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Pacientes com doença de Pompe, uma condição rara, lutam por acesso ao tratamento no Brasil
18 August 2026

Pacientes com doença de Pompe, uma condição rara, lutam por acesso ao tratamento no Brasil

Saúde em dia

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A doença de Pompe é uma condição hereditária rara, com prevalência estimada de cerca de um caso a cada 50 mil nascimentos no Brasil. Ela afeta os músculos e apresenta sintomas que variam dependendo do paciente, o que pode dificultar o diagnóstico precoce. É causada pela ausência ou deficiência da enzima alfa-glicosidase ácida (GAA), responsável pela metabolização do glicogênio, principal reserva de energia do organismo.

Taíssa Stivanin, da RFI

O acúmulo de glicogênio dentro dos lisossomos das células musculares gera danos aos músculos e, às vezes, ao coração, causando perda parcial ou até total das funções motora e respiratória. Na forma infantil, a doença aparece no primeiro ano de vida e evolui rapidamente, explica a geneticista Carolina Fishinger, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Ela pode ser detectada no teste do pezinho ampliado, mas apenas Minas Gerais e o Distrito Federal incluem a doença de Pompe na triagem neonatal.

Os sintomas da patologia são hipotonia (diminuição do tônus muscular), fraqueza muscular, dificuldade de deglutição e de respiração e problemas cardíacos graves, com necessidade de intervenções hospitalares urgentes e precoces.

Quando a doença se manifesta na idade adulta, em geral, a atividade enzimática que provoca os sintomas pode ser um pouco mais elevada, e esse acúmulo ocorre de forma mais lenta. “Os pacientes têm fraqueza muscular, intolerância ao exercício, cãibras, mas sem problemas cardíacos. Normalmente, esses pacientes têm dificuldade para subir escadas, para levantar-se da cama e para andar", explica a geneticista.

"Eles fazem uma marcha 'dançante' para tentar adaptar a perda de força dos músculos do quadríceps. Pode ter escápula alada por causa da fraqueza dos músculos intercostais. Há dor, sofrimento e, com o passar do tempo, esse acúmulo causa também dificuldades respiratórias que, muitas vezes, levam o paciente à ventilação mecânica.”

A especialista alerta para sintomas aparentemente banais, como fadiga, dificuldade muscular ou suspeita de alguma distrofia. A forma adulta muitas vezes confunde não só os pacientes, mas também os médicos. Esse foi o caso do administrador de empresas Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro. Ele conta que, aos 13 anos, começou a ter dificuldades para fazer exercícios. Na escola, jogar bola com os amigos, por exemplo, tornou-se um desafio diário.

“Toda vez que eu fazia algum esforço físico, sentia dores no abdômen e uma certa dificuldade na respiração. Isso me acendeu um alerta. Comentava isso em casa com meus pais. Até que um dia fui ao médico para falar sobre essas dificuldades e foram feitos alguns exames de sangue”, conta.

Nos testes laboratoriais foram detectadas alterações nas enzimas hepáticas TGO e TGP e nos níveis de creatinina, o que levantou a suspeita da doença. Mas vários anos se passaram até Ismael consultar um reumatologista e descobrir, por volta de 2013, que tinha a condição. Atualmente, o diagnóstico pode ser feito por meio da dosagem enzimática ou por exames genéticos que detectam alterações no gene GAA. “Dei graças a Deus por ter descoberto e fechado o diagnóstico”, conta Ismael.

Briga na Justiça

A dificuldade agora é obter o tratamento. Desde novembro, Ismael aguarda os medicamentos de reposição enzimática, que têm alto custo. Para consegui-los, precisou recorrer à Justiça contra o governo federal, mas os processos seguem suspensos. “Não só eu, mas uma grande parte desses pacientes está ficando desassistida. A partir do momento em que a gente fica sem fazer o tratamento, percebe o quanto a doença afeta o nosso dia a dia”, afirma.

O tratamento não é disponibilizado pelo SUS para pacientes adultos. Para se ter uma ideia, o custo anual da terapia, que varia de acordo com o peso do paciente, pode ultrapassar R$ 1 milhão. “Isso é um horror, porque os pacientes com a forma adulta enfrentam sofrimento e progressão da doença tão graves quanto os das crianças”, lamenta Carolina Fishinger.

“Apenas os pacientes com a forma infantil têm acesso ao tratamento. Normalmente, dependendo da gravidade do quadro, é necessário adotar um protocolo de imunossupressão nos dois primeiros meses para que o organismo aceite a enzima administrada e não desenvolva uma reação contra ela”, explica.

Segundo a especialista, a forma adulta não requer imunossupressão, apenas a terapia de reposição enzimática a cada 14 dias. “O tratamento busca reduzir o acúmulo de glicogênio dentro das células e os danos progressivos causados por ele. Com isso, é possível estabilizar e melhorar a condição clínica dos pacientes, a capacidade respiratória e o desempenho físico. Nas crianças, também há benefícios para a função cardíaca.”

Carolina Fishinger destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre a doença de Pompe e aumentar a suspeita clínica entre os profissionais de saúde. “O tratamento é fundamental e deve ser iniciado o mais cedo possível para evitar sequelas e a destruição do tecido muscular.”