'COP30 será excludente se preços dos alojamentos em Belém não forem repensados', protesta líder partidário senegalês
28 August 2025

'COP30 será excludente se preços dos alojamentos em Belém não forem repensados', protesta líder partidário senegalês

RFI Convida

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O partido Aliança dos Ecologistas do Senegal (ADES) teme não conseguir participar da Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas em Belém (COP30), de 10 a 21 de novembro, devido aos preços "abusivos" que estão sendo cobrados por hotéis e proprietários de imóveis de aluguel turístico na capital do Pará. Em visita a Paris, o vice-presidente do ADES, Serigne Ababacar Cissé Ba, fez duras críticas a essa situação, em entrevista à RFI.

"Os preços dos alojamentos estão absurdos. Os partidos verdes no mundo, em geral, não têm recursos. Estamos tendo que limpar todo o dinheiro da conta bancária para comprar a passagem. Imagine uma noitada a mais de US$ 1.000,00 ou € 1.000,00 – isso é inacessível", protestou o líder ecologista senegalês.

Serigne conhece bem o Brasil, pois foi professor de administração na Universidade Federal de Catalão, em Goiás, e morou no interior de São Paulo e Minas Gerais. Ao todo, passou 25 anos no país. Ele contou que a aliança ecologista africana está negociando com colegas de universidades para saber se podem acolher a delegação africana em suas casas.

"Nós estamos vendo que até países europeus estão sentindo o absurdo dos preços dos alojamentos para a COP. Acho que é uma coisa que ainda dá para se repensar, se realmente vai ser um evento excludente, que vai excluir os países e os partidos que têm interesse em estar lá, mas as condições financeiras não vão permitir", afirmou Serigne.

Na avaliação do ambientalista, se nada for feito para reverter os preços das habitações, a COP30 pode ser um "fracasso". 

"Pode ser um fiasco se as pessoas não conseguirem ir ao Brasil – o que vai ser lamentável. Acho que o presidente [Lula] deve pensar nisso: se ele chamou as pessoas, então deve oferecer condições acessíveis para que possamos participar desse evento, que é nosso também", disse Serigne. 

Reforma do Conselho de Segurança da ONU

A convite do partido ecologista francês (Europe Ecologie Les Verts – EELV), a delegação senegalesa, liderada pelo presidente da ADES, Baye Salla Mar, participou nos últimos dias de intensos debates sobre o multilateralismo e a necessidade de colaboração entre países para enfrentar os desafios ambientais globais. Eles querem "trazer a voz da África para o centro das discussões internacionais", especialmente no que diz respeito à reforma das Nações Unidas.

Serigne destaca que os países africanos, como o Senegal, enfrentam diretamente os impactos das mudanças climáticas, como inundações e eventos extremos que afetam a vida cotidiana da população. A falta de infraestrutura, como saneamento básico, agrava ainda mais esses problemas, levando ao deslocamento forçado de comunidades inteiras. Ele alerta que, sem uma preocupação real com o meio ambiente, os investimentos em desenvolvimento acabam sendo redirecionados para lidar com catástrofes ambientais.

Diante desse cenário, o partido verde africano, fundado em 2021, defende uma reforma urgente da ONU, com maior integração de países no Conselho de Segurança e o cumprimento efetivo dos acordos firmados em eventos internacionais. Serigne critica a recorrente falta de concretização das promessas de financiamento feitas nesses encontros, o que exige uma nova postura dos países desenvolvidos: mais abertura, mais compromisso e mais solidariedade.

Cooperação Sul-Sul

Além disso, a ADES acredita na força da cooperação Sul-Sul, principalmente entre países que enfrentam desafios semelhantes. Essa união pode fortalecer a representatividade e a capacidade de ação dessas nações. Durante a visita à RFI, os líderes da sigla enfatizaram a importância de políticas voltadas para a adaptação climática, visando garantir a sobrevivência e a resiliência das populações mais vulneráveis. Afinal, a crise ambiental está diretamente ligada ao aumento das migrações clandestinas, impulsionadas pela falta de condições dignas de vida.

Por fim, defenderam uma abordagem mais humanista, que coloque o ser humano no centro das decisões políticas e ambientais. "Somente com consciência global, solidariedade e ação conjunta será possível enfrentar os desafios climáticos e construir um futuro mais justo e sustentável para todos", concluiu Serigne.