Ep. 23 - Construção

Ep. 23 - Construção

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CONSTRUÇÃO
[Chico Buarque, Construção, 1971]

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo por tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com o seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo por tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu com se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado.

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pela caçhaça, de graça, que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras pra nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

PROBLEMATIZANDO!
1) – Faça uma comparação, estabelecendo as semelhanças e diferenças, entre o operário retratado na letra da música de Chico Buarque e o operário retratado no poema ‘O Operário em Construção’ do Vinícius de Moraes.
2) – Como o poema e a música retratam a questão da capacidade do ser humano de refletir criticamente sobre sua atividade, seu fazer cotidiano?
3) – Quais os problemas mais atuais dos operários da construção civil que são retratados pela letra desta música?
4) – Por que, em sua avaliação, o cantor Chico Buarque faz uso do jogo das palavras, de uma estrofe para a outra, na letra da música, p. ex., “Amou daquela vez como se fosse a última, (...) Amou daquela vez como se fosse o último, (...) Amou daquela vez como se fosse máquina (...)”
5) – Como a letra desta música retrata os acidentes de trabalho? Eles são mais comuns e fatais na construção civil? Como um trabalhador que sofre um acidente de trabalho deve proceder? O que é a CAT? O que ela garante ao trabalhador acidentado? Por que será que acontecem tantos acidentes de trabalho no Brasil? Pesquise e veja as estatísticas, você se surpreenderá!
6) – Você é um trabalhador? Em seu local de trabalho tem CIPA? Qual a importância da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) nos locais de trabalho?
7) – Estabeleça uma comparação entre esta canção e as canções Deus lhe Pague e Pedro Pedreiro?
8) – Quais questões deixamos de abordar em relação à letra desta canção?
9) – Qual a mensagem que você tira desta música?
Participação Especial: Tereza Barbosa, cantora e produtora cultural.
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Language

Portuguese

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