Vida em França

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Partindo da actualidade, tentamos explorar os aspectos da multifacetada "alma" francesa nos domínios social, político, económico e cultural.
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19 May 2022

Elisabeth Borne é "boa escolha" para liderar Governo em França

RFI Português
França tem pela primeira vez em 30 anos, uma primeira-ministra. Elisabeth Borne foi nomeada esta semana por Emmanuel Macron, incitando no seu discurso de tomada de posse todas as meninas a concretizarem os seus sonhos. Uma "boa escolha", segundo o eleito local Philippe Pereira, em entrevista à RFI. "Acho que foi uma boa escolha. É uma responsável política e com experiências várias, tanto na área pública, como na área público-privada, com uma sesibilidade político visivelmente mais à esquerda, mas que, no entanto, não a impediu de ter integrado o último Governo e ter levado a cabo medidas económicas consideradas mais à direita, ou seja, tem uma felxibilidade e capacidade de adaptação muito útil a meu ver para este próximo mandato", disse Philippe Pereira, eleito local em Nogent Sur Marne, na região parisiense. Este eleito local que pertence ao partido o Presidente, relembrou que Elisabeth Borne assumiu as pastas dos Transportes, Ambiente e Trabalho, onde executou algumas das principais reformas do mandato de Emmanuel Macron. Antes disso, esta alta-funcionário francesa fez parte de vários gabinetes ministeriais, mas também esteve à frente de diversas empresas pública. Elisabeth Borne é também apenas a segunda mulher na quinta República como primeira-ministro, algo que o autarca considera que deveria ser algo completamente natural. "Infelizmente ainda é importante. Devia ser uma das coisas mais naturais. Curiosamente neste país bastante adiantado noutras considerações sociais, foi uma excelente escolha também desse ponto de vista", afirmou. Para breve está também uma remodelção governamental, em que o recém reeleito Presidente Emmanuel Macron vai nomear novas figuras para executarem o seu programa nos próximos cinco anos, tudo isto dias antes das eleições legislativas que acontecem em França a 12 e 19 de junho.
12 May 2022

Coligação da esquerda em França é "oportunidade de ouro" para legislativas em Junho

RFI Português
As eleições legislativas em França acontecem daqui a um mês em França, com duas voltas a 12 e 19 de Junho, e os partidos políticos, pouco tempo depois das presidenciais, já fazem contas à vida para saber quantos deputados vão conseguir eleger, com a esquerda a encontrar um acordo de coligação pré-eleitoral. O investigador Tiago Ramalho considera em entrevista à RFI que esta é uma oportunidade de ouro para a esquerda francesa. "[Este acordo] Surpreendeu-me porque não havia grande sinais de acordos visíveis, nem sequer o Partido Comunista francês esteve com Mélenchon nas presidenciais e, muito pouco tempo depois das eleições, consegue-se fazer uma série de acordos com os diferentes partidos", detalhou Tiago Ramalho. Este investigador e politólogo da Universidade Livre de Bruxelas, que viveu vários anos em França, vê este acordo encontrado entre a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon, os comunistas, os ecologistas e os socialistas, que formaram a Nova União Ecológica e Social popular (Nupes), como uma "oportunidade de ouro" para a esquerda francesa ganhar espaço político nestas legislativas após o recuo de 2017. "O elemento que não é surpreendente, em retrospectiva, é que de facto a possibilidade de chegar à segunda volta nas presidenciais foi vista como tão forte [por parte da França Insubmissa] depois este acordo tão forte e sabendo-se a difícil ancoragem que a União Nacional ou o partido do Presidente acabam por ter ao nível local, há ali uma oportunidade de ouro que eles conseguiram explorar", explicou. Do outro lado, Emmanuel Macron está também a organizar-se, mudando o nome do seu partido para Renascimento e encontrando entendimentos com o Partido Horizontes, de Edouard Philippe e com o Movimento Democrático, que o apoia desde 2017, para reeditar a maioria na Assembleia Nacional.  "Os partidos À esquerda concentram muitos votos nas regiões urbanas, com muita população e Emmanuel Macron teve um voto mais disperso, o que faz com que o sistema francês e segundo estudo feitos entre as duas eleições, por enquanto, existe ainda uma vantagem teórica para o partido do Presidente", indicou.
03 May 2022

