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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.
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19 May 2022

Longa de James Gray, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, entra na competição em Cannes

RFI Brasil
Nesta quinta-feira (19), o filme “Armageddon Time”, de James Gray, entra na competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes. O longa americano é produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features, que desponta como um dos principais nomes de Hollywood atualmente. Adriana Brandão, enviada especial ao Festival de Cannes “Armageddon Time” é um filme autobiográfico, focado na juventude de James Gray em Nova York nos anos 1980, no momento da chegada de Ronald Reagan ao poder. Ele conta a história de um adolescente judeu, segundo filho de uma família de classe média baixa. Todo o investimento da família vai para o primogênito. O segundo filho, sonhador, estuda em uma escola pública até ser expulso e ser finalmente enviado a uma escola privada do Queens, dirigida por Fred Trump, pai de Donald Trump. Segundo Rodrigo Teixeira, o filme fala de um tema muito presente atualmente. “É um filme sobre o racismo. Todo mundo sofre racismo nos Estados Unidos em alguma escala; o latino, o negro, o judeu, todo mundo sofre. O filme se passa em um momento que os EUA saiam do (governo do) Jimmy Carter, democrata, e vem o Ronald Regan e a volta de um país mais conservador”, conta o produtor. Armageddon Time questiona, mais uma vez, o sonho americano. O longa é estrelado por Anne Hathaway, Anthony Hopkins e Jeremy Strong. Ele marca a volta de James Gray a Cannes, nove anos depois de sua participação com “A Imigrante”. Cannes aprecia a obra do diretor americano, selecionado pela quinta vez na disputa pela Palma de Ouro. Expectativa de prêmios Ele é um “cineasta autoral e independente”, ressalta Rodrigo Teixeira, “muito mais reconhecido na Europa do que nos Estados Unidos. O grande público americano não conhece porque ele não se rendeu a fazer filme para o grande público”. Alguns críticos colocam “Armageddon Time” na lista dos favoritos, mas o produtor brasileiro prefere não ter expectativa:  “Aprendi com o tempo a não ir a Cannes com expectativa. Se eu ganhar é lucro. Eu já estou na competição, batalhei muito para isso. Há dois anos seguidos, tem filme da RT em competição em Cannes. A minha produtora, eu considero, ganhou três dos quatro principais prêmios de Cannes. Só falta um, a Palma de Ouro.” Rodrigo Teixeira faz referência a Câmera D’or conquistada no ano passado por “Murina”, da diretora croata Antoneta Alamat Kusijanovic, no ano passado, do prêmio "Un Certain Regard" para a “Vida Invisível de Eurídice Gusmão, do brasileiro Karim Aïnouz, em 2019, e o Fipresci, também em 2019, por “The Lighthouse”, do norte-americano Robert Eggers.  Na opinião de Teixeira, a seleção deste ano é “bem particular, de autores” e que tudo depende do júri, que este ano é “interessante”. “Quando você tem o Vincent Lindon presidente do júri, ele pode apreciar o James, mas ao mesmo tempo ele fez “Titane” (vencedor da Palma de Ouro em 2021). Será que Cannes 2022 repete 2021 e dá um prêmio para um filme similar, que é o “Crimes do futuro” — do David Cronenberg — que tem a mesma estranheza?", questiona. Ele acredita que Thierry Frémaux irá brigar “para que um filme parecido não ganhe”.  DNA brasileiro “Armageddon Time” é a segunda colaboração de Rodrigo Teixeira com James Gray. Eles fizeram juntos “Ad Astra”, em 2019. O longa na competição em Cannes é americano, mas Rodrigo Teixeira gosta de dizer que ele tem DNA brasileiro. “Ele é um filme brasileiro. Eu garanto esse filme. Se der uma besteira financeira, quem vai pagar a conta sou eu. Eu desenvolvi com o James, o contratei para desenvolver uma ideia que ele vendeu para mim. Durante um ano e meio foi um trabalho muito solitário dele conosco. Somos (a RT) as primeiras pessoas a receber o roteiro”, lembra. Rodrigo Teixeira é o produtor majoritário mas tem parceiros, entre eles quatro brasileiros. “Armageddon Time” é o terceiro, dos 21 filmes na disputa pela Palma de Ouro, a ser exibido em Cannes. Os vencedores serão conhecidos em 28 de maio, último dia do maior e mais badalado festival de cinema do mundo.
13 May 2022

Pintora brasileira expõe em Paris diário visual feito durante tratamento contra o câncer

