Livro lançado nos EUA trata da ajuda brasileira para derrubar Allende e estruturar Operação Condor
18 August 2025

Livro lançado nos EUA trata da ajuda brasileira para derrubar Allende e estruturar Operação Condor

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A historiadora Mila Burns, professora da City University of New York (CUNY), acaba de lançar seu novo livro, "Dictatorship across Borders: Brazil, Chile, and the South American Cold War" , pela University of North Carolina Press. A obra investiga a influência do Brasil no golpe de 1973 no Chile, revelando o papel central do país na articulação política do Cone Sul durante a Guerra Fria. 

Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

Com base em documentos inéditos, entrevistas e arquivos recentemente acessados — incluindo os da Comissão Nacional da Verdade brasileira —, Burns demonstra como o Brasil forneceu armas, inteligência e até torturadores às forças contrárias a Salvador Allende.

RFI — O que a motivou a investigar o papel do Brasil no golpe de 1973 no Chile e, principalmente, a deslocar o foco tradicional dos EUA para uma perspectiva inter-regional?

Mila Burns — Isso começou quando eu estava fazendo meu mestrado na Universidade de Columbia, em Nova York. Nesse mestrado, escrevi bastante sobre os exilados brasileiros durante o regime civil-militar de 1964 a 1985, que foram para os Estados Unidos. Fiquei muito curiosa: por que alguém que está fugindo do autoritarismo no Brasil buscaria abrigo nos Estados Unidos? Sabendo do apoio que os EUA deram ao golpe de 1964 no Brasil, isso não fazia muito sentido.

Aprofundando essa questão, comecei a pensar nas dinâmicas inter-regionais. Lembro que um dos meus professores, Pablo Piccato, mencionou um autor chamado Ariel Crenzel, que levantava a possibilidade de colaboração brasileira. Fernando Gabeira também falou sobre isso em seu livro, relatando experiências com soldados e espiões brasileiros durante o exílio no Chile. Juntando essas pistas, pensei: talvez haja uma interferência do Brasil que ainda não foi discutida.

James Green, então professor na Brown University e um dos meus mentores, disse: “Vai ver se isso existe mesmo. Vá até os arquivos.” Ele não estava muito confiante, mas eu fui.

RFI — Quais foram as fontes mais decisivas para comprovar a participação brasileira?

Mila Burns — Foram muitas fontes e arquivos. Em Brasília, no Arquivo Nacional, o Paulo Ramalho me trazia documentos em caixas de papelão, ainda não organizados, e eu encontrava coisas impressionantes. Fui também ao Arquivo do Itamaraty, entrevistei exilados, visitei arquivos nos Estados Unidos, Paraguai e Chile, e utilizei bastante o acervo organizado por Aluísio Palmar no site Documentos Revelados.

Esses documentos mostraram que o Brasil forneceu dinheiro, armas, medicamentos, relatórios de inteligência e até torturadores aos inimigos do governo de Salvador Allende, antes e depois do golpe. Para mim, essa interferência foi um ensaio para a Operação Condor — uma troca de ideias, estratégias, suprimentos militares e políticas diplomáticas que facilitaram a queda de Allende e fortaleceram o regime de Pinochet.

Se tiver que citar um documento, menciono uma ata de reunião do Conselho de Segurança Nacional de 1966, em que Juracy Magalhães, então ministro das Relações Exteriores, relata um encontro no Chile com Gabriel Valdés, crítico de Pinochet, mas que naquele período discutia a temeridade de uma possível vitória comunista nas eleições de 1970. Juracy voltou ao Brasil deixando clara a preocupação do governo brasileiro com a eleição de Allende e registrando que autoridades chilenas também se mostravam extremamente preocupadas. Essa articulação e preocupação, tão anteriores à própria eleição, foram para mim uma grande surpresa.

Impacto da Comissão da Verdade

RFI — A Comissão Nacional da Verdade no Brasil foi um marco na abertura de arquivos do período da ditadura. Que documentos inéditos mais impactaram suas conclusões nessa pesquisa?

Mila Burns — É muito difícil destacar apenas um, porque o trabalho da Comissão da Verdade é impressionante e de impacto tremendo, que vai além de 2014, quando entregou o relatório final. Quem se aventurar por esse documento encontrará imagens, fotos, entrevistas e relatos em primeira mão — tudo acessível na internet.

Para mim, o mais marcante é a coragem, organização e compromisso com a verdade e a história. Demorou muito para ser criada, especialmente em comparação com outros países da América do Sul, mas a dimensão do trabalho compensa. Muitos documentos ainda serão analisados e revelarão mais sobre a influência do Brasil não só no Chile, mas também na Bolívia, no Uruguai e na Argentina.

Esse trabalho, realizado entre 2011 e 2014, foi um marco. Trouxe um dossiê impressionante, rico, doloroso e violento, mas fundamental para sabermos quem somos e para onde vamos.

RFI — Na sua visão, por que o envolvimento brasileiro nesse episódio ainda é pouco conhecido ou debatido, inclusive dentro do Brasil?

Mila Burns — Eu atribuo isso a dois fatores. O primeiro é a falta de interesse, especialmente fora do Brasil, pelo que acontece entre países considerados “menores”. Existe a visão de que sempre foram os Estados Unidos, a União Soviética, agora a China ou a Rússia, e ninguém imagina que esses países possam se considerar superpotências por si só. Como disse o Médici, ao se encontrar com Nixon, ele acreditava que o Brasil era uma superpotência independente, não subordinada às vontades dos EUA. Vivemos à sombra dessas grandes nações, e há a expectativa de que tudo passe por elas — e, de fato, muito passa.

Isso não inocenta os EUA ou outros países, mas mostra que essas nações também têm agendas próprias e agem de forma independente. O segundo fator é a falta de documentos. Historiadores brasileiros já tinham pistas, inclusive vindas de exilados no Chile, mas não se escreve história sem documentos.

Sem a Comissão da Verdade, muitos arquivos permaneceriam desconhecidos. Muitos foram destruídos, mas outros se tornaram acessíveis, não só no Brasil, mas também em outros países. Essa combinação de documentos agora permite estudos como o meu — e muitos outros que ainda virão.

Livro dialoga com momento político atual

RFI — Como você vê o fato de seu livro dialogar com o atual momento político, em que discursos autoritários voltam a ganhar força?

Mila Burns — Quando comecei a escrever o livro, já achava que seria muito relevante. É um projeto de mais de 10 anos. Fui aos arquivos pela primeira vez em 2012 e já se viam discursos autoritários e a nostalgia do regime civil-militar de 1964 a 1985. Sabemos, pelos números e documentos, que essa ideia é falsa: o maior desastre econômico do Brasil ocorreu no início dos anos 1980, resultado de políticas do regime.

À medida que o tempo passa e as gerações que viveram esse período desaparecem, a memória real vai se perdendo. As escolas não tratam mais do assunto, e fatos são esquecidos ou distorcidos. Esse livro é uma contribuição para voltarmos a falar sobre isso, reforçando a importância da Comissão Nacional da Verdade e de manter essa discussão viva.

Não é surpreendente que o livro dialogue com o momento político atual — discursos autoritários nunca desapareceram. Precisamos lembrar disso sempre, não apenas diante de eleições ou crises. É assunto para a mesa de jantar: lembrar momentos históricos, refletir sobre quem somos e reconhecer que só avançamos conhecendo nosso passado.