'Exílios. Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)'-capítulo 2

RFI Português
Na semana passada, foi apresentada em Paris a versão francesa do livro 'Exílios. Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)' publicada aqui pela 'Chandeigne', uma obra colectiva editada em 2016 em Portugal que se baseia nos testemunhos de homens e mulheres que nos anos 60 e começo da década de 70 deixaram o país rumo a França, Suécia, Argélia e outros lugares para não ter de se submeter mais à ditadura salazarista e combater em guerras nas quais não se reconheciam. Este livro que aquando da sua publicação em Portugal foi objecto de algum debate por evocar o tabu em torno daqueles a quem se chamou de "desertores", tem prefácio de Victor Pereira, historiador ligado ao Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Da conversa que mantivemos com o investigador tiramos dois capítulos. No segundo capítulo desta entrevista, abordamos com o investigador a fase em que se encontra Portugal em termos de reflexão sobre o seu passado colonial e a forma como o público luso encarou o livro de testemunhos de 'insubmissos' aquando do lançamento da sua versão original há seis anos. "Houve debate porque não havia unanimidade. O Estado Novo considerava que os 'desertores' e os 'refractários' eram traidores. Eram pessoas que não combatiam e que não defendiam 'a pátria'.(...) O facto de tanto o Estado Novo e o aparelho de propaganda que era enorme terem considerado que a deserção era uma traição, como o principal partido de oposição -o Partido Comunista Português- ter como estratégia a participação dos militantes dentro das tropas, quando combatia e denunciava o colonialismo, fez com que a deserção e o movimento de refractários nunca fossem bem vistos mesmo depois do 25 de Abril", refere o historiador. Ao evocar, por outro lado, a forma como a França encara o seu passado colonial e nomeadamente a sua presença na Argélia que ainda há poucas semanas assinalou os 60 anos da sua independência, Victor Pereira considera que "a guerra da Argélia é um assunto muito polémico e é difícil. A sociedade francesa, no seu conjunto, conhece algumas divisões à volta deste tema. (...) Viu-se que o próprio Emmanuel Macron teve várias dificuldades com isto, porque durante a campanha de 2017, ele disse que a colonização na Argélia foi um Crime contra a Humanidade e foi logo criticado". Neste aspecto, ao notar que "em França, a História é muito popular no sentido em que há muitos programas de História na televisão, na rádio, e vê-se muitos livros de História nas livrarias", o estudioso não deixa de observar igualmente que "há um uso -e sempre foi- muito político da História tanto à esquerda como na extrema-direita" em França.
27 April 2022