RFI Brasil
Arquiteta, urbanista e paisagista, Patrícia Golombek dedicou os últimos 35 anos à pintura, especialmente aos grandes formatos. Porém, desde 2018, a artista plástica paulistana radicada nos Estados Unidos foi obrigada a diminuir o ritmo, mas sem perder a criatividade. Diagnosticada com câncer de mama e obrigada a se submeter a quimio e radioterapias, ela retratou os dois anos de luta contra a doença num diário visual. O recolhimento coincidiu com a epidemia de coronavírus, quando o mundo também parou. O resultado dessa pausa pode ser visto numa exposição individual em Paris. “Durante dois anos, eu fiquei pintando pequenos quadros e contando tudo o que acontecia comigo e com o mundo, que parecia que tinha parado durante aquele tempo”, diz. “Primeiro o medo que eu senti quando soube dessa notícia do tratamento, o processo de ter ido para o Brasil fazer uma cirurgia e ter voltado para os Estados Unidos, onde eu moro, e ter enfrentado uma série de transformações, como ter perdido o meu cabelo”, relata. “E vou contando como tive que ficar sentada numa poltrona esperando tudo passar, o meu trabalho, as visitas que recebi”, completa. Átimo, Átomo A exposição intitulada Átimo, Átomo reúne trabalhos inéditos, em que ela explora a sua jornada de recuperação, enquanto o mundo lidava com a disseminação devastadora da Covid-19. Neste diário pintado, Patrícia Golombek relata eventos que a marcaram, como a morte do estilista Pierre Cardin, no fim de 2020, e a invasão do Capitólio, em janeiro de 2021. “Eu era muito fã do Pierre Cardin, pois como arquiteta sempre me interessou a forma como ele fazia a estrutura das roupas. Fiquei muito triste e fiz uma homenagem a ele. O Capitólio ser invadido também me deu um choque grande”, lembra. Sobretudo, as pinturas refletem a maneira como o mundo lidou com os confinamentos e restrições para conter a epidemia de Covid-19. Um trabalho que questiona a sobrevivência, o tempo e a própria existência humana. “Numa dessas pinturas sobre a radioterapia, quando eu recebi uma energia que me curou, eu pinto um quadrinho com uma referência aos átomos. E aparece, no meio desse quadro, uma estrela de Davi, que seria a fé. E quando eu sou convidada para fazer esta exposição em Paris, eu penso: o que foi tudo isso que eu passei?”, questiona. “Então, eu começo a fazer trabalhos que têm a ver com esses átomos e com o tempo, com a resiliência. Eu faço trabalhos que têm pontos, círculos, que têm a ver com o movimento da Terra, que não parou o seu movimento de rotação e translação, os átomos que fazem parte do nosso corpo, o átimo que é uma fração do tempo, e como tudo mudou”, resume. Jardim da cura Ainda quando se recuperava, a arquiteta paulistana, que vive há sete anos em Miami, na Flórida, recebeu um convite para projetar um jardim. Foi uma oportunidade para ela exercer uma parte da profissão à qual nunca havia se dedicado. Patrícia conta que estudar as plantas também ajudou no processo de cura. “Me convidaram para fazer um projeto de um jardim, o que me deixou muito feliz porque eu conseguia ter energia para fazer o projeto, pois não tinha energia para pintar quadros. E essa cura veio [também] através desse jardim. Eu comecei a fazer um projeto e vários vieram em seguida”, diz. A artista conversou com a RFI Brasil durante a sua passagem em Paris para a vernissage de sua a segunda exposição individual na capital francesa. “Eu estou muito contente, é a minha segunda exposição em Paris, as pessoas sempre são muito interessadas, é uma oportunidade muito boa. Eu espero que faça sucesso e toque as pessoas”, firma. “No final, graças a Deus tudo está passando e a vida está recomeçando. Eu estou percebendo que em todos os lugares as pessoas sentem a necessidade de estar juntas e é tudo muito bonito", conclui. “Graças a Deus eu estou curada, mas a gente sempre renasce vendo a vida com outra perspectiva, vivendo um dia de cada vez e tentado ser feliz”, finaliza. Fé, ciência, geometria e o movimento do planeta e resiliência. Tudo isso compõe os quadros que Patrícia Golombek expõe na capital francesa.  A mostra fica em cartaz na galeria Meyer Zafra, no bairro do Marais, até o dia 12 de junho.  
22 April 2022

