
Mercado brasileiro é vital para vinhos europeus, diz consultor após incêndio na França
RFI Convida
O incêndio de grandes proporções que atingiu recentemente a região de Aude, no sul da França, destruiu diversos hectares de vinhas e deve prejudicar a produção de vinho local. O consultor Rogério Rebouças, que atua na promoção de vinhos franceses no Brasil, conversou com a RFI sobre os possíveis impactos.
Morando na França há 21 anos, Rogério Rebouças viu o incêndio, possivelmente o maior dos últimos 50 anos, de perto. Ele, que mora em Lézignan-Corbières, no nordeste da região afetada, conta que viu o fogo se aproximar, mas que, graças aos ventos, as chamas mudaram de direção sem atingir a sua propriedade. No entanto, muitos hectares foram queimados, inclusive as plantações de produtores de vinhos.
“Eu já vi vários incêndios, mas este foi realmente enorme. Se o vento tivesse soprado em direção à minha casa, o fogo iria se aproximar da gente com muito perigo”, contou, mencionando as regiões produtoras do vinho Corbières que foram atingidas.
Os produtores desta região francesa, aliás, já vêm enfrentando uma crise prolongada ao longo dos anos por causa de geadas e secas. Agora foi o fogo. Rebouças acredita que o incêndio vai, sim, causar impactos, mas que os prejuízos devem ser mais direcionados para o mercado interno.
“A região de Corbières é a maior denominação de origem do Languedoc, responsável por um terço dos vinhos franceses produzidos. Então vai ter um impacto, mas especialmente nas localidades atingidas, como Ribaute, Lagrasse e Saint-Laurent-de-la-Cabrerisse, onde há uma excelente cooperativa. Esses vão sofrer mais. Alguns produtores tiveram até suas adegas destruídas pelas chamas”, avaliou.
Falta de apoioQuestionado se a crise na região, além das questões climáticas, estaria mais relacionada à falta de apoio por parte do governo francês, como denunciam os agricultores, ou à qualidade do produto, Rebouças foi enfático ao confirmar a qualidade do Languedoc como um todo e não só do Corbières (uma das mais antigas denominações de origem do Languedoc). Para ele, o problema é outro.
“Nos anos 70, o Languedoc começa a mudar e passa a fazer vinhos de qualidade. Os anos 80 e 90 são de profunda transformação e os vinhos são de excelente qualidade. Mas claro, se você quiser pagar muito barato, eles têm ‘vinhos de mesa’. Mas você tem os IGPs (Indicação Geográfica Protegida) que têm qualidade e os AOPs (Denominação de Origem Controlada) que têm muita qualidade. E existe até, hierarquicamente, os crus do Languedoc, como o Boutenac e o Minervois La Livinière. A região hoje produz vinhos extremamente bem pontuados pela crítica internacional”, disse.
Rebouças criticou a política governamental, que leva alguns produtores a arrancarem os pés de vinhas por um pagamento de aproximadamente € 6 mil por hectare.
"Para quem produz realmente, vive daquilo, diminuir a sua produção significa aumentar o custo unitário. Você vai ter um custo operacional mais alto proporcionalmente à quantidade de hectares. Então, o que o produtor francês precisa é de liberdade para comercializar. Em vez de financiar para arrancar as videiras, deveria se financiar a contratação de comerciais, vendedores, pessoas de marketing. É isso que faz falta. A França tem uma reputação de fazer vinhos de qualidade. Ela sabe fazer o baratinho, mas ela faz os melhores vinhos do mundo", destacou.
Tarifas dos EUA e o acordo Mercosul-União EuropeiaO consultor falou ainda sobre as oportunidades que podem se abrir para o Brasil com as novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, especialmente na comercialização de vinhos com a Europa. Rebouças acha importante que se leve adiante o acordo do Mercosul com a União Europeia, que, segundo ele, irá beneficiar os países envolvidos, o segmento e também os produtores franceses.
"O mercado de vinho é difícil, especialmente na França. Mas, por mais que haja um esforço de aumentar a exportação, você está sempre sujeito às questões de cada país. E, às vezes, a União Europeia não enxerga essa questão. O produtor de vinho francês, europeu, precisa muito desse mercado brasileiro, que é um mercado de US$ 500 milhões. As pessoas às vezes falam que o acordo vai atrapalhar o agricultor, mas nem todo agricultor é cerealista. Então, não é verdade. O produtor de vinho é extremamente importante para a França, historicamente é o segundo item da pauta de exportação. E sucessivos governos sempre colocam dificuldade", opinou.
Rebouças defendeu o comércio entre a UE e o Mercosul para a abertura do mercado das indústrias europeias na América do Sul.
"Quando se faz o acordo, o mercado se abre também para os produtores agrícolas e não é só vinho", finalizou.