'Exílios. Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)'-capítulo 1

RFI Português
Na semana passada, foi apresentada em Paris a versão francesa do livro 'Exílios. Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974)' publicada aqui pela 'Chandeigne', uma obra colectiva editada em 2016 em Portugal que se baseia nos testemunhos de homens e mulheres que nos anos 60 e começo da década de 70 deixaram o país rumo a França, Suécia, Argélia e outros lugares para não ter de se submeter mais à ditadura salazarista e combater em guerras nas quais não se reconheciam. Este livro que aquando da sua publicação em Portugal foi objecto de algum debate por evocar o tabu em torno daqueles a quem se chamou de "desertores", tem prefácio de Victor Pereira, historiador ligado ao Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Da conversa que mantivemos com o investigador tiramos dois capítulos. No primeiro capítulo, Victor Pereira evocou connosco o percurso dos 'insubmissos' e dos 'desertores' num contexto social denso, durante a guerra entre o regime salazarista e as suas então colónias. Ao dar conta da crescente apetência do público francês por Portugal e nomeadamente o seu passado recente, o estudioso não deixa de fazer um paralelo com o facto de "em França, desde há vários anos, há um grande interesse e às vezes mesmo uma certa obsessão à volta das guerras coloniais, nomeadamente da guerra da Argélia". Referindo-se à história dos exilados portugueses, uma história que também passou pela França, Victor Pereira refere que paradoxalmente, eles não tiveram necessariamente um acolhimento comparável àquele que receberam em países escandinavos onde existiam comités de apoio aos desertores e refugiados portugueses."Em comparação com vários países, a França nunca considerou que os desertores, os insubmissos, os refractários eram refugiados porque a França tinha boas relações com Portugal". A França, refere o historiador, "abria de par em par as portas aos emigrantes e aos trabalhadores". Ao sublinhar contudo que os mundos dos refugiados e dos trabalhadores emigrantes portugueses não eram estanques, Victor Pereira refere que "todos quando chegavam em França, quaisquer fossem os motivos, tinham de sobreviver nesse país. (...) houve, de facto, encontros no mundo do trabalho, em fábricas, nos cafés, nos mercados. Em Maio de 68, em fábricas como a Renault ou a Perrier, por exemplo, são jovens refractários e desertores que vão ter um papel importante para tentar explicar aos compatriotas que não tinham o hábito da sindicalização e da greve, por que motivo tinham que fazer greve e qual era o interesse deles. Então desempenharam um papel de intermediário entre os sindicatos franceses e os trabalhadores portugueses". Alguns outros refractários rumaram à então Meca da luta anticolonial, em Argel, onde contactaram com representantes dos movimentos de libertação que lá tinham também encontrado refúgio. "O que se vê num dos testemunhos é o facto de haver pessoas que vão para a Argélia e como é que a Argélia pós-62, pós-independência, ajuda tanto desertores exilados portugueses, mas também os movimentos como o MPLA, como o PAIGC, como a Frelimo, apoiando no treino de soldados, na difusão de propaganda anticolonial e como é que alguns jovens desertores portugueses participam nessa acção junto de pessoas que combatiam os soldados portugueses nas colónias", menciona o historiador que no segundo capítulo de entrevista concedida à RFI evoca a forma como a versão original desta colectânea de testemunhos, publicada em 2016, foi recebida pelo público português.
20 April 2022