Exposição em Paris mostra um Picasso intimista, fascinado pela infância

RFI Brasil
Um Picasso visto de dentro, com suas contradições, brincadeiras e superstições, uma visão mais íntima, familiar e pessoal de um dos maiores artistas do século 20. É o que traz aos olhos do público a exposição Doação de Maya Ruiz-Picasso, filha de Pablo, em cartaz no Museu Picasso, em Paris. Por Paloma Varón, para a RFI Inaugurada em 16 de abril, a exposição, que conta com mais de 200 peças no total, é centrada nas nove obras pertencentes ao acervo pessoal da filha mais velha do pintor, Maya, nascida em setembro de 1935 de um romance extraconjugal com Marie-Thérèse Walter. O patrimônio foi doado ao Museu Picasso em 2021. Por meio de um rico acervo de pinturas, esculturas e cadernos de desenho, além de fotografias e objetos pessoais, o visitante descobre como era a vida íntima e familiar de Picasso com seus quatro filhos: Paul, Maya, Claude e Paloma. Mas o acervo de Maya vai além: a exposição conta, por exemplo, com um retrato que Pablo pintou de seu pai em 1895, quando ele tinha apenas 14 aos. Don José Ruiz era também pintor e professor de Belas Artes. Com curadoria de Émilia Philippot, conservadora das obras de Picasso, e da historiadora da arte Diana Widmaier-Ruiz-Picasso, filha de Maya e neta do artista, a exposição mostra, em todas as cores e formas, um Picasso encantado pela infância, em particular a de seus filhos, que ele retrata com ternura. "A gente toca o lado humano de Picasso. Esta exposição nos permite humanizar alguém que a gente tem a tendência a mitificar e eu acho que é importante para o público", resume Diana Picasso. Como bumbum de bebê Além de mostrar a fascinação de Picasso pela vida familiar, a exposição conta com uma obra bastante contemporânea, por se servir de um material pouco convencional. Diana, a neta de Picasso, falou com exclusividade à RFI sobre o quadro "Natureza morta com jarro e maçã":  "É uma obra que foi realizada pelo meu avô em 1938, quando Maya tinha 2 anos e meio e ainda era amamentada pela minha avó, Marie-Thérèse. Como Picasso era uma pessoa que se maravilhava com tudo, ele observou que um bebê amamentado tinha excrementos de uma cor diferente, de um amarelo impossível de reproduzir. Então ele pegou um algodão que foi utilizado para limpar Maya e colocou neste quadro. Este quadro é único porque foi a primeira vez que ele utilizou este material e isso nos leva a algo quase filosófico, porque são matérias vivas que ele imortalizou", explica.  A exposição conta também com uma seção chamada Memorabilia, que reúne roupas, chinelos, primeiros sapatos, mechas de cabelo, unhas cortadas (Picasso era supersticioso e não jogava fora suas unhas cortadas), poemas e cartazes que ele escreveu a Maya e Marie-Thérèse e nunca foram mostradas ao público. Apresenta, ainda, fotografias de família de Edward Quinn que não eram conhecidas. Cadernos com notas atribuídas ao pai pela filha O público pode ter acesso a um caderno de desenho com notas que a filha atribuía ao pai, numa inversão de papéis que parecia agradar ao mestre. Maya era rígida e dava notas como 10 sobre 20 aos desenhos de seu pai. Diana, a neta, se diverte e se emociona ao falar destes cadernos: "Os cadernos de desenho são um testemunho emocionante e único, além de inéditos. Mostram como ele ensinava desenho e perspectiva a Maya, assim como ele havia aprendido com o seu pai. E através dela ele reaprende, como ele sempre disse, a desenhar como uma criança".  Infância sob o signo das guerras A mostra exibe as bonecas e marionetes de papel criadas por Pablo para a sua primeira filha, que teve a infância marcada pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).  Além disso, Picasso fez representações em desenhos e pinturas de Maya, desde o seu nascimento até o início de sua vida adulta: Picasso a acordou na madrugada em que faria 18 anos para desenhá-la antes que ela alcançasse a maioridade. A exposição foi também uma oportunidade para Diana conhecer um pouco mais sobre a infância de sua mãe.  "Eu fui entrevistar a minha mãe para o catálogo desta exposição e aprendi coisas que podem parecer engraçadas, mas que finalmente ganham um novo sentido quando falamos de Picasso, como as canções de ninar que ele cantava para ela, que ele havia aprendido com a sua mãe na Espanha", conta.  Diana explica o porquê de sua mãe, nascida María de la Concepción, se chamar hoje Maya (ela conseguiu mudar o seu nome em cartório, já na idade adulta).  "Maya foi batizada como Maria de la Concepción, o mesmo nome da irmã caçula de Picasso, que morreu aos setes anos de difteria, quando Picasso era novo. Ele nunca superou esta morte. Quando sua primeira filha nasceu, ele decidiu chamá-la assim, um nome que é complicado de pronunciar, ainda mais em Paris, então María de la Concepción virou Maria e logo Maya", relata.   Essas e outras descobertas sobre a vida íntima do mestre e sua família, assim como o seu processo de criação, são privilegiados nesta mostra em Paris.  "A escolha das obras mostradas aqui foi feita em conjunto com a família. Estas nove novas obras doadas por Maya cobrem o período de 1895 a 1972 e incluem pinturas, esculturas, um caderno de desenho e uma obra da coleção pessoal de Picasso, um totem da arte da Oceania", explica Émilia Philippot, co-curadora da exposição.  A mostra fica em cartaz no Museu Picasso de Paris até o dia 31 de dezembro de 2022, mas as cartas e cadernos mais íntimos serão trocados em agosto.
15 April 2022

