Pesquisadora brasileira é premiada em Paris por tese sobre educação de professores indígenas no RJ
22 August 2025

Pesquisadora brasileira é premiada em Paris por tese sobre educação de professores indígenas no RJ

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A pedagoga brasileira e doutora em Educação Carolina Miranda de Oliveira recebeu, em Paris, o prêmio de melhor tese de doutorado sobre a América Latina, concedido pela Fundação Professor Andrzej Dembicz e pelo Conselho Europeu de Investigações Sociais sobre a América Latina (Ceisal). A pesquisa premiada aborda a primeira turma de magistério indígena da aldeia Sapukai, em Angra dos Reis (RJ), e analisa os impactos do curso na preservação da língua e cultura Guarani Mbyá.

A tese de Carolina Miranda, intitulada “Limites e possibilidades: um estudo de caso sobre como um curso de Pedagogia Indígena pode ou não contribuir para o fortalecimento da cultura e da língua indígena”, se destacou por relatar os desafios enfrentados pelas comunidades diante da hegemonia da língua portuguesa. Em suas conclusões, o estudo propõe caminhos para uma educação verdadeiramente intercultural e bilíngue.

A Fundação em homenagem a Andrzej Dembicz foi criada pela família do cientista e sociólogo polonês, que se dedicou durante mais de 40 anos aos estudos da cultura latino-americana e caribenha. Ele foi presidente do Ceisal e chegou a ser condecorado em 2002 com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a mais alta honraria da república brasileira. Desta vez, durante o terceiro concurso de melhor tese de doutorado escrita na Europa sobre a América Latina e o Caribe, foi Carolina Miranda quem recebeu uma distinção europeia.

A pesquisadora, nascida em São Gonçalo, formou-se em Pedagogia pelo Instituto de Educação de Angra dos Reis da Universidade Federal Fluminense (UFF) e conquistou uma bolsa de mestrado na Universidade de Cádiz, na Espanha, onde também prosseguiu seus estudos de doutorado, sempre alinhada à temática da educação indígena. 

Na cerimônia de entrega da recompensa na Universidade Sorbonne Nouvelle, durante o 12⁠º Congresso do Ceisal, realizado na capital francesa, ela recebeu das mãos da filha de Andrzej Dembicz, Katarzyna, uma medalha e um prêmio de cerca de R$ 6.300. 

Carolina Miranda de Oliveira explicou à RFI que o tema de suas pesquisas surgiu ainda no início da sua trajetória acadêmica.

“Eu conheci o projeto do professor Domingos Nobre, que atua na escolarização indígena em Angra do Reis há mais de 30 anos. Passei no processo para ser bolsista desse projeto e, desde então, comecei a estudar sobre escolarização indígena com ele”, conta. Depois, ela se tornou professora alfabetizadora no projeto coordenado por Nobre, que posteriormente foi seu co-orientador na tese do doutorado.

Educação indígena começa a dar os primeiros frutos

O magistério indígena começou em 2018 em Angra dos Reis, após superar muitas barreiras para ser implementado, entre elas a pandemia de Covid-19. Em julho deste ano, aconteceu finalmente a formatura da primeira turma, marcando a conclusão do primeiro curso de ensino médio com habilitação de magistério do estado do Rio. 

“É uma grande conquista para mim, para o Domingos Nobre, que foi coordenador do magistério indígena e para outras pessoas que estão envolvidas também no programa Escolas do Território. Esses alunos fazem parte de um grupo de estudantes, uma demanda reprimida, que já tinham terminado a educação fundamental, mas não tinham a oportunidade de seguir estudando na comunidade (...) Abre caminho para que uma licenciatura seja implementada, para que o ensino médio também possa acontecer na aldeia, que é uma das demandas dos Guarani”, destaca Carolina Miranda de Oliveira.

A Constituição brasileira prevê o ensino fundamental para indígenas ministrado em língua portuguesa, assegurando o uso das línguas originárias nos processos de aprendizagem. No entanto, a escassez de professores capacitados para o ensino nestes casos, dificultava o acesso a esse direito. Algo que agora, com a primeira formatura do magistério indígena, pode se tornar o início de uma preservação mais eficiente da língua e cultura, pelo menos para os moradores da aldeia dos Guarani Mbyá em Angra dos Reis.

Valorização da língua e da cultura dos povos indígenas

A pesquisadora conta que o objetivo do estudo foi identificar em que medida a língua originária tinha espaço nas aulas no magistério indígena. Durante suas análises, ela detectou que nos módulos oferecidos pela UFF na aldeia, os professores davam espaço para a língua originária, permitiam que os alunos conversassem entre si sobre os temas das aulas e os incentivavam a escrever em guarani, utilizando dinâmicas de tradução.

Já nos módulos oferecidos pela Seeduc, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, ela notou que os professores da rede estavam mais preocupados em passar os conteúdos programáticos, mas sem valorizar o uso do idioma guarani.

“No histórico escolar das populações indígenas, a escola sempre foi um caminho para que essas populações deixassem de falar suas línguas e deixassem também de praticar sua cultura. Nessas discussões, é muito importante que a escola seja um espaço social de prestígio para essas línguas, porque isso é uma maneira dessas populações aprenderem sobre a estrutura de suas línguas e valorizá-las”, explica.

Segundo a pesquisadora, apesar dos idiomas indígenas serem minoritários, são línguas que têm valor e importância por estarem associadas à cultura. “Então, é muito importante que eles valorizem suas línguas e suas identidades”, enfatiza a professora.

Para ela, a questão também afeta povos indígenas em territórios latino-americanos de língua espanhola, como Argentina, Peru e México. Por isso, Carolina Miranda considera expandir seus estudos acadêmicos em um pós-doutorado no México, onde ela já fez intercâmbio. 

“O México também é um país incrível na questão dos povos indígenas. Eu tenho muita vontade de voltar para fazer um pós-doutorado e investigar sobre a escolarização intercultural no México”, conclui a pedagoga.