Trinta anos depois, Fernanda Abreu revisita Da Lata no Festival de Cinema Brasileiro de Paris
08 April 2026

Trinta anos depois, Fernanda Abreu revisita Da Lata no Festival de Cinema Brasileiro de Paris

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Fernanda Abreu apresenta esta semana na capital francesa o documentário “Da Lata – 30 anos”, exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em um retorno carregado de simbolismo. É o reencontro com a cidade que, ainda em 1995, soube reconhecer a modernidade do seu trabalho e acolheu uma artista que transformava música, corpo e cidade em linguagem contemporânea, muito antes do Brasil urbano ganhar lugar no imaginário global.

Lançado no Brasil em 1995, o álbum Da Lata chegou à França pelas mãos do selo Totem Records, então voltado às músicas do mundo, e encontra uma recepção que surpreende Fernanda Abreu. Sem grandes expectativas em relação ao impacto do disco na Europa, a artista se viu imersa em uma intensa agenda de entrevistas – entre elas, uma passagem marcante pela RFI. Foi naquele contexto que uma das primeiras conversas com a imprensa francesa, com a jornalista Véronique Mortaigne, do Le Monde, cristalizou o impacto visual e simbólico do projeto.

O figurino com frigideiras, imagem central do álbum Da Lata e dos shows de Fernanda Abreu, foi lido como um gesto radical de afirmação feminina. Uma interpretação que projetava sobre o Brasil um avanço que a artista ainda não sabia existir, mas que já revelava a força estética e política do disco. O corpo feminino ocupava o palco com brilho, deslocava objetos de cozinha, latas e outros adereços metálicos do cotidiano doméstico para a cena e transformava a modernidade brasileira em linguagem artística.

O entusiasmo francês se traduziu em vendas, entrevistas, presença nas grandes lojas de discos da época e, sobretudo, em shows que consolidaram sua imagem internacional. “A receptividade foi muito boa, muito boa. E depois vieram os shows, que coroaram mesmo a minha figura aqui como uma artista brasileira fazendo uma nova música moderna brasileira.”

Um disco à frente do seu tempo

Trinta anos depois, Fernanda relê Da Lata como um trabalho precursor. “Foi um disco muito importante para a música brasileira”, afirma. “Ali no Rio de Janeiro, a gente estava começando a entender o que era o funk carioca.” Ela lembra que, poucos anos depois do primeiro álbum de DJ Marlboro, o funk já aparecia como referência no disco. “Você vê hoje como o funk dominou o Brasil e está indo para o exterior, na figura de Anitta, que é uma grande artista pop brasileira.”

Ao mesmo tempo, Fernanda introduzia o samba dentro de uma linguagem pop e eletrônica que dialogava com o circuito internacional. A lata, a panela, os materiais não nobres se tornavam símbolos. “A sociedade brasileira é muito desigual. A frigideira e a lata significam essa possibilidade do brasileiro de construir a vida com criatividade mesmo diante de tanta adversidade.”

Estética, desigualdade e política cotidiana

Essa dimensão leva inevitavelmente à política, entendida pela artista não como militância partidária, mas como prática do dia a dia. “Eu sempre achei que a política é a nossa vida cotidiana”, diz. “Acordar de manhã e lutar por justiça social, por uma igualdade maior, por um país mais justo, especialmente o Brasil, que é um país muito rico e que é muito desigual.” Para Fernanda, o olhar coletivo foi aprendido desde cedo. “A sociedade é a nossa família. Eu aprendi isso em casa.”

O documentário “Da Lata – 30 anos” nasce do desejo de contextualizar esse momento histórico. Dirigido por Paulo Severo, o filme parte de um vasto acervo audiovisual registrado durante a produção do disco. “Eu filmei a gravação toda do álbum, a mixagem, o making off, a estreia no Canecão”, explica o diretor. “Esse material ficou guardado comigo.”

A ideia de transformá‑lo em documentário surgiu inicialmente como um projeto de 25 anos, interrompido pela pandemia. “Seis meses antes dos 30 anos, ela me ligou e disse: ‘Temos que fazer’”, conta Severo. A partir daí, começou o trabalho de digitalização e decupagem do material.

A posição privilegiada do diretor no estúdio permitiu um registro raro. “Eles esqueciam que eu estava lá. Eu virei um móvel.” O distanciamento revela uma Fernanda Abreu no comando. “Você vê uma mulher, há 30 anos, cercada de homens, absolutamente tranquila, sabendo exatamente o que queria fazer.”

Além do arquivo, o filme incorpora depoimentos atuais. “Chamamos 33 pessoas que participaram daquele processo para dizer, agora, como veem o Da Lata”, explica Fernanda. Produtores, músicos, fotógrafos, empresários e executivos ajudam a reconstruir o impacto do disco sobre a música brasileira.

Circulação e retorno ao palco

Outro eixo do documentário é o Rio de Janeiro dos anos 1990. “A gente precisava contar o que era o Rio naquele momento”, diz Severo. A ascensão do funk, a repressão aos bailes e a emergência de uma cultura periférica ainda sem legitimidade entram em cena. “A Fernanda foi praticamente a primeira a dizer: ‘Isso existe, é uma cultura forte’.”

Depois da estreia no Festival do Rio, Da Lata – 30 anos inicia uma circulação internacional que passa agora por Paris e segue por festivais nos Estados Unidos, no Brasil e em Portugal.

Paralelamente, Fernanda leva o projeto de volta ao palco, em uma coincidência simbólica: o grupo britânico Soul II Soul, ligado à produção do disco original, retorna aos palcos e divide a noite com a artista. “Vou fazer a estreia do Da Lata na mesma noite em que eles se apresentam no Brasil”, anuncia. “Dia 11 de abril, no Vivo Rio, e dia 14, no Tokio Marine Hall, em São Paulo.”