Guerra na Ucrânia coloca em xeque objetivos climáticos da União Europeia

Guerra na Ucrânia coloca em xeque objetivos climáticos da União Europeia

RFI Brasil
00:08:31
Link

About this episode


A guerra na Ucrânia impacta o abastecimento alimentar e energético na Europa e obriga os países membros da União Europeia a reavaliarem o planejamento ambiental do bloco. A ofensiva russa no país vizinho ameaça o ambicioso pacote europeu de desenvolvimento sustentável e redução de emissões de gases de efeito estufa, o Pacto Verde (Green Deal), anunciado em julho de 2021.

Lúcia Müzell, da RFI

As sanções ocidentais a Moscou, em represália à invasão da Ucrânia, levam os integrantes do bloco europeu a cogitarem postergar os planos de abandonar as usinas a carvão – uma medida que, a longo prazo, teria um forte impacto no objetivo de atingir a neutralidade de CO2 até 2050.

A dependência do gás russo, principalmente para o aquecimento dos prédios e abastecer indústrias e transportes, se tornou um problema para países como Alemanha, Hungria e Eslováquia, que agora buscam outros fornecedores mais distantes, como Catar e Estados Unidos. A demanda restante acabará sendo atendida por centrais a carvão – mas ambas soluções implicarão em uma explosão das emissões de gás carbônico na Europa, o contrário do que prevê o Pacto Verde.

"Se não tivermos mais gás, faremos funcionar mais as centrais a carvão. Mas há uma outra solução na qual os europeus precisam pensar a sério: a eficiência energética”, frisa o professor emérito da Universidade de Montpellier Jacques Percebois, diretor do Centro de Pesquisas em Economia e Direito Energético (Creden). “Também temos de aceitar reduzir o consumo nas horas de pico e fazer alguns esforços. Se quisermos realmente ajudar a Ucrânia e mantermos o Pacto Verde de pé, teremos que aceitar diminuir a temperatura em casa no inverno, consumir menos e até ter alguns cortes de energia."
Transição energética
Organizações e políticos ambientalistas preferem ver o momento atual como uma oportunidade para acelerar a transição energética no bloco. Neil Makaroff, coordenador da seção Europa da Rede Ação pelo Clima, hub de organizações ambientais francesas, ressalta que as fontes renováveis são as únicas que podem ser desenvolvidas rapidamente face ao desafio urgente imposto pela guerra. A médio prazo, a renovação energética dos prédios permitiria diminuir a demanda de energia.

"Diante da crise exacerbada pela guerra na Ucrânia, a energia nuclear pode parecer uma solução, ao não emitir CO2. Mas não podemos esquecer que para construir uma central nuclear, precisamos de 15 a 20 anos. Por demorar tanto, essa opção não atende aos nossos objetivos climáticos até 2030, de reduzir pelo menos 55% das nossas emissões até o fim da década”, explica o ativista. "A única solução facilmente aplicável e barata são as energias renováveis, eólica, solar e biogás. Elas precisam decolar para substituir o gás, o petróleo, mas também o carvão russos." 

Jacques Percebois, entretanto, ressalta as limitações das energias verdes, ainda muito dependentes de condições climáticas favoráveis que, no caso, europeu, não podem ser garantidas. "Não são as renováveis que vão resolver todo o problema. Podemos acelerar as pesquisas de desenvolvimento técnico para a estocagem das renováveis, mas isso será a longo prazo. Precisa tempo”, observa o especialista.
Agricultura verde a perigo 
Já na agricultura, a estratégia apelidada de “da fazenda para o garfo” visa transformar o modelo produtivo no bloco em mais sustentável e respeitoso ao meio ambiente. Mas agora, para fazer frente ao corte de importações de fertilizantes russos e aos riscos de ruptura de estoques de cereais – já que Moscou e Kiev são grandes exportadores mundiais –, a Comissão Europeia se vê obrigada a repensar os planos, sob forte pressão de lobistas do setor, ávidos por aumentar – e não reduzir – a produção de alimentos em escala industrial.

Neste contexto, Bruxelas adiou a adoção de medidas de proteção da natureza e da biodiversidade, que previa ampliar a diversidade produtiva nos solos europeus, diminuir pela metade o uso de agrotóxicos e em 20% o de adubos químicos, até 2030. Neil Makaroff afirma que grande parte do cereal importado do leste europeu serve para a alimentação de animais e a produção de carne – que representam 70% das emissões europeias da agricultura, responsável por 13% do total. Para ele, as consequências da guerra significam uma chance de rever esse ciclo.

"Tudo está ligado. Precisamos de uma verdadeira transformação e essa crise deve ser um choque que nos faz tomar consciência sobre as nossas vulnerabilidades, e não nos levar para uma agricultura ainda mais tecnológica e dependente de químicos, no futuro”, destaca o ambientalista. "Hoje, temos uma verdadeira ameaça à transição agrícola europeia, por parte de alguns dos dirigentes do bloco, a começar pelo presidente francês, Emmanuel Macron, que disse querer ‘adaptar' a estratégia em curso."

Ele lembra ainda que os fertilizantes em si também são uma fonte importante de emissões – não apenas são poluentes, a base de nitrogênio, como necessitam do gás russo para a sua produção.