
A 48ª edição do Rally Dakar começou neste sábado (3) e, pela sétima vez em sua história, a prova acontece na Arábia Saudita. Considerado o rally mais difícil do mundo, o Dakar reúne 325 veículos que percorrem cerca de 8.000 quilômetros ao longo de 13 etapas.
Ana Carolina Peliz, da RFI em Paris
Durante quase duas semanas de competição, os participantes enfrentam terrenos extremamente variados, com dunas, pedras, lama e montanhas, sob condições climáticas severas, como calor intenso e tempestades de areia. O terreno, que muda constantemente, exige decisões rápidas e grande resistência física e mental dos pilotos, que muitas vezes precisam consertar o próprio veículo sem assistência, no meio do deserto.
A prova é tão desafiadora que, para o brasileiro Luciano Gomes, competidor na categoria motos pela equipe Challenger Racing Team, a principal expectativa é conseguir completá-la.
“Minha expectativa para o Dakar é conseguir concluí-lo. Passar um dia após o outro, não andar nada diferente do que eu ando no Brasil. Claro, é um rally totalmente diferente: navegação diferente, muita pedra e areia. A ideia é nunca andar forte demais, é passar um dia após o outro, porque é um rally muito longo, com grandes distâncias”, afirma.
Com a experiência de quem já participou dez vezes do Rally dos Sertões, no Brasil, Luciano compara as duas provas.
“É muito mais difícil que um Sertões. Eu sempre digo que os Sertões são quase um passeio perto do Dakar, mas o maior desafio mesmo vão ser os longos dias”, diz, referindo-se às centenas de quilômetros percorridos diariamente, que para ele representam a maior dificuldade.
A primeira experiência do motociclista no Dakar foi, na verdade, em quatro rodas, como copiloto de Enio Bozano na categoria T3 de UTV, em 2023. A dupla terminou na 33ª posição.
Luciano acredita que essa vivência vai ajudar a enfrentar as areias do deserto da Arábia Saudita, mas reconhece que disputar o Dakar de moto é um desafio ainda maior.
“Tenho que confessar para ti que a diferença na preparação física da moto para o UTV é enorme. Um navegador, por exemplo, praticamente ‘passeia’ com o piloto. São dias longos também, mas nem perto do esforço físico de andar de moto. Isso faz com que a gente treine cada vez mais, porque já sabe que, com a moto, aqui vai ser bem sofrido”, diz, reforçando que “quem treina mais, sofre menos”.
Expectativa na categoria automóveisNa categoria de carros, o brasileiro Lucas Moraes compete na classe Ultimate pela equipe Dacia Sandriders. Ele tem o melhor resultado de um brasileiro no Dakar: o terceiro lugar entre os carros em 2023, logo em sua primeira participação.
Em 2024, Lucas terminou o rally na 14ª posição geral após enfrentar problemas mecânicos. Ainda assim, conquistou o título do Campeonato Mundial de Rally-Raid (W2RC) na categoria principal, graças à sua regularidade e eficiência nas provas mais difíceis do mundo, ao lado do copiloto Armand Monleón, competindo pela Toyota. Um feito histórico para o Brasil.
O título de Lucas Moraes coloca o país no topo de uma disciplina tradicionalmente dominada por europeus. Em 2026, ele fará sua estreia pela equipe da Dacia justamente no Rally Dakar, etapa de abertura do Mundial.
PercursoEsta é a sétima vez que a Arábia Saudita recebe a competição, que nasceu nos desertos do norte da África, passou pela América do Sul e agora se estabelece nas areias do deserto saudita.
Após os testes de shakedown e a inspeção técnica, a disputa começa com uma etapa prólogo de 30 km no sábado, 3 de janeiro. No dia seguinte, acontece a Etapa 1, com largada e chegada em Yanbu, no litoral do Mar Vermelho.
Na Etapa 2, os competidores deixam Yanbu para enfrentar uma verdadeira odisseia no deserto.
No meio do rally, haverá um dia de descanso na capital, Riade. A chegada final será novamente em Yanbu, no sábado, 17 de janeiro, após a 13ª etapa.
Novidades em 2026A 48ª edição contará com duas etapas maratona-refúgio de dois dias, uma em cada semana da corrida. Elas substituem a tradicional maratona e a crono de 48 horas. Os participantes terão de se virar sozinhos no deserto, apenas com um saco de dormir e uma tenda, sobrevivendo com as rações alimentares fornecidas pela organização.
O percurso de 2026 terá um total de quatro etapas diferentes para os concorrentes de duas e quatro rodas, oferecendo maior segurança aos motociclistas, que deixam de correr ao lado dos carros. Por outro lado, as etapas separadas aumentam o nível de dificuldade para os pilotos de automóveis líderes (e seus copilotos), já que não haverá trilhas de motos para seguir, acrescentando um desafio extra de navegação.
O percurso específico do Dakar é mantido em segredo até o início de cada etapa, quando o roadbook digital é disponibilizado aos competidores.
Embora os pilotos contem com GPS, o roadbook é a única fonte de referências detalhadas e de alertas sobre perigos ao longo do trajeto: uma corrida fora de estrada contra o relógio, em busca do menor tempo possível em cada etapa.
Após o término das etapas, os veículos seguem por estradas públicas até o acampamento seguinte. Durante as etapas maratona de dois dias, os competidores acampam no deserto sem veículos de apoio ou assistência mecânica.