Com exposição "Aqua Mater", Sebastião Salgado lança novo alerta à crise climática em Paris

RFI Brasil
Uma estrutura em bambu se destaca no meio dos arranha-céus de La Défense, o centro financeiro a oeste de Paris. É esta instalação com ares de oca que abriga "Aqua Mater", nova exposição do premiado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que convida o público a uma experiência estética e sensorial em torno de um dos assuntos mais sensíveis à crise climática: os recursos hídricos. “Eu tive muita sorte de ter este espaço, no meio de uma área de concreto, aço e vidro. Um dos lugares mais áridos que eu já vi, e que tem essa flor de bambu no meio. Porque este pavilhão é muito belo”, declarou Sebastião Salgado, em entrevista ao canal francês France Inter. “É um prazer ter as fotos lá dentro, porque tem o formato de uma oca indígena. E dentro dela, as imagens têm outro significado. São imagens da natureza e de um elemento essencial a toda a humanidade”, completa. São mais de 40 fotografias em exibição, a maioria inédita, todas do arquivo pessoal de Sebastião Salgado. Pescadores do Mediterrâneo, crianças da Etiópia, fiéis no Mali. Um cemitério de navios em Bangladesh, o encontro com um jaguar na Amazônia, geleiras da Antártida. Em todas as cenas, a água, ou a falta dela, prendem a atenção do fotógrafo. “Em alguns casos, há água em abundância: cataratas, grandes rios, oceanos. E, em outros, há falta d’água. Algumas imagens me tocam muito. No deserto de Kalahari, tem uma mulher, num lugar onde havia caído uma pequena chuva, e ela suga com um canudo as pequenas gotas dentro de uma planta. Isso me toca o coração”, confessa o fotógrafo, vencedor do Prêmio Imperial do Japão em 2021, considerado o Nobel das Artes.   "A água é um elemento essencial. E nós a estamos perdendo" “É uma exposição militante. Pois a água é um elemento essencial. E nós a estamos perdendo. Estamos perdendo todas as florestas do mundo. E não há nada, além das florestas, que seja capaz de manter a umidade no solo e criar as fontes de água que estamos perdendo numa velocidade enorme”, alerta Salgado. A trilha sonora composta pelo músico francês François-Bernard Mâche, exclusivamente para a exposição, é outra importante contribuição para a experiência do público. O compositor se utiliza de sons da água, da natureza, para criar o ambiente sonoro de "Aqua Mater". "Os raios, o som, a música é muito bonita, bem de acordo, podemos pensar que estamos sob a chuva”, descreve a aposentada Irene Cerquotti durante a visita. “A importância da água, como é explicado na entrada, mais a nossa relação carnal com a água, por meio do som e dessas diferentes formas. Água que bebemos, que nos banhamos, em forma de gelo. É muito sensorial”, ela observa. A concepção do pavilhão transporta o visitante para longe, destaca o fotógrafo Michael Bodot, enquanto observa as obras de Salgado. “Fazemos uma imersão com os efeitos sonoros, temos a impressão de estarmos no meio da selva, com toda a ambientação e as fotos muito fortes. Quase podemos sentir a umidade e a chuva”, diz ele. “Exposições como essa são importantes porque nos fazem lembrar, a nós que temos água quando abrimos a torneira, que há muitas populações obrigadas a andar quilômetros para buscar água no poço. A água é a primeira riqueza que devemos preservar, porque é vital", completa. Já a enfermeira Pascal Drivot enfatiza os contrastes da exposição. “São fotos esplêndidas, com um contraste maravilhoso em preto e branco. E também tem a maneira de apresentar a água. Há fotos em que temos a impressão de que a água é onipresente. Já em outras, como a da mulher que suga água gota a gota com um canudo, demonstra uma necessidade extrema”, compara. Muito mais que uma experiência estética, a exposição é principalmente um chamado à consciência ambiental, alerta Sebastião Salgado. “Para mim, é muito importante que os franceses venham visitar esta exposição para ver como eles são privilegiados por terem água de boa qualidade que chega às suas casas, que sai de suas torneiras, enquanto há outras pessoas retratadas nessa exposição que esperam quase um dia inteiro para ter um pouco de água para beber”, sublinha o mestre das fotos em preto e branco. A exposição "Aqua Mater" fica em cartaz até 22 de setembro 2022 na Esplanada de La Défense, na região parisiense.
01 April 2022

