Filósofa e autora brasileira Márcia Schuback ganha prêmio internacional por engajamento contra o fascismo
22 December 2025

Filósofa e autora brasileira Márcia Schuback ganha prêmio internacional por engajamento contra o fascismo

RFI Convida

About

A filósofa e autora Márcia Sá Cavalcante Schuback, professora de filosofia na Universidade de Södertörn, na Suécia, ganhou o Prêmio Hermann Kesten 2025 por seu engajamento contra as novas formas de fascismo. A distinção, concedida pelo PEN Centro da Alemanha, já foi atribuída anteriormente ao prêmio Nobel de Literatura Günter Grass e à jornalista russa Anna Politkovskaya. A filósofa brasileira também está lançando na França seu livro sobre a filosofia na literatura de Clarice Lispector.

Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris

O PEN destacou que a obra de Márcia Schuback “contribui para a cultura democrática e para o debate intercultural”. O prêmio leva o nome de Hermann Kesten, em homenagem ao escritor judeu-alemão que se exilou quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha.

“Receber esse prêmio foi uma honra muito grande, porque ele já foi concedido a autores como Günter Grass, Harold Pinter e ativistas importantes, como Anna Politkovskaya. E foi a primeira vez que a filosofia recebeu esse prêmio. Foi uma surpresa para mim. Eu não sabia que a filosofia podia receber esse tipo de atenção”, disse à RFI.

Márcia Sá Cavalcante Schuback foi premiada por seus trabalhos sobre o fascismo da ambiguidade, a filosofia do exílio e a temporalidade do exílio. A cerimônia ocorreu em 13 de novembro, na cidade de Darmstadt, na Alemanha.

Pensamento de Clarice Lispector

Além do reconhecimento internacional, a filósofa publica este mês na França, pela editora Vrin, seu livro “Derrière la pensée, la philosophie de Clarice Lispector” ("Atrás do Pensamento: A filosofia de Clarice Lispector"), com tradução do filósofo francês Renaud Barbaras. A obra foi publicada no Brasil em 2022 pela Bazar do Tempo.

“A Clarice é realmente uma autora que toca o mundo inteiro. Acho que é porque ela fala do ponto de vista dessa experiência tremenda que é ser tocado pela realidade, pelo mundo, pelo advento da palavra”, explica.

Quando lemos Clarice, fazemos a experiência de ler frases tão impressionantes que é como se elas dissessem tudo: todo o passado, todo o futuro, todo o real se fazendo num instante absolutamente arrebatador. Ela nos toca diretamente.

Márcia também destaca que a autora brasileira, que teve seus livros traduzidos para 32 idiomas e publicados em 40 países, abordou inúmeros temas e questões existenciais, inclusive na literatura infantil.

“Ela é uma escritora da multivariedade, do arco-íris da existência, inclusive do seu lado agridoce, claro-escuro, tocando uma profundidade grande da vida”, sublinha.

Márcia Cavalcante Schuback explica que o interesse de filósofos por Clarice Lispector vem do fato de que a autora trata de grandes temas filosóficos, “como a questão da liberdade, da necessidade, do determinismo, da vida, da morte, da existência e da origem, da linguagem, da relação entre pensamento e linguagem”.

“Eu fiz uma leitura da Clarice como uma pensadora única. Não mais do ser, não mais da realidade, não mais da existência do mundo, não mais de uma subjetividade encontrando um mundo devastado ou por se construir. Mas uma grande pensadora do ‘sendo em ato’, ou seja, uma pensadora de um sentido de presença que não se confunde com as nossas categorias de ser ou existência. A Clarice é!”, diz.

Para ela, Clarice Lispector tem muito a ensinar sobre o mundo. “Vivemos hoje em um mundo de fake news, manipulação e desinformação, excesso de uso e abuso das palavras, da linguagem, dos sentidos, onde tudo perde o sentido, como se o sentido perdesse o sentido de tão extremo que é”, analisa a filósofa.

“Então, em vez de usar conceitos prontos ou se deixar manipular por essa circulação alucinada das palavras, que vira uma insensatez, como se tivéssemos que repreender o próprio sentido da linguagem, Clarice é uma escritora pensadora de ouvir a palavra. É como se ela escrevesse o tempo todo. Com Clarice, aprendemos o que é ter a palavra na ponta da língua, o que é o gaguejar, o não conseguir dizer. Tudo isso como uma experiência fundamental da linguagem”, conclui Márcia Schuback.