pouco espaço nos meios de comunicação e nas iniciativas dos governos para dar acesso à arte erudita para um público mais jovem e lembra que antes a música clássica fazia parte até da programação das TVs abertas que exibiam “Concertos para a Juventude".
No início de agosto, aconteceram sessões gratuitas do documentário para escolas em Santa Catarina, já que uma das intenções da obra é trazer proximidade e estimular a formação de plateia.
"É mostrar para essas crianças, esses jovens, que a gente tem algo a mais do que o samba e o futebol. De que a gente tem a música clássica, temos Heitor Villa-Lobos, Carlos Gomes, Santoro, que nós temos Aldo Baldin e tantos outros. Necessitamos que essa obra continue viva”, entusiasma-se Yves Goulart.
De Urussanga para o mundoEm 18 e 19 de agosto, haverá uma sessão especial em Urussanga, no mesmo local onde Aldo se apresentou nos anos 1980. Será a primeira vez que parte da família retratada no documentário verá o resultado final.
O diretor planeja, em breve, lançar “Aldo Baldin - Uma Vida pela Música” em cinemas de diferentes países, com prioridade para a Europa e os Estados Unidos, onde reside, e posteriormente disponibilizá-lo em plataformas de streaming, ampliando seu alcance e garantindo que a produção e a história de Aldo cheguem a públicos variados em todo o mundo.
“A fotografia, o som, está tudo voltado para o olhar dentro da sala de cinema. Quando você vê o filme na sala de cinema, ele abraça o público e é bonito de ver. Então a gente espera que em breve possamos conseguir os distribuidores na Alemanha e nos Estados Unidos para que a gente possa também estar com o filme nesses lugares. Principalmente na Europa, onde o Aldo fez uma carreira brilhante”, conclui.