
"O bebê já nasce com um olhar para nós", diz médica brasileira que lança livro de fotos em Paris
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Apesar de ainda não usarem palavras, os bebês têm muito a dizer aos pais e mesmo à equipe de obstetras e enfermeiros no momento do nascimento, afirma a fotógrafa e médica mineira Gláucia Galvão. Em entrevista à RFI, a autora do livro “Le bébé à travers les photos” (O bebê através de fotos, em tradução livre) define a obra como um trabalho de antropologia visual.
Maria Paula Carvalho, de Paris
De acordo com a publicação, lançada na França pela editora Langage, as fotografias, algumas tiradas poucos minutos depois do parto, ajudam a reviver histórias e sentimentos. Elas são, sobretudo, uma ferramenta de reforço da identidade, explica a autora.
“Isso é muito importante porque esse bebê é um sujeito. Ele já nasce com um olhar para nós. Vocês vão ver nas fotos como ele se dirige a nós, aos pais e à equipe. Então, é importante a gente enxergar essa criança que vem e conseguir ouvi-la, conseguir dar vazão a essa fala multimodal, que não é só linguagem”, explica.
Especialista em neonatologia, com uma parte da sua especialização feita em Paris, Gláucia Galvão comenta sobre os momentos íntimos e familiares que faz questão de registrar com sua câmera, ainda na sala de parto.
“Eu fiz meu pós-doutorado na faculdade Paris Cité sobre essa questão”, explica. “Eu trabalho com foto há muitos anos e a foto é uma memória”, diz. “No caso de um bebê prematuro, ele precisa ser incluído na economia psíquica da família, ou seja, ele precisa ser visto, já que hoje o mundo é visual”, analisa. “E a mãe não costuma postar fotos de um bebê cheio de fios, em uma incubadora”, continua. “A partir do momento que a gente dá a ela uma foto, esse bebê passa a ter direito à inclusão na rede social da família”, completa.
No prefácio do livro, que tem uma parte digital acessível com QR code, a editora Erika Parlato Oliveira explica que a obra, já publicada no Brasil, foi pensada em parceria com a pesquisadora francesa Marie-Claire Busnel, já falecida, mas que deixou um legado de 30 anos de estudos sobre a relação entre mães e bebês, especialmente voltados para audição e linguagem não verbal perinatal.
Ela reforça a ideia de que é possível escutar os bebês por meio das imagens. “Esse livro faz parte de uma coleção que foi pensada com a Marie-Claire Busnel, que é uma pioneira sobre a sensorialidade do feto. Ela nos deixou há alguns anos, mas eu continuo as ideias que nós desenvolvemos juntas no final da vida dela”, conta a médica. “É muito importante pensar que o bebê se comunica para além das palavras que ele expressa, é uma linguagem multimodal”, continua. “Aqui na França, estamos bastante acostumados a pensar em falar com o bebê. Mas será que a gente consegue escutar o bebê em toda a sua linguagem multimodal?” pergunta.
“O livro nos permite experimentar e afinar o nosso olhar, para vermos através das fotos da Gláucia, que são de uma delicadeza incrível”, avalia a editora Erika Parlato. “Ela tem realmente esse olhar transdisciplinar entre a medicina e a fotografia e que nos revela como esses bebês nos falam”, sublinha.
Um instante que se torna atemporalDe acordo com a médica Gláucia Galvão, desde o nascimento, os bebês se comunicam por meio de olhares, gestos, toques, sempre de forma espontânea, seja em sorrisos e mesmo por meio do choro. O trabalho da fotógrafa é uma forma de eternizar essa primeira comunicação não verbal.
“Na prática, eu sempre deixo a câmera na sala de parto. Primeiro eu faço a minha função de médica, eu acolho, eu organizo esse bebê, eu coloco pele na pele com a mãe e depois contra o corpo do pai. E a partir daí, que ele está todo estável e já está nesse contato, eu pergunto a eles se querem documentar esse momento, que pode ser perdido”, diz. “Então, eu faço a foto e normalmente dou a eles”, completa. “E é importante também para a equipe, que vê na foto o fruto do seu trabalho”, acrescenta.
“O momento do parto é como um presépio vivo”, ela compara. “É como Maria, José e o menino Jesus. Então, você tem a honra de receber essa criança, que traz a esperança”, continua Galvão. “Como diz Bernardo Góes, o bebê é o maestro da esperança”, cita. “E em cada criança que nasce, o mundo começa novamente, já dizia Guimarães Rosa”, finaliza.