
Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand
RFI Convida
O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema.
Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma.
Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta.
Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri.
Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado.
“Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.”
Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.”
O poder do curta: paixão como ponto de partidaAntes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.”
Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras:
“Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.”
Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado.
O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa.
“É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.”
Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.”
A experiência como ator em “O Agente Secreto”Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.”
Em Clermont-Ferrand, Graziosi foi surpreendido ao ser apresentado ao público, inicialmente, como ator – embora seus filmes tenham sido exibidos ali como diretor. Ele recebeu a situação com bom humor e alegria.
“Sou fã do Kleber. Estou torcendo para que ele receba todos os prêmios do Oscar. Vou ficar orgulhosíssimo como alguém que participou do filme e como apaixonado por cinema brasileiro.”
Filme brasileiro em competiçãoSem poder emitir opinião como jurado, Graziosi comenta apenas a reação da plateia ao curta brasileiro “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova, que concorre na mostra Labo. “Foi o filme mais aplaudido. Lida com uma injustiça violentíssima, é de partir o coração. O público teve uma emoção muito forte.” Graziosi diz que não se surpreenderia se o filme conquistasse um prêmio do público.