“Contágios”, contos e crónicas da pandemia

RFI Português
Foi lançado este mês de Abril o livro “Contágios”, contos e crónicas escritos durante a pandemia. 65 autores de quatro países de expressão portuguesa e respectivas diásporas participam na obra, que é o resultado do projecto online "Mapas do Confinamento", nascido há um ano, pelas mãos de Gabriela Ruivo e Nuno Gomes Garcia. Ela é escritora portuguesa radicada em Londres, ele, escritor português residente em Paris. Em conjunto, a vontade de construir para memória futura uma cartografia literária do confinamento e da pandemia no mundo lusófono. A língua portuguesa é o denominador comum do projecto que conta com autores provenientes de Angola, Brasil, Moçambique, Portugal e respectivas diásporas. Um projecto global numa língua portuguesa “plástica e rica” como disse à RFI Nuno Gomes Garcia, um dos co-fundadores do projecto. "Este "Contágios'' é o resultado, exactamente, desse projecto que eu e a Gabriela [Ruivo] começamos há um ano que é o “Mapas do Confinamento''. Temos cerca de 150 artistas, escritores, poetas e muitos tradutores, ilustradores, fotógrafos e actores que também fazem leituras.  Todos os trabalhos de prosa, crónicas e contos são publicados neste livro. Portanto, são 65 autores, 65 textos, quatro países e as respectivas diásporas. Temos moçambicanos a viver em França, brasileiros a viver no Reino Unido, portugueses a viver nos Estados Unidos… é um projecto global em língua portuguesa. É isso que o “Contágios” representa".  São textos sobre o confinamento? Sobre a forma como cada um deles estava a viver esse período.  "Exactamente. O objectivo do “Mapas do Confinamento” é que seja feito um trabalho de memória, do ponto de vista artístico e literário. Ninguém se lembra da gripe espanhola de 1918, mas nada do género foi feito. Eu gostaria, por exemplo, de ver como é que os escritores em língua portuguesa viveram a epidemia de 1918. Nós queremos fazer isso para a grande pandemia de 2020/2021. Como é que os artistas de língua oficial portuguesa, vivendo em continentes diferentes, em sociedades completamente diferentes, mesmo diferentes do ponto de vista do combate dos organismos de saúde à pandemia, viveram este drama. É exactamente isso que nós queríamos saber. Com total liberdade artística, os escritores abordaram a temática da epidemia. Não exatamente, se calhar, esta epidemia, mas com total liberdade artística e, portanto, isso é o resultado".  Um ponto comum é a língua portuguesa. A língua portuguesa nos seus múltiplos sotaques.  "Sim, claro! O denominador comum deste projecto é a língua portuguesa. É tudo feito em língua portuguesa, apesar de agora termos traduções para mais três línguas: inglês, francês e chinês. São parcerias com Oxford, com a Universidade de Pequim e com a Universidade de Jean Monnet, aqui em Franca.  É uma língua portuguesa plástica, uma língua portuguesa rica, em que todas as literaturas feitas em português, todos os povos que se exprimem artisticamente em português, deram o seu contributo e nós podemos ver aí a absoluta riqueza que a língua portuguesa tem: a sua elasticidade, a sua riqueza vocabular influenciada pelas línguas africanas, pelas línguas ameríndias… Realmente está aí tudo, é um quase um compêndio de como falar os vários “portugueses” que existem em todos os continentes". Falamos de quantos autores? Provenientes de que países? "65 autores de quatro países. Por ordem alfabética, Angola, Brasil, Moçambique e Portugal. Depois temos vários autores expatriados, imigrantes, como é o meu caso, o caso do Agnaldo Bata que é moçambicano".  Da Luísa Semedo, por exemplo, também.  "A Luísa Semedo é de origem cabo-verdiana. Ela é portuguesa de origem cabo-verdiana a viver em França. Portanto é a única ligação que temos um quinto país que é o caso de Cabo Verde". Este projecto que lançaram em 2021, que faz agora um ano, acabou por ter uma recepção ou uma procura muito maior do que aquela que vocês estavam à espera. Como é que conseguiram gerir essa afluência?  "Perde-se muito tempo e isto é trabalho “pro bono''. A certa altura perdemos o controlo. Excedeu as nossas expectativas. Não estávamos a pensar que fosse ter este alcance, mesmo a nível de parcerias. Parcerias com a Gulbenkian, com a Universidade de Pequim, com Oxford ou Jean Monnet, nunca pensamos! Excedeu em muito o que esperávamos e excedeu-se de uma boa maneira. Foi tudo muito positivo, muito rápido e enriqueceu extraordinariamente o projecto".  E como é que saltaram de um site para um livro?  "Vivemos num mundo em que há uma tendência à desmaterialização. Tudo é desmaterializado na internet. A internet tem as suas vantagens, mas o site inevitavelmente um dia irá desaparecer, porque nem tudo é eterno. O livro não. O livro em papel é algo que fica. Nós precisamos materializar este projecto exactamente por ser um projecto de memória que queremos de longa duração, para daqui a 100 anos sabermos como é que os artistas que falam português viveram a pandemia de 2021/2022. O papel, apesar das pessoas dizerem que é um suporte em extinção, acho que nunca se vai extinguir. Nunca passará de moda o livro em papel e, portanto, é algo que vai durar. Daqui a 100, 200 anos as pessoas poderão ter acesso mais facilmente ao livro, do que àquilo que está desmaterializado na internet". Rui Almeida, fundador da editora Visgarolho, compara este livro “Contágios” a uma “extensa mesa de acepipes”. “É assim que eu encaro este conjunto de textos. Porque são 65 autores; todos lusófonos, mas uns africanos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, uns brasileiros, uns portugueses a viver em diferentes sítios, há quem esteja a viver na Europa e outros nos seus países de origem… Os textos são todos em português, mas é um português que tem várias musicalidades muito diferentes. A forma de escrever em Moçambique é diferente da forma de escrever no Brasil e em Portugal. Portanto, há diferentes maneiras de despertar ideias, de como se constroem as frases e é como se tivesse uma vasta mesa, tipo um banquete, cheia de salgados e de doces e uma pessoa pode ir experimentando um pouco de tudo. Mesmo em termos de estilos literários, há estilos muito diversos. Há autores muito novos, há autores já com uma certa idade, há autores consagrados e que venceram prémios literários importantes e há quem esteja a publicar pela primeira vez um conto neste livro. É uma miscelânea muito grande. No fim de cada conto ou de cada crónica há uma pequena biografia do autor, onde estão referidos os trabalhos que ele já tem publicados".  
13 April 2022

