Crise fiscal e paralisia política: França caminha para ponto de não retorno, diz especialista
27 August 2025

Crise fiscal e paralisia política: França caminha para ponto de não retorno, diz especialista

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A França entrou em uma nova fase de incerteza política, com prováveis custos econômicos adicionais para o país. Em meio a dificuldades para negociar cortes nas despesas públicas no orçamento do Estado para 2026, o primeiro-ministro François Bayrou decidiu pedir um voto de confiança dos deputados no dia 8 de setembro. A oposição, em peso, declarou que irá votar pela queda do atual governo. Na avaliação do economista Gabriel Giménez Roche, da Neoma Business School, em Paris, apesar do endividamento colossal e da alta volatilidade política, a França ainda não vive uma crise semelhante à que levou Grécia, Espanha e Portugal a recorrer ao FMI.

Bayrou decidiu se submeter ao voto de confiança dos deputados, em busca da legitimidade que lhe falta para concretizar seu plano orçamentário, considerado impopular pelo corte de € 44 bilhões nas despesas públicas em 2026. Desde julho do ano passado, o governo não tem maioria na Assembleia Nacional, que se fraturou em três blocos inconciliáveis após a dissolução provocada pelo presidente Emmanuel Macron e a votação dos franceses nas legislativas antecipadas. 

"A crise atual já era algo que se esperava há muito tempo, porque a França não tem superávit fiscal há mais de 30 anos", aponta o economista Gabriel Giménez Roche, professor da Neoma Business School, em Paris. Segundo Roche, o que está acontecendo agora é que a crise fiscal está convergindo com uma crise política.

"Atualmente, a França tem um governo de composição, formado por alguns atores de centro-direita e de centro-esquerda – estes últimos fazem parte do partido aliado ao presidente Macron", explica. No entanto, essa coalizão não possui maioria parlamentar. Se considerarmos os grupos da extrema direita (como o partido Reunião Nacional) e da esquerda radical (incluindo os deputados da sigla França Insubmissa), juntos, eles formam uma maioria de bloqueio. "Isso cria um grande obstáculo para o governo, que enfrenta dificuldades para propor e aprovar reformas, que se tornam cada vez mais urgentes diante da deterioração fiscal", destaca o economista. Para completar este quadro de paralisação do Legislativo – e, por consequência, do Executivo – "os dois blocos majoritários, à direita e à esquerda, não apoiam as reformas necessárias, pois seus programas preveem mais gastos públicos do que o que está atualmente previsto no planejamento orçamentário da França", constata o professor especialista em macroeconomia.

O peso da dívida 

A dívida pública francesa atingiu € 3,345 trilhões no primeiro trimestre de 2025, o equivalente a cerca de 114% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, enquanto o déficit fiscal alcançou 5,4% no mesmo período. Esses valores estão muito acima do que preconiza o pacto de estabilidade da zona do euro (3% de déficit e 60% de dívida em relação ao PIB anual), o que preocupa os países que compartilham a união monetária.

Para honrar os juros devidos aos investidores que compraram títulos públicos franceses, o governo deverá gastar cerca de € 66 bilhões neste ano, segundo o chefe de governo – um montante superior aos orçamentos combinados do Exército e da Educação.

Atualmente, os juros da dívida já representam uma despesa de aproximadamente 7% do orçamento do Estado. 

Oposição rejeita cortes

Segundo Roche, os economistas que assessoram os partidos de esquerda rejeitam cortes nas despesas públicas por acreditarem que, gastando mais, o Estado irá gerar mais consumo e haverá aumento das receitas fiscais. "Faz anos que nós temos esse déficit fiscal e isso nunca ocorreu. O déficit segue aí. O consumo só aumenta na França quando existe uma situação mais estável, mais equilíbrio – e não é o caso há muito tempo", ressalta.

O partido RN, de extrema direita, também tem um programa que prevê mais gastos, sobretudo com respeito à aposentadoria. "Eles querem, supostamente, baixar a idade [mínima da aposentadoria] para 60 anos, enquanto a média na Europa está mais próxima de 65 anos", aponta Roche, acrescentando que existe um debate interno no partido a respeito desse tema delicado. 

"A metade do partido crê em reformas de cortes fiscais. É uma facção mais liberal, mais histórica, que está, digamos, com o Jordan Badella, que é o número 2 do partido [de extrema direita Reunião Nacional]. A número 1 do movimento, Marine Le Pen, tem a facção dela, que é mais, digamos, socialista – e são eles que pedem mais gastos. Só que essas duas facções não estão realmente brigadas dentro do partido. O que permite pensar que, na verdade, a retórica do programa do partido é mais um jogo de arena política e não tanto algo que revela uma convicção real, porque ele [o partido] sabe que tem que fazer as reformas", assinala o economista. 

Dívida bem estruturada

Questionado pela RFI se vê a França sendo obrigada a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Central Europeu (BCE), como aconteceu com Grécia, Portugal e Espanha durante a crise da zona do euro, em 2009, Roche faz uma análise menos sombria sobre os prazos de pagamento dos títulos franceses.

"A curto e a médio prazo, eu não diria isso. Esses três países tinham uma estrutura temporal da dívida que era bem similar, era massiva, e com o mesmo horizonte de tempo. Era uma dívida que não estava tão bem estruturada, como é o caso da dívida pública francesa, que tem prazos de pagamento bem intercalados, com 5 a 10 anos de diferença – o que é mais fácil de administrar", explica o especialista em finanças.

"O problema é que a França não consegue fazer reformas. Mas, bom, esses três países também não conseguiam, não é? Até chegaram a um ponto de não retorno, quando foram obrigados a fazer a reforma de qualquer jeito, porque, senão, esses países quebravam", recorda.  

No plano político, segundo Roche, o presidente Emmanuel Macron está diante de três possibilidades, caso o governo do premiê François Bayrou seja destituído pelos deputados no dia 8 de setembro: renunciar ao cargo – o que Roche descarta; dissolver novamente a Assembleia Nacional, para convocar os franceses às urnas; ou tentar formar um novo governo, no qual ele terá menos influência do que tem hoje. "Essas são as opções que restam para Macron até o fim de seu mandato, em 2027", conclui o economista Gabriel Giménez Roche.