Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França
03 February 2026

Curta 'Mira' da cineasta paulista Daniella Saba disputa prêmio em competição oficial na França

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Filmes de quatro cineastas brasileiros disputam prêmios no Festival de Curtas-Metragens de Clermont-Ferrand, que acontece até sábado (7) no centro da França. A paulista Daniella Saba é a única mulher do grupo de contemplados. Ela concorre com o curta-metragem “Mira”, uma produção francesa integralmente filmada no Brasil e que foi selecionada para a competição nacional, ao lado de outros 50 filmes franceses.

“Mira” acompanha a história de uma menina de 14 anos que cresceu em uma área de descanso de caminhoneiros. Criada entre motoristas, ela sempre sonhou em dirigir caminhão. Mas a chegada da adolescência transforma a forma como ela é vista naquele ambiente majoritariamente masculino. Segundo Saba, “ela vai entender o que significa ser mulher num espaço que não é reservado a nós, mulheres”. A diretora conta que quis explorar esse momento de ruptura: a passagem da infância à adolescência num espaço onde o corpo feminino passa a ser observado de outra maneira.

Radicada na França há 16 anos, Saba comemora a primeira seleção de um filme seu em uma mostra competitiva. “É uma honra, porque é um dos festivais de curta mais importantes do mundo, então é um reconhecimento. Só a seleção para mim já é um prêmio”, afirma. Para a realizadora e roteirista, estar em Clermont-Ferrand é também uma oportunidade de continuidade profissional: “É uma vitrine, uma forma da gente continuar trabalhando e dar continuidade para esse trabalho que foi feito, que no caso é o ‘Mira’, e que agora vai virar outros filmes no futuro.”

A diretora explica que festivais funcionam como porta de entrada para novos projetos, especialmente para realizadores de curta-metragem. “O festival acaba sendo o lugar onde a gente mostra o nosso trabalho. Quando a gente faz um compromisso para trabalhar num longa, são muitos anos trabalhando no mesmo projeto”, observa.

Longa-metragem no sertão de Alagoas

Além da promoção de “Mira”, Daniella Saba está atualmente dedicada ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem, uma coprodução franco-brasileira. “A gente já tem o roteiro, ele está no final da captação de recursos. É um filme que é necessariamente filmado no Brasil”, explica. O longa será um road movie sobre uma mulher francesa que acompanha o ex-marido em uma viagem pelo sertão de Alagoas na busca por sua família biológica após uma adoção ilegal. “É uma comédia dramática”, resume.

A cineasta também comenta as condições de financiamento nos dois países onde atua. Ela destaca que “Mira” contou com ajuda regional francesa, mas não recebeu apoio brasileiro. Ainda assim, enfatiza a importância de políticas públicas no setor: “É muito importante a gente poder desenvolver os curtas-metragens. Dá uma possibilidade desses filmes existirem, até para propulsar a nossa produção para os longas-metragens também.” Para Saba, o interesse internacional por obras brasileiras está em alta: “A gente tem uma cultura muito forte, a gente tem um olhar muito singular e eu acho que eles se interessam.”

Especialista em ficção, a diretora também fala de sua relação com o gênero: “Eu adoro trabalhar os diálogos, adoro trabalhar o universo dos personagens. Na minha filmografia tem um documentário, mas a minha especialidade é a ficção.”

Desigualdades persistentes para mulheres cineastas

Sobre a presença feminina no cinema, Daniella Saba considera a desigualdade gritante: “Uma mulher cineasta tem muito mais dificuldade. Quando a gente lê os relatórios, com os números, com os gráficos, é incomparável.” Segundo a diretora, apenas uma parcela muito pequena das produções tem mulheres no comando. “A gente ainda tem muito trabalho pela frente como cineasta.”