Os Republicanos vivem situação critica para manter viva direita francesa

RFI Português
Até dia 15 de Maio o partido de direita Os Republicanos tem de saldar uma divida de 7 milhões de euros dos encargos de campanha a grande interrogação é conseguir fundos para fazer campanha nas eleições legislativas de Junho. A candidata do partido da direita francesa Os Republicanos, Valérie Pécresse, lançou um apelo para obter donativos para pagar os sete milhões de euros de despesas na campanha eleitoral, depois da desfeita na primeira volta das eleições presidenciais francesas. A lei francesa prevê um reembolso muito limitado das despesas de campanha para um partido que obtenha menos de 5% dos votos.  O antigo Presidente francês Nicolas Sarkozy anunciou apoiar Emmanuel Macron, para a segunda volta das presidenciais francesas que vão opor o candidato, que foi Presidente nos últimos cinco anos, à candidata de extrema-direita Marine Le Pen. "Os Republicanos vivem uma incerteza até meados do próximo mês", descreve Paulo Marques, apoiante da candidata d'Os Republicanos Valérie Pécresse.
13 April 2022

"Corremos o risco de uma grande parte dos eleitores se desmobilizarem"

RFI Português
Os 22% dos eleitores franceses que votaram em Jean-Luc Mélenchon  ouviram o apelo do líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon para não "dar nenhum voto" a Marine Le Pen na segunda volta.  "Esta foi uma derrota, mas ao mesmo tempo uma vitória. Jean-Luc Mélenchon foi o único candidato de esquerda nestas eleições", descreve Cristina Semblano, apoiante da França Insubmissa. "Bastava a desistência do candidato do partido comunista para que a esquerda chegasse ao poder", defende. Nos próximos 11 dias Emmanuel Macron vai adaptar o discurso para cumprir a promessa de “inventar algo de novo para unir as diversas sensibilidades” que rejeitam a extrema-direita. A candidata da União Nacional, Marine Le Pen, quer rever a Constituição "para tornar mais simples a organização de referendos". A apoiante da França Insubmissa acredita "que muitos eleitores se vão desmoblizar". Uma vez que "até agora a mobilização na segunda volta efectuava-se muito através do medo da extrema-direita. As reformas do Presidente Macron traduziram-se por uma imensa resistência. A população não quer esta viragem neoliberal e resistiram. Contra essa mobilização, o Presidente e o seu governo usaram a violência".   RFI: Falou-se muito de possíveis  coligações à esquerda, mas tanto o líder da França Insubmissa como o líder do Partido Comunista refutaram essa ideia. Teria feito a diferença? Cristina Semblano: Teria feito a diferença. Eu diria, que já bastava a desistência do candidato do partido comunista para que a esquerda chegasse ao poder. Isso é lamentável. Quando eu falo de esquerda não falo de esquerda do PS nem da esquerda ecologista. Aliás, viu-se perfeitamente o descrédito deles nas eleições. Eu não quero julgar as eleições pela percentagem dos votantes. Não quero julgar os candidatos ou os seus políticos, mas enfim.. a candidata de um partido, que foi um partido de poder Anne Hidalgo, que é actual presidente das câmaras de Paris, que nem sequer chegou a 2% e o ecologista, que também nem sequer a 5% chegou. Passaram a vida a diabolizar Jean-Luc Mélenchon, mais do que qualquer outro candidato e finalmente sair-lhe o tiro pela culatra. Eu não considero esses candidatos como candidatos de esquerda, se falarmos em Anne Hidalgo, sabemos que o Partido Socialista esteve no poder. Continuar a chamar ao Partido Socialista, socialista é verdadeiramente escandaloso porque o Partido Socialista nos últimos quarenta anos tem implementado as mesmas políticas que a direita. Não há diferença entre a direita, há pequenas diferenças de forma ao nível talvez de liberdades, mas no essencial o Partido Socialista que tem implementado as mesmas políticas neoliberais do que a direita. A ecologia mostrou bem que é uma ecologia sem coluna vertebral. Uma ecologia que não põe absolutamente nada em causa o modo de produção. Não podemos lutar por políticas ambientais sustentáveis sem que haja uma mudança. O líder da França Insubmissa afirmou que se abre uma nova página de luta e pediu que melhor. Pergunto-lhe primeiro o que é que isto quer dizer. O número dois da França em submissa à falou da possibilidade de de se impor uma coabitação com Emmanuel Macron nas legislativas de Junho deste ano. É esse o caminho é pensar já nas próximas eleições? Isso é importante, não é? Porque as próximas eleições estão aí em junho não é? É preciso definirmos aquilo que queremos. Depois deste quinquénio desastroso,  depois da política de Emmanuel Macron, desde que ele chegou ao ministério das finanças, mas que ainda se intensificou depois da sua eleição como Presidente da República houve uma aceleração das políticas neoliberais inédita Foi uma continuação acelerada que se verificou pela resistência que se cristalizou, nomeadamente, no movimento que os coletes amarelos e nas grandes manifestações contra a reforma das pensões. A questão coloca-se em saber se Emmanuel Macron for eleito, o que é que vai acontecer? Quer dizer vamos ficar de braços caído? Não ! É necessário que nas legislativas pensemos bem naquilo que queremos e, nomeadamente, em uniões que possam levar a voz da esquerda ao Parlamento. Corremos o risco dos eleitores da França Insubmissa se desmobilizarem neste segunda volta? Eu não penso que nós corramos o risco dos eleitores da França é Insubmissa se desmobilizarem. Eu penso que nós corremos o risco de uma grande parte dos eleitores se desmobilizarem. Quando há eleições começam-se a falar naqueles que atingiram os melhores resultados nos vencedores. Neste caso, Emmanuel Macron e Marine Le Pen, mas silenciamos a abstenção. A taxa de abstenção nesta primeira volta das presidenciais foi muito importante. 25%  contra 22% por cento na primeira volta das anteriores eleições. Diria que a abstenção seria o o primeiro partido que foi votado, primeiro ganhador. É necessário saber que há seis milhões de potenciais eleitores que não estão inscritos na listas eleitorais e portanto tudo isso faz com que muita gente não tenha votado. Penso que não vai haver uma grande abstenção, mas sim uma grande desmobilização global em França. Emmanuel Macron está a transformar o voto na segunda volta das eleições presidenciais como um referendo à sua politica. À parte dos mais ricos e dos mais velhos, não vejo quem é que pode dizer sim a este acordo. Ele privatizou aquilo que ainda restava para privatizar. Acabou com o estatuto dos ferroviários. Em todas as reformas que o fez durante o seu quinquénio, em todas as reformas, a prioridade foi dada ao capital em detrimento do trabalho.
07 April 2022