Corpos periféricos protagonizam filmes brasileiros no Festival de Cinema de Toulouse

RFI Brasil
Uma família negra e pobre da periferia de Belo Horizonte protagoniza a narrativa do longa "Marte Um", ocupando espaços de fala raros no cinema nacional. A mesma coisa em "Rio Doce", onde o jovem protagonista, negro e do subúrbio de Olinda, atravessa  a ponte simbólica para os bairros de classe média de Recife, deixando evidente a fratura da desigualdade. O curta "Sideral" desvia o olhar para as periferias nordestinas e a mulher, neste mosaico de corpos periféricos brasileiros do Cinélatino 2022, o Festival de Cinema de Toulouse, no sudoeste da França. Márcia Bechara, enviada especial à Toulouse Os corpos e personagens que franceses e europeus viram na tela grande nas produções brasileiras do Cinélatino em 2022 raramente fizeram parte do imaginário das telenovelas brasileiras ou mesmo de longa-metragens consagrados do cinema nacional. Sem caricaturas e com um olhar atento e legítimo, diretoras e diretores do cinema brasileiro atual mostraram em Toulouse uma miríade de vozes periféricas que protagonizam narrativas, fazem escolhas, reagem a contextos político-sociais e expressam a dor e a delícia de serem o que são. Para o diretor Fellipe Fernandes, que estreou na  competição oficial do festival seu primeiro longa-metragem "Rio Doce", é chegada a hora de abrir alas para novos corpos e paisagens no cinema nacional. "A gente precisa ouvir outras vozes, ouvir e mergulhar em outras histórias, em outros universos e outras paisagens. Para mim a questão da paisagem é essencial... Como é que conhecemos tanto os bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro e só muito recentemente viemos saber o que era Madureira?", questiona o cineasta pernambucano. "Existe uma necessidade e um espaço para que novas paisagens, rostos e palavras sejam inseridas", acredita. Marginalizados Os personagens principais dos filmes brasileiros exibidos este ano no Festival de Cinema de Toulouse são negros, jovens, mulheres, índios, mestiços, homossexuais, essencialmente pobres e periféricos, que passaram a vida às margens da sociedade. Mas que nem por isso deixaram de sonhar e projetar o futuro a partir da complexidade de seus próprios dramas pessoais, geralmente subjugada pela vontade dos invasores (no caso de grileiros de terras indígenas), os patrões ou os governos totalitários. "Desde muito pequeno tenho interesse por contar histórias, via televisão, via novela, que era o que chegava em um primeiro momento, via os filmes que passavam na Globo, e me interessava contar histórias", relembra Fernandes. "Mas, ao mesmo tempo, esse desejo de contar histórias era limitado justamente pela falta de semelhança e reconhecimento da minha realidade naquelas histórias que estavam sendo contadas", explica o diretor pernambucano. Para Fernandes, a questão é também política, como demonstram as políticas públicas que alavancaram o cinema brasileiro num passado recente. "Acho que a gente viveu um momento político que propiciou o surgimento dessas vozes, a gente tinha um foco nas políticas públicas de Cultura para a ascensão de cineastas, produtores e profissionais do audiovisual que até então não tinham tido a chance de produzir com recursos públicos", avalia Fernandes. "Corpos periféricos não interessam o governo atual" O diretor Carlos Segundo, que compete nesta edição do Cinélatino com seu curta-metragem "Sideral", além de exibir o longa "Fendas" na retrospectiva, vai mais longe e acredita que o governo brasileiro atual não tem interesse nas vozes periféricas do cinema nacional. "Acho que filmes que abordam este universo, que se colocam neste lugar dos corpos periféricos, têm de fato alcançado um número de produção muito grande, mas a gente vivencia um momento muito complicado em nosso país enquanto política pública", diz. "Acho que não são os temas, mas quem está nesse momento decidindo se eles devem ou não vir à tela é que é o grande problema. Tem pelo menos uns 4 a 6 anos que a gente vivencia uma destruição do que foi construído a duras penas, num momento em que a gente tem uma pluralidade de corpos sendo apresentados, ou seja, isso não é interessante para esse governo atual", afirma o cineasta. O diretor, selecionado para Cannes no ano passado e com outras passagens pelo Cinélatino de Toulouse, conta que em "Sideral" sobrevoa o universo feminino marginalizado por coerções patriarcais. "O universo que eu abordo, que eu venho descobrindo nos últimos trabalhos, onde estou me arriscando, se formos pensar, também se coloca de uma forma periférica, de subverter essa objetificação [do corpo feminino], a mulher que tem esse olhar vindo de um patriarcado machista, historicamente construído em nosso país", afirma. "Sideral é isso, uma pequena família com pano de fundo de ficção científica onde acontece o lançamento ao espaço sideral de um primeiro foguete tripulado por brasileiros, com a personagem feminina que circula no mesmo lugar histórico onde as mulheres são colocadas, da violência subjetiva e simbólica, num momento de decisão da vida", detalha. Subjetiva indígena Completa a seleção de corpos periféricos brasileiros no Festival de Cinema de Toulouse o belíssimo documentário "A Mãe de todas as lutas", assinado por Susanna Lira, que mistura gerações de famílias indígenas na beira do Rio Doce para contar histórias trágicas e extremas da luta pela terra no Brasil. Uma delas é o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no sul do Pará em 17 de abril de 1996, quando 19 trabalhadores sem-terra que haviam ocupado a Fazenda Macaxeira foram assassinados pela Polícia Militar paraense, com destaque especial, em outro tempo-espaço, para o rompimento criminoso da barragem nas imediações de Mariana, que ameaçou não apenas a sobrevivência do rio, mas a de todas as populações ribeirinhas. A diretora opta por narrar o filme a partir da subjetiva indígena, uma escolha sábia que cria momentos de pura beleza, resistência e sabedoria. O Festival Cinélatino 2022 fica em cartaz em Toulouse até o dia 3 de abril e sete filmes brasileiros concorrem a prêmios na competição oficial.
25 March 2022

