Janela para enfrentar mudança do clima está se fechando e os mais pobres são os mais atingidos

Janela para enfrentar mudança do clima está se fechando e os mais pobres são os mais atingidos

RFI Brasil
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O segundo volume do sexto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas da ONU), divulgado em 28 de fevereiro, traz evidências científicas ainda mais nítidas do ritmo acelerado das mudanças do clima e do quanto algumas consequências do aquecimento do planeta já são “simplesmente irreversíveis”. Num tema no qual as boas notícias são raras, os especialistas advertem que a janela de oportunidades está se fechando para a humanidade reagir ao aquecimento global.

Lúcia Müzell, da RFI

O foco deste documento, parte de um amplo estudo composto por três partes, são os "impactos, a vulnerabilidade e a adaptação” dos países e populações à crise climática – ou seja, de que maneira, concretamente, o planeta já sofre os efeitos da desregulação do clima, provocada pela ação humana, e como é possível se preparar melhor para enfrentá-la.

As ações promovidas até agora ainda deixam muito a desejar, ressalta Patricia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam) e uma das autoras do capítulo sobre desenvolvimento sustentável e pobreza. Os estudos apontam que quem mais vai amargar os impactos de eventos extremos, como enchentes e secas prolongadas, são as populações marginalizadas, em especial nos países em desenvolvimento.

No caso brasileiro, os exemplos emblemáticos são o da vulnerabilidade dos moradores das periferias, no meio urbano, e da devastação das florestas, em especial a Amazônia.

"Você tem uma floresta degradada, com perda de biodiversidade da qual os povos dependem. Você tem um evento climático extremo, como seca ou calor. Esses elementos são compostos e fazem um efeito dominó, um efeito cascata dentro dessas populações, que está colocando em xeque a capacidade delas de se adaptar”, afirma Pinho.
Ambientes fragilizados
O pesquisador sênior do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Jean Ometto participou do capítulo sobre florestas e explica que a expansão das atividades agrícolas em diferentes pontos deixa todo o sistema florestal fragilizado diante das mudança climática. Elas têm resiliência natural às alterações do clima, mas essa resistência têm limites – secas prolongadas são altamente prejudiciais para uma floresta tropical e o fenômeno, somado aos efeitos negativos da atividade humana, geram um perigoso círculo vicioso.

"A fragmentação da paisagem e das áreas de conectividade da floresta levam a uma vulnerabilidade maior. Mesmo que a gente pare o desmatamento naquela parcela de floresta, ela já está mais vulnerável pela fragmentação”, aponta Ometto. "Vemos isso de uma maneira muito clara na Amazônia e no Cerrado.”

O documento do IPCC incorpora, de uma forma inédita, o conhecimento dos povos tradicionais para lidar com as variações do clima e preservar o meio ambiente. Entretanto, a rapidez com que o aumento da temperatura global tem afetado a natureza e atingido até a produtividade agrícola torna os esforços cada vez mais difíceis.

"Esse relatório traz a cor, o gênero, a etnia e a geografia de quem está em risco”, resume Pinho. "Por um lado, os povos indígenas aparecem como suscetíveis, como os mais expostos, por o seu modo de vida depender intrinsecamente dos ecossistemas naturais – seja na Amazônia brasileira ou no Ártico, as populações indígenas do hemisfério norte, da Austrália, da África ou da Índia. Mas, ao mesmo tempo, eles detêm um conjunto de estratégias que têm colaborado com a adaptação”, assinala a pesquisadora do Ipam.
Embate ricos x pobres
Baseado em evidências científicas, trazidas por mais de 260 autores de 67 países, o relatório ressaltou a injustiça de os países desenvolvidos serem os maiores responsáveis pelas emissões que geraram o efeito estufa, enquanto as nações pobres sofrem as suas piores consequências. Sob forte resistência dos países ricos, a expressão “justiça climática”, aclamada por organizações ambientais, não chegou a ser incluída no texto, mas os seus elementos estão presentes, destaca Patricia Pinho.

“Essa palavra pode ser não muito confortável e alguns países entram num embate porque existe, sim, uma contribuição histórica, e existe, sim, um compromisso de, pelo menos financeiramente, colaborar com as estratégias de adaptação dos países do sul global”, sublinha a especialista.

Os recursos previstos para o financiamento das adaptação, de US$ 100 bilhões por ano, até hoje não se concretizaram, mas já são julgados insuficientes. Por um lado, os países ricos rejeitam que a responsabilidade do problema seja colocada integralmente nas suas costas. Por outro, as instituições encarregadas de analisar os projetos avaliam que as propostas dos países potencialmente beneficiados ainda são debilitados.

Os cientistas da ONU advertem, entretanto, que o volume de recursos para adaptação precisa ser, no mínimo, equivalente ao de mitigação (ações de redução de emissões de gases de efeito estufa). Jean Ometto dá o exemplo de que ações podem ser implementadas nas florestas – para além do objetivo número 1 de acabar com o desmatamento.

"Primeiro precisamos buscar manter os processos básicos da floresta: a manutenção da biodiversidade, do ciclo hidrológico. Não pode alterar a floresta próximo de cursos d'água e nascentes de rios”, diz o pesquisador do Inpe. "A produção de alimentos tem de ser onde não impacte a vegetação natural ainda mais do que já está sendo impactada. E se quisermos recuperar uma região, tem de haver uma conectividade na paisagem, ter uma área tampão entre a área de produção e a área reflorestada."

A última etapa do mais recente relatório do IPCC, sobre mitigação, deve ser divulgada em abril. As conclusões do painel embasam as negociações climáticas no âmbito da ONU – a próxima, a COP 27, acontecerá em novembro, no Egito.