Marine Le Pen não consegue "apagar a herança" de Jean-Marie Le Pen e da Frente Nacional

RFI Português
A três dias da primeira volta das eleições presidenciais em França que acontecem já no domingo, Rafael Lucas, professor jubilado do Instituto Ibero-americano da Universidade de Bordéus considerou em entrevista à RFI que Emmanuel Macron sairá vencedor e que os franceses se lembram da herança racista de Marine Le Pen com a grande preocupação dos franceses a centrar-se no poder de compra e o futuro do seu dia-a-dia face à guerra na Ucrânia. Para o académico, Marine Le Pen, que tentou amenizar a sua imagem anti-imigração, pode esperar-se também uma vitória na segunda volta já que os franceses não esquecem a pesada herança da Frente Nacional, partido de extrema-direita fundado pelo seu pai, Jean-Marie Le Pen. "Para mim, Marine Le Pen não passará, porque mesmo que tenha mudado e abrandado a sua imagem de extremista e anti-imigração, mesmo que tenha feito um esforço enorme para se apresentar como uma senhora corriqueira, a herança do pai e da Frente Nacional não poderá apagar-se", explicou Rafael Lucas. As sucessivas crises em França e no Mundo, segundo o académico de Bordéus, acabaram por favorecer Emmanuel Macron que continua a ser o candidato favorito dos franceses para a primeira volta e para a segunda volta, apesar da proximidade de Marine Le Pen como segunda qualificada. "Macron vai tirar partido de algumas realizações normais, porque como trabalhou no Governo, aproveitou a posição de dirigente, além de também a posição de presidente do Conselho da União Europeia e até a questão da guerra na Ucrânia deu-lhe um estatuto mas presidencial e também soube a proveitar a crise do coronavirus, porque utilizou a imagme do protector, sobretudo das médias e pequenas empresas, que é o corpo produtivo mais numeroso da economia francesa", explicou. Na segunda-feira, face aos resultados de domingo, começará a campanha da segunda volta das eleições franceses entre os dois candidatos mais votados. Até agora, as sondagens apontam para um embate entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen.
31 March 2022

