Museu Carnavalet mergulha na relação de Proust com Paris para celebrar os 150 anos do escritor
07 January 2022

Museu Carnavalet mergulha na relação de Proust com Paris para celebrar os 150 anos do escritor

RFI Brasil

Depois de uma gigantesca reforma que durou cinco anos, o Museu Carnavalet abre os trabalhos de um ano dedicado ao gênio de Marcel Proust na capital francesa, com duas efemérides de peso em 2022: os 150 anos de nascimento e os 100 anos da morte deste escritor francês criado na efervescência da rive droite parisiense do fim do século XIX. A exposição Marcel Proust, um romance parisiense, retraça os passos do escritor na capital, seguindo os do protagonista de Em Busca do Tempo Perdido. Márcia Bechara, da RFI A curadora da exposição Marcel Proust, um romance parisiense no Carnavalet, museu dedicado à história de Paris, Anne-Laure Sol, explica que a mostra é dividida em duas partes principais, entre a realidade da Paris habitada pelo escritor e aquela imaginada por seus livros. "A primeira parte da exposição é, em parte, biográfica, e se interessa pela vida de Proust em Paris, depois da chegada de sua família materna na capital francesa no começo do século XIX", aponta.  "É uma família judia, que chega da Alsácia, e essa parte biográfica vai até a morte do escritor, no 6° distrito da capital. O percurso museográfico é organizado seguindo os diferentes domicílios da família de Marcel Proust, e os seus após a morte de seus pais, e isso nos permite juntar os pedaços de sua vida e entender melhor sua formação estética, suas relações profissionais, seus amores. Isso nos permitiu mostrar também em que Paris viveu Proust", explica Sol. Um homem da "Rive Droite" A exposição no Museu Carnavalet contextualiza a dimensão decisiva de Paris no despertar da vocação literária de Marcel Proust, desde seus primeiros textos no final da década de 1890 com seus colegas do liceu Condorcet, até sua entrada na alta sociedade parisiense. "É muito interessante observar que Proust era uma homem da rive droite", diz a curadora, fazendo referência à margem direita do Sena, rio que corta a cidade de Paris em rive gauche (esquerda) e droite (direita). "Ele vivia em torno de um perímetro pequeno, no 8° distrito. A aristocracia francesa durante muito tempo viveu na rive gauche, do lado esquerdo, era mais prático para ir a Versalhes e encontrar a Corte", detalha Anne-Laure Sol. "Sob o império de Napoleão 3°, essa elite parisiense vai se instalar do lado direito do rio, porque era uma Paris mais moderna, com grandes avenidas e espaços para mansões, e acontece então esse deslocamento da elite da capital no meio do século XIX para o oeste de Paris e a margem direita do Sena", lembra a curadora da exposição. O quarto de Proust Cerca de 280 obras, entre pinturas, esculturas, fotografias, maquetes arquitetônicas e vestimentas, manuscritos e documentos de arquivo, de coleções públicas e privadas, evocam o universo parisiense de Marcel Proust, oscilando entre a realidade e a reinvenção. Um dos colecionadores que foram interlocutores ativos da curadora Anne-Laure Sol, do Museu Carnavalet, foi o brasileiro Pedro Corrêa do Lago. "Gostaria de agradecer a participação deste colecionador tão erudito e tão importante para esta mostra", sublinhou a francesa. Lago é historiador da arte e o colecionador brasileiro que reune o maior acervo particular de cartas e manuscritos originais do mundo. "Nós conservamos o quarto de Marcel Proust graças a doações destes bibliófilos. Há a sua cama, mas também uma certa quantidade de objetos que lhe pertenciam. Trata-se da cama onde ele redigiu o essencial de Em Busca do Tempo Perdido, que é também a cama onde ele morreu", diz Anne-Laure Sol, que também coordena o patrimônio do Museu Carnavalet. "[A cama] É um objeto particularmente emocionante e a colocamos no centro do percurso dessa exposição para que as pessoas se deem conta que entre a Paris biográfica e real e a Paris ficcional recriada pelo escritor, na segunda parte da exposição, existe esse quarto, que é o laboratório dessa criação", diz. Em Busca do Tempo Perdido A segunda parte da exposição se abre sobre a Paris fictícia criada por Marcel Proust, seguindo a arquitetura do romance Em Busca do Tempo Perdido através de lugares parisienses emblemáticos, e oferecendo uma viagem pela obra e pela história da capital francesa, focalizando os principais protagonistas do romance. “Quisemos oferecer ao público uma viagem pelos principais lugares presentes no Em Busca do Tempo Perdido”, diz Sol. “Nos interessamos pelos valores simbólicos desses lugares de iniciação de Proust. Fomos em busca desses lugares míticos, o Bois de Boulogne, a Champs Elysée, o Faubourg de Saint-Germain, qual a relação do herói do romance com esses lugares e, sobretudo, como o escritor demarcava a questão da passagem do tempo,  contando a transformação da cidade”, diz a curadora. "Proust se mostra verdadeiramente um produto desta cidade parisiense, desse ambiente sociocultural único no mundo do fim do século XIX, Paris estava então no apogeu de sua dominação cultural", pontua Sol. "O escritor leva no centro disso tudo uma vida extremamente mundana e sabe também perceber o declínio desse mundo. Observando o romance proustiano, vemos que ele se interessa em descrever uma sociedade que vai desaparecer com a guerra no fim do século", conta a curadora. A exposição Marcel Proust, um romance parisiense fica em cartaz no Museu Carnavalet até o dia 10 de abril de 2022.