"O bebê já nasce com um olhar para nós", diz médica brasileira que lança livro de fotos em Paris
08 August 2025

"O bebê já nasce com um olhar para nós", diz médica brasileira que lança livro de fotos em Paris

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Apesar de ainda não usarem palavras, os bebês têm muito a dizer aos pais e mesmo à equipe de obstetras e enfermeiros no momento do nascimento, afirma a fotógrafa e médica mineira Gláucia Galvão. Em entrevista à RFI, a autora do livro “Le bébé à travers les photos” (O bebê através de fotos, em tradução livre) define a obra como um trabalho de antropologia visual.   

Maria Paula Carvalho, de Paris

De acordo com a publicação, lançada na França pela editora Langage, as fotografias, algumas tiradas poucos minutos depois do parto, ajudam a reviver histórias e sentimentos. Elas são, sobretudo, uma ferramenta de reforço da identidade, explica a autora.

“Isso é muito importante porque esse bebê é um sujeito. Ele já nasce com um olhar para nós. Vocês vão ver nas fotos como ele se dirige a nós, aos pais e à equipe. Então, é importante a gente enxergar essa criança que vem e conseguir ouvi-la, conseguir dar vazão a essa fala multimodal, que não é só linguagem”, explica.   

Especialista em neonatologia, com uma parte da sua especialização feita em Paris, Gláucia Galvão comenta sobre os momentos íntimos e familiares que faz questão de registrar com sua câmera, ainda na sala de parto.

“Eu fiz meu pós-doutorado na faculdade Paris Cité sobre essa questão”, explica. “Eu trabalho com foto há muitos anos e a foto é uma memória”, diz. “No caso de um bebê prematuro, ele precisa ser incluído na economia psíquica da família, ou seja, ele precisa ser visto, já que hoje o mundo é visual”, analisa. “E a mãe não costuma postar fotos de um bebê cheio de fios, em uma incubadora”, continua. “A partir do momento que a gente dá a ela uma foto, esse bebê passa a ter direito à inclusão na rede social da família”, completa.

No prefácio do livro, que tem uma parte digital acessível com QR code, a editora Erika Parlato Oliveira explica que a obra, já publicada no Brasil, foi pensada em parceria com a pesquisadora francesa Marie-Claire Busnel, já falecida, mas que deixou um legado de 30 anos de estudos sobre a relação entre mães e bebês, especialmente voltados para audição e linguagem não verbal perinatal. 

Ela reforça a ideia de que é possível escutar os bebês por meio das imagens. “Esse livro faz parte de uma coleção que foi pensada com a Marie-Claire Busnel, que é uma pioneira sobre a sensorialidade do feto. Ela nos deixou há alguns anos, mas eu continuo as ideias que nós desenvolvemos juntas no final da vida dela”, conta a médica. “É muito importante pensar que o bebê se comunica para além das palavras que ele expressa, é uma linguagem multimodal”, continua. “Aqui na França, estamos bastante acostumados a pensar em falar com o bebê. Mas será que a gente consegue escutar o bebê em toda a sua linguagem multimodal?” pergunta.

“O livro nos permite experimentar e afinar o nosso olhar, para vermos através das fotos da Gláucia, que são de uma delicadeza incrível”, avalia a editora Erika Parlato. “Ela tem realmente esse olhar transdisciplinar entre a medicina e a fotografia e que nos revela como esses bebês nos falam”, sublinha. 

Um instante que se torna atemporal  

De acordo com a médica Gláucia Galvão, desde o nascimento, os bebês se comunicam por meio de olhares, gestos, toques, sempre de forma espontânea, seja em sorrisos e mesmo por meio do choro. O trabalho da fotógrafa é uma forma de eternizar essa primeira comunicação não verbal.

“Na prática, eu sempre deixo a câmera na sala de parto. Primeiro eu faço a minha função de médica, eu acolho, eu organizo esse bebê, eu coloco pele na pele com a mãe e depois contra o corpo do pai. E a partir daí, que ele está todo estável e já está nesse contato, eu pergunto a eles se querem documentar esse momento, que pode ser perdido”, diz. “Então, eu faço a foto e normalmente dou a eles”, completa. “E é importante também para a equipe, que vê na foto o fruto do seu trabalho”, acrescenta. 

“O momento do parto é como um presépio vivo”, ela compara. “É como Maria, José e o menino Jesus. Então, você tem a honra de receber essa criança, que traz a esperança”, continua Galvão. “Como diz Bernardo Góes, o bebê é o maestro da esperança”, cita. “E em cada criança que nasce, o mundo começa novamente, já dizia Guimarães Rosa”, finaliza.