Presidenciais: Imigração não é um tema novo, mas "o debate radicalizou-se"

RFI Português
A faltarem dez dias para a primeira volta das eleições presidenciais francesas de 10 de Abril,  a imigração ocupa, uma vez mais, um tema central na campanha de alguns candidatos, nomeadamente da direita e extrema-direita. Na História política franca, a questão das migrações conquistou uns eleitores e criou crispações noutros eleitores. Hoje, "o debate radicalizou-se", aponta a professora de filosofia, Luísa Semedo. Num comício da candidata d'Os Republicanos, Valérie Pécresse, usou a expressão “grande substituição”. Foi a primeira vez que um candidato de direita às presidenciais usou esta expressão, até agora usada por candidatos de extrema-direita, sublinha Luísa Semedo, conseilheira eleita por França do Conselho Regional da Europa das Comunidades Portuguesas. Na História política franca, a questão das migrações conquistou uns eleitores e criou crispações noutros eleitores. Hoje, o debate radicalizou-se? Luísa Semedo: O debate radicalizou-se completamente porque temos, por exemplo, a teoria da "grande substituição" até há pouco tempo era considerada uma teoria completamente extrema-direita, extremista mesmo, quer dizer que não nem sequer fazia parte do discurso público mainstream, nem sequer Marine Le Pen falava sobre isso e agora nós já temos até uma Valérie Pécresse, eventualmente um Éric Zemmour numa emissão de televisão com crianças a falar nisso, a falar da grande substituição nos seus spots de campanha como se nada fosse. Nós temos aqui uma teoria supremacista branca, que levou à morte ou atentados no mundo à morte de pessoas e hoje em França é falado como se fosse uma normalidade. Ou seja é radicalizou-se o discurso. Uma sondagem da Ipsos-Sopra Steria aponta que o poder de compra é a principal preocuoação dos franceses. A imigração ocupa o quarto lugar, depois das questões de saúde e ecologia. No entanto, este é um tema de campanha importante para todos os candidatos. Como se explica? É um tema que foi conseguiu ser imposto pela extrema-direita porque a esquerda e o centro estão um bocadinho mais atrás a nível de tudo o que é ideias. Ainda há um trabalho a fazer sobre isso. Ainda há pouco tempo o filósofo Edgar Morin falava sobre isso, sobre a decadência das ideias de esquerda que não estão a vingar e não estão a saber renovar-se e, portanto, a extrema-direita encontra aí um vazio possível para martelar as suas ideias de forma muito convicta. E depois a comunicação social também vai atrás dessa temática porque é uma temática que é um bocado dramática e que cria tensão. Os próprios candidatos quando falam estava a ver estava a ver o spot de Éric Zémmour e o que ele faz é ligar essa questão, por exemplo, de poder de compra à questão da imigração. Uma das questões mais importantes para os franceses ligada à questão de emigração para as pessoas terem a impressão de que são mais pobres ou têm mais dificuldades porque existem imigrantes. O filósofo e pensador centenário, Edgar Morin, publicou recentemente um livro no qual explica exactamente isso,  este vazio da esquerda aproveitado pela extrema-direita. O que explica este vazio de ala esquerda? Não sei, eu acho que vai ter menos preciso uma auto reflexão da esquerda em relação a esta situação eu penso que há uma parte que simplesmente que que mudou mais para o centro. Nós temos um PS com várias pessoas do PS que acabaram por estar agora com Macron, que tem em tudo o que é económico ideias muito mais liberais e muito mais de direita. Há aqui uma espécie de perversão daquilo que era original e depois os partidos mais ideológicos e que não simplesmente não conseguiram renovar o seu modo de falar, o seu discurso. Continuam há décadas com o mesmo livro, portanto é preciso haver aqui alguma renovação e passa primeiro talvez por uma consciência de que isso está a acontecer. Edgar Morin e filósofos disse calibre conseguem ter esta visão um bocadinho mais objectiva sobre aquilo que se está a passar. E espero que haja um acordar daquilo que se está a passar. Alguns responsáveis políticos apontam que a França foi invadida por estrangeiros. A imigração é hoje maior do que no passado? A maior parte do tempo quando nós vamos ver as notícias, quando temos especialistas de demografia a falar, especialistas de imigração eles dizem sempre que não, que o que se está a passar é muito mais uma impressão exagerada pelos discursos da extrema-direita e também uma crise, sobretudo do acolhimento. Quando há uma crise de acolhimento, a imigração é muito mais visível porque vêem-se os efeitos do mau acolhimento. Portanto há uma impressão, mas que não é verdadeiro em relação aos números. Há falta de informação também quanto a estas questões migratórias? Sim claro, falta de informação e as redes sociais também ajudam muito nisto. Existe uma grande propaganda, fake news etc e portanto temos aqui um problema nas mãos importantes. Luísa Semedo, para determinar, a crise sanitária mudou a visão que tem os franceses quanto à imigração segundo estudos dois terços dizem ter mudado a opinião desde Março 2020; muitos postos de trabalho essenciais foram ocupados por imigrantes, também precisar de olhar sociologicamente de outra forma? Sim, eu penso que sim. Não sei se os franceses têm essa noção de que esses trabalhos são feitos pela imigração. Mas pronto se estudos o dizem, ok, mas talvez é que agora com a crise ucraniana - porque houve de facto o acolhimento colectivo em relação aos imigrantes ucranianos, e ainda bem que há esse acolhimento e que há essa iniciativa toda e espero que seja alargada esta visão de imigração como um dever de um país tão grande como a França de um país que defende e que é o um farol,ou que quer ser um farol sobre as questões dos grandes valores... de liberdade, igualdade, fraternidade. Esse dever ocupa espaço nestes debates presidenciais? Eu penso que ainda não se conseguiu muito bem. Alguns partidos lá tentam trazer essas questões e trazer um discurso mais positivo, mas depois nos temos todo um centro-direita, extrema-direita que está um bocado com medo dos eleitores e uns estão com medo e outros fazem disso o seu fundo de comércio.
24 March 2022