Exposição em Portugal traz intimidade de ex-presidentes Lula e Obama

RFI Brasil
A exposição O Poder na Intimidade, em cartaz em Portugal, reúne fotos de quatro ex-presidentes do Brasil, Estados Unidos e Portugal, pelo olhar dos fotógrafos Ricardo Stuckert, Pete Souza e Alfredo Cunha. Caroline Ribeiro, correspondente da RFI em Portugal Era uma noite de lua cheia na praia de Jericoacoara, no litoral cearense. O ex-presidente Lula, de sunga, com as pernas à mostra, abraça a esposa. O retrato é de um momento de descontração e intimidade que, rapidamente, viralizou nas redes sociais. Da noite de luar de 2021 para um quarto de hospital em 1987. O então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, dá um beijinho singelo na primeira-dama, depois que Nancy saiu de uma cirurgia para retirada de um câncer de mama. Ele, de terno e gravata, ela de camisola, na cama, debaixo das cobertas. Essa viagem por períodos tão distintos da história política internacional, através de fotos de momentos íntimos da vida de ex-presidentes, é possível graças à exposição “O Poder na Intimidade”, que estreia em Portugal. A mostra reúne retratos dos ex-presidentes Ronald Reagan e Barack Obama, fotografados por Pete Souza; do ex-presidente Lula, feitos pelo brasileiro Ricardo Stuckert, e do ex-presidente português Mário Soares, fotografado por Alfredo Cunha. O curador da exposição, Paulo Fafe, explica que é uma reunião de trabalhos de três nomes importantes do fotojornalismo político. “Isto é uma exposição que nasceu muito facilmente, de um livro que uma vez vi do Orlando Brito, grande fotógrafo brasileiro, que tem um livro sobre políticos em Brasília. Tive uma ideia de fazer uma exposição sobre o outro lado dos políticos. Juntamos aqui três grandes fotógrafos. Todos começaram no fotojornalismo, uma escola fundamental para a fotografia, e se transformaram em fotógrafos de obras reconhecidas”, diz Fafe à RFI. Anfitrião Na entrada da galeria, há fotos em tamanho gigante de Marcelo Rebelo de Sousa, uma brincadeira simpática que transforma o atual presidente de Portugal no anfitrião da mostra. O percurso começa com Mário Soares, que foi presidente de Portugal de 1986 a 1996. Foi o primeiro cidadão comum eleito para a presidência depois da revolução dos cravos, de 1975, que pôs fim a mais de 40 anos de ditadura em Portugal e instaurou a democracia. Nas fotos de Alfredo Cunha, vemos um presidente simples, que tirava os sapatos na hora do expediente e escondia os pés descalços debaixo da mesa do gabinete, andava perto do povo e falava com todos, mesmo que fosse um surfista molhado em plena areia da praia. Na sala seguinte, Lula aumenta o clima popular. O ex-presidente brasileiro se deixa fotografar por Ricardo Stuckert sempre sorridente, mesmo que seja no gabinete, ou no chão depois do futebol, e suado no meio do povo. A foto emblemática com o menino negro que toca no rosto de Lula durante a inauguração de casas populares em Lauro de Freitas, na Bahia, em 2006, é a preferida do fotógrafo. O percurso segue para os Estados Unidos, com Barack Obama. O fotógrafo Pete Sousa foi um dos responsáveis por aproximar a imagem do primeiro presidente negro do país para todo o mundo. Obama brinca com as filhas e com crianças no Salão Oval, conversa com Vladimir Putin num encontro na França e mostra um ar sério na sala de operações militares em pleno 11 de setembro de 2011. Ainda com Pete Sousa, Ronald Reagan consola famílias de militares mortos num ataque com mísseis do Iraque, durante a guerra contra o Irã. Mas também vê filmes na sala de cinema da Casa Branca com a primeira-dama, comendo pipoca, e cavalga com agilidade em seu rancho na Flórida. Presidentes que marcaram a história “Todos esses presidentes marcaram a história. E mais, foram, qualquer um deles, presidentes com um grande carisma. Eu acho que os grandes políticos se fazem de um coquetel de dois ingredientes fundamentais: carisma e coragem. Qualquer um  desses quatro homens teve muito destas duas coisas”, diz o curador, que ressalta que o carisma não tem relação com o percurso político. “Goste ou não, o Mário Soares foi o pai da democracia de Portugal. O Lula é o Lula. Se eu fosse brasileiro possivelmente não votava no Lula, mas no Brasil os pobres nunca viveram tão bem e os ricos nunca ganharam tanto dinheiro senão com o Lula no poder. O Obama foi o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, acho que não foi um grande presidente, mas foi um marco. E o Reagan foi decisivo na evolução da história mundial, com o final do bloco comunista, decisivo em todo o reordenamento estratégico mundial”: A exposição está em cartaz na galeria do Palácio da Cidadela de Cascais, na região metropolitana de Lisboa, cidade que já se transformou num reduto de brasileiros. A mostra faz parte da programação do Bairro dos Museus, uma iniciativa da prefeitura que integra vários equipamentos culturais. O responsável pela programação, professor Salvato Teles de Menezes, não esconde que os brasileiros são uma parte importante da dinâmica atual do município. “Basta circular nas ruas de Cascais e a sonoridade do português do Brasil vem logo aos ouvidos. No forte de Santo António da Barra, está prevista a instalação de um grande centro de estudo da língua portuguesa e do mar, que vai congregar todos os avatares da língua portuguesa. Naturalmente não se pode deixar de dedicar um espaço privilegiado ao Brasil”, diz o professor à RFI. A exposição “O Poder na Intimidade” fica em cartaz até 24 de abril, mas já há planos para que, ainda este ano, a mostra possa ser vista no Brasil.
11 March 2022

