Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand
04 February 2026

Gregorio Graziosi revisita a paixão do curta e celebra inovação como jurado em Clermont-Ferrand

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O diretor, roteirista e ator brasileiro Gregorio Graziosi vive dias de entusiasmo intenso diante do que descreve como uma das mostras mais radicais e instigantes da Europa. Membro do júri da competição Labo, dedicada a filmes inovadores no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, ele participa da celebração dos 25 anos da seção em um momento que considera um ponto de virada na forma de pensar o cinema.

Graziosi descreve a Labo como um espaço que procura curtas de vanguarda, “filmes que conseguem narrar com imagem e som de uma maneira muito particular”. Para ele, participar do júri tem sido uma experiência transformadora, sobretudo por testemunhar a resposta do público nas salas lotadas. “Você sente no silêncio da sala. Percebe hesitações, gargalhadas, a sensação de medo ou surpresa. Isso é mágico”, afirma.

Ele lembra que, após a pandemia, muitos espectadores se habituaram a ver filmes sozinhos, o que torna ainda mais impressionante ver sessões esgotadas. “As pessoas enfrentam as adversidades climáticas para lotar sessões”, comenta.

Para Graziosi, assistir aos filmes junto ao público é parte fundamental da criação. “Existe uma questão física, independentemente de como os filmes foram captados, de como eles vão tocar a alma humana – isso não tem preço”. Essa comunhão na sala escura, diz ele, é o que torna tão especial sua participação no júri.

Entre os 24 filmes selecionados, metade documentários, Graziosi destaca a relevância crescente de uma nova fronteira narrativa: a inteligência artificial. O tema, afirma, exige debate aprofundado.

“Esse ano tem um ponto de virada, que é a questão do uso da inteligência artificial para a criação dos filmes. Isso é algo que preciso debater com os outros jurados e que vamos conversar muito nos próximos anos.”

Ainda assim, ele insiste que a tecnologia jamais substituirá o essencial: “Independente da ferramenta, o mais importante é a narrativa – o que você quer dizer e como isso impacta o público.”

O poder do curta: paixão como ponto de partida

Antes de dirigir longas, Graziosi construiu carreira sólida nos curtas, entre 2007 e 2012. “O curta-metragem é um formato independente. A paixão é o principal ponto de criação. Quem acompanha o festival sente isso. A paixão dos diretores contagia o público, a equipe, está na tela.”

Ser convidado para o júri tem sabor de reencontro. Graziosi já exibiu dois filmes na Labo e viveu ali experiências definidoras:

Lembro da emoção que tive quando fui selecionado pela primeira vez e do impacto de perceber que tinha oito exibições de um curta. O curta não era uma coisa à parte, era o principal. Isso é emocionante.

Ele também recorda com carinho o filme feito para a banda inglesa Tindersticks, encomendado justamente pelo festival – laço que intensificou a sensação de “casa” ao voltar como jurado.

O cineasta trabalha atualmente em seu terceiro longa, “O Demônio na Fábrica”, desenvolvido em residência da Cinéfondation do Festival de Cannes. A partir de uma revisão de materiais antigos – curtas, videoclipes, filmes inacabados –, ele percebeu que já vinha elaborando, fragmento a fragmento, um novo projeto. Dessa constatação surgiu outro filme: um longa intimista, centrado numa casa.

É um filme que poderia ter sido meu primeiro, mas precisava de mais maturidade emocional. Às vezes os projetos mais simples exigem mais coragem, porque você precisa colocar o coração na tela.

Rodado integralmente numa única locação, o longa explora tempo, espaço e memória: “É um filme de escala menor, mas que tem muito coração. Estou apaixonado por fazer.”

A experiência como ator em “O Agente Secreto”

Além de diretor, Graziosi fez parte do elenco de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – indicado a quatro Oscars. Ele comenta com admiração a forma como o cineasta pernambucano dirige atores. “Ver o Kleber trabalhando no set é mágico. Ele é um maestro, (...) cria um tema e improvisa como um músico de jazz. O resultado é incrível.”

Em Clermont-Ferrand, Graziosi foi surpreendido ao ser apresentado ao público, inicialmente, como ator – embora seus filmes tenham sido exibidos ali como diretor. Ele recebeu a situação com bom humor e alegria.

Sou fã do Kleber. Estou torcendo para que ele receba todos os prêmios do Oscar. Vou ficar orgulhosíssimo como alguém que participou do filme e como apaixonado por cinema brasileiro.

Filme brasileiro em competição

Sem poder emitir opinião como jurado, Graziosi comenta apenas a reação da plateia ao curta brasileiro “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, de Felipe Casanova, que concorre na mostra Labo. “Foi o filme mais aplaudido. Lida com uma injustiça violentíssima, é de partir o coração. O público teve uma emoção muito forte.” Graziosi diz que não se surpreenderia se o filme conquistasse um prêmio do público.