Eric Zémmour resgatou discurso "xenófobo, racista, discriminatório" de Jean-Marie Le Pen

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Nas eleições francesas, a extrema-direita está agora dividida entre Marine Le Pen, do partido Rassemblement National, e Eric Zémmour, um ex-jornalista que fundou o partido Reconquête, para se lançar na corrida ao Eliseu, representando quase 30% das intenções de voto dos franceses. "Eric Zémmour tem a percepção que o discurso explicitamente xenófobo, racista, discriminatório, que vai contra toda a História da França, que sempre acolheu vários tipos de migração, vai tentar conquistar o eleitorado e, ao fazê-lo, acentua ainda mais actualidade da questão migratória, na qual ele insiste muito", disse Diogo Sardinha, investigador e ex-presidente do Colégio Internacional de Filosofia, em Paris, em entrevista à RFI. O ex-jornalista e ex-comentador que tem tido uma presença mediática constante em França nos últimos 35 anos apropriou-se do espaço que até agora pertencia à família Le Pen, com o Rassemblement Nationale a tentar normalizar a sua existência na vida política francesa. "Ele aproveita esse espaço porque com a possibilidade de uma extrema-direita, nomeadamente da família Le Pen, poder chegar à presidência, houve um atenuar desse discurso racista, que era o discurso de Jean-Marie Le Pen e, mais cedo ou mais tarde, apareceria alguém que vai resgatar esse tipo de discurso", considerou o filósofo. Actualmente, Eric Zémmour está em queda nas sondagens, atingindo ainda cerca de 9% das intenções de voto dos franceses, quanto a Marine Le Pen, a líder da extrema-direita perfaz agora entre 15 a 20% das intenções de voto, dependendo das sondagens, e encontrando-se no segundo lugar na primeira volta das eleições presidenciais. O extremar de posições acaba por contagiar a sociedade francesa que considera que, nos últimos anos, a política e os políticos têm sido ineficazes a melhorar o seu quotidiano, com a abstenção a poder bater recordes nestas eleições. As eleições presidenciais em França vão realizar-se em duas voltas, com a primeira a decorrer a 10 de abril e a segunda volta a 24 de abril.