Unesco alerta para riscos da invasão russa ao rico patrimônio cultural da Ucrânia

RFI Brasil
A Ucrânia não é apenas rica em produtos agrícolas e recursos minerais. A história do país tem odisseias envolvendo tribos eslavas, czares e cossacos. Os rastros estão em monumentos que testemunham esses períodos. Mas com a invasão russa, a Unesco teme pela preservação desses tesouros. A Ucrânia possui nada menos que sete sítios inscritos no patrimônio cultural mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, além de outros em lista indicativa da entidade. Temendo pela integridade dessas relíquias, a Unesco lançou um alerta público, pedindo respeito ao direito internacional humanitário, em particular a Convenção da Haia de 1954 para a Proteção de Bens Culturais em Caso de Conflito Armado e seus dois Protocolos (1954 e 1999), para garantir a prevenção de danos ao patrimônio cultural da Ucrânia em todas as suas formas.  “Devemos preservar o patrimônio cultural da Ucrânia, não só como testemunha do passado, mas também como fermento da paz e da coesão pelo futuro”, declarou a diretora geral da Unesco, Audrey Azoulay. A entidade diz que tem estado em contato permanente com instituições culturais e profissionais no país para tentar avaliar a situação e reforçar a proteção dos bens culturais. “Até o momento, as informações que a Unesco conseguiu colher nos permite perceber que o patrimônio cultural do país começa a sofrer danos, como resultado do conflito em curso”, explicou à RFI o diretor do centro do patrimônio mundial da Unesco, Lazare Eloundou Assomo. “Estamos vendo esse conflito se aproximar cada vez mais de Kiev, que é uma cidade inscrita no patrimônio mundial da Unesco - a cidade tem uma catedral magnifica, a catedral de Santa Sofia, além de um conjunto de edificações monásticas e um mosteiro”, relata Assomo. “É o berço da igreja ortodoxa russa; se esse sítio for atingido nos próximos dias, acho que será uma perda para a humanidade inteira, não apenas para o povo ucraniano”, lamenta. Tesouros em risco Além dos dois sítios inscritos na Unesco em Kiev, há um na Crimeia, região anexada à Rússia em 2014. Trata-se de vestígios de uma cidade fundada pelos gregos dóricos no século 5 a.C., na costa norte do mar Negro. Por enquanto não há informações sobre danos no sítio, informa o representante da Unesco. A lista conta ainda com o centro histórico de Lviv, cidade fundada no final da Idade Média, preservada – por enquanto - de forma praticamente intacta. Ainda na lista da Unesco estão o Arco geodésico de Struve, as antigas florestas primarias de faias (que abrange Alemanha, Eslováquia e Ucrânia), a residência dos Metropolitas da Bucovina e Dalmácia, em Chernivtsi, e Tserkvas (igrejas) de madeira da região dos Cárpatos. “Há sítios inscritos na lista indicativa da Ucrânia e que estão previstos para serem incluídos na lista do patrimônio mundial da Unesco, como o centro histórico de Chernihiv, que é muito importante”, relata o diretor do centro do patrimônio mundial da Unesco. “Há também cidades de efervescência criativa, com uma vida cultural vibrante até o início das hostilidades, como é o caso de Kharkiv”, acrescenta Assomo. “Teatros e instalações culturais foram certamente destruídos, a vida cultural desapareceu”, lamenta. “Há museus que fazem parte do circuito cultural que existe em toda a Ucrânia, todos muito ricos em história que também foram atingidos; há pinturas que foram queimadas.”
04 March 2022

