'É gratificante demais': Alaíde Costa canta em Paris aos 90 anos
14 April 2026

'É gratificante demais': Alaíde Costa canta em Paris aos 90 anos

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Paris recebe esta semana uma artista excepcional. Aos 90 anos, Alaíde Costa, uma das grandes vozes fundadoras da bossa nova, sobe ao palco do Teatro da Aliança Francesa nesta quarta‑feira (15), em Paris, para um concerto histórico. Ela canta para o público francês e também para os brasileiros que vivem na cidade, um reencontro que acontece num momento especial, de reconhecimento amplo de sua trajetória.

“Eu estou muito feliz por estar aqui”, disse Alaíde em entrevista à RFI, com a timidez que nunca abandonou fora do palco. “E poder falar um pouquinho da minha vida”, completa, quase como quem pede licença para ocupar o centro da cena.

A vinda à capital francesa se dá também por ocasião da exibição do filme de animação “A Noite de Alaíde”, da diretora baiana Liliane Mutti, apresentado no encerramento do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. O documentário revela uma artista que esteve presente nos primórdios da bossa nova, embora, por muito tempo, tenha ficado à margem da chamada história oficial do movimento.

Cantar em Paris acrescenta algo à sua trajetória? A resposta não vem em análise fria, mas em sentimento. “Traduzir isso em palavras é complicado”, confessa. “É um sentimento que eu não sei explicar, mas é gratificante demais. Depois de 70 anos de carreira, agora, no finalzinho da vida, vêm os convites e o reconhecimento.”

Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome

Ainda nos anos 1950, quando a bossa nova começava a tomar forma, Alaíde Costa já ajudava a moldar um modo moderno de cantar no Brasil, mais contido, mais íntimo, influenciado pelo jazz e pela canção norte‑americana.

“Eu sempre quis cantar músicas que não tinham nada a ver com o que acontecia no momento”, contou à RFI. Ela ouvia Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Chet Baker e outros nomes do jazz que dialogavam diretamente com a estética que se desenhava no Rio de Janeiro.

Foi nessa época que conheceu o pianista e compositor Johnny Alf. “Eu conheci o Johnny aos 16 anos. Na minha cabeça, a música dele era feita para eu cantar.” Ainda assim, seu nome, assim como o de Alf, ficou fora do panteão consagrado da bossa nova. Uma exclusão silenciosa, marcada por preconceito racial e estético, da qual Alaíde só tomou plena consciência muitos anos depois, ao ler o livro “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, de Ruy Castro, publicado em 1990.

“Foi ali que eu percebi por que eu e o Johnny (Alf) ficamos de fora”, diz. “Na época, eu não percebia que aquilo era preconceito. Não com o canto, nem com a voz, mas com a cor da pele. A ficha demorou a cair.”

Reconhecimento tardio e a emoção preservada

Houve tristeza. “É triste, né?” Mas não ressentimento. Alaíde seguiu cantando, gravando, resistindo. Décadas depois, a reparação começou a acontecer: o retorno aos grandes palcos, a ovação no Carnegie Hall, o reencontro com o público internacional.

“Eu agradeço muito a Deus por ter conservado a minha voz”, afirma. Em casa, ela não canta. “Não canto, não.” A voz é guardada para o momento essencial: o palco. “Quando eu termino de cantar e vêm aqueles aplausos sinceros, é muito bom. Fico muito feliz.”

Vieram também as parcerias com músicos mais jovens, em discos como “O que meus calos dizem sobre mim” e “O tempo agora quer voar”. Ao falar das colaborações com Emicida, Marcus Preto e outros, Alaíde demonstra confiança e serenidade. “Eu pensei: ele é muito inteligente. Não vai me propor nada que eu não faça.” E não propuseram. “Nada saiu fora do que eu faço.”

O projeto mais simbólico dessa fase madura é o álbum “Uma estrela para Dalva”, homenagem à cantora Dalva de Oliveira, sua grande musa desde a adolescência. “Eu pensava nesse disco há 50 anos”, revela. “E finalmente chegou a hora.” Dalva era diferente dela. “A extensão de voz dela é inigualável. A minha vozinha é assim…”, diz, com modéstia. “Mas a emoção, acho que aprendi bastante com ela.”

Em Paris, Alaíde se apresenta acompanhada do pianista Philippe Powell, filho de Baden Powell, parceiro de tantos anos. No repertório, obras de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Johnny Alf, pilares de um movimento musical que marcou profundamente a cultura brasileira e o mundo.