Cancelamento de artistas pró-Putin e solidariedade a ucranianos marcam "guerra cultural" na França

RFI Brasil
Se em tempos de paz a cultura atua muitas vezes como moeda diplomática, o famoso soft power, em tempos de guerra seu papel assume tons mais sombrios, como mostram as ações movidas pelos atores culturais na França, após a invasão da Ucrânia. Se a guerra atualmente é híbrida, não há combatentes melhores que os artistas, experts em construir narrativas e convocar emoções. Da Bienal de Veneza ao Carnegie Hall, passando pela Filarmônica de Paris, o mundo ocidental manda seu recado à Rússia. Na França, da Ópera Nacional de Paris ao Festival de Avignon, muitas instituições culturais expressaram seu apoio "ao povo e aos artistas ucranianos" nos últimos dias. Mas artistas ucranianos que vivem na França também estão se mobilizando. É o caso, por exemplo, do famoso Quarteto Elysée, que inclui o violinista ucraniano Andrei Malakhov. Com seu grupo, ele decidiu gravar uma peça do repertório de um jovem compositor ucraniano, conforme contou em entrevista à RFI: "A iniciativa seria gravar um quarteto de cordas composto por o compositor e violonista ucraniano, Ilia Bondarenko, que tem 20 anos e está atualmente sob os bombardeios em Kiev", diz. "É uma música muito poderosa e sombria, e que traz um elemento inédito e precursor - os alarmes antiaéreos em primeiro plano", revela Malakhov. "Primeiro, vamos divulgar um vídeo tocando o quarteto para apoiá-lo, mas também estamos preparando, com músicos ucranianos e franceses e com o apoio da comunidade ucraniana na França, um concerto solidário para ajudar a Ucrânia, será provalemente na subprefeitura do 15° distrito de Paris, no dia 21 de março. E buscamos eventualmente também uma segunda data", declarou o músico. Nesta sexta-feira, 4 de março, a partir das 20h pelo horário da França, os canais de TV e rádio Culturebox e France Culture, que fazem parte do serviço público francês, farão uma vigília de cinco horas de apoio à Ucrânia no Teatro Nacional da Dança, o Palais de Chaillot, em Paris, que será transmitida ao vivo pela internet. Combate às fake news e acolhimento de artistas O cineasta ucraniano Igor Minaiev, 68 anos, que vive em Paris há vários anos, conversou com a RFI sobre sua vida depois da invasão, pontuada por telefonemas para seus amigos em Kiev e Kharkiv. "Todo dia de manhã eu telefono ou escrevo para todo mundo, começo por Kiev, depois Karkhiv e na sequência Odessa, para ficar por dentro de onde eles estão, e sobretudo como passaram a noite, que é o período mais angustiante", relata o diretor. "Tento trocar informações, porque existem muitas fake news circulando, então tento saber ao certo como as coisas estão acontecendo na realidade, se eles têm o que comer, se têm eletricidade, água, aquecimento", diz Minaiev. "Há alguns ucranianos que descem para dormir nos abrigos anti-bombardeios, sobretudo em Kiev. Outros que dizem que não descem mais, dormem no corredor, no banheiro", conta o cineasta. "Também repasso informações que temos aqui no Ocidente. Para eles é um incentivo saber que praticamente todos os veículos de imprensa na França falam deles o tempo todo e que não estão abandonados. Não poderíamos imaginar essa ajuda da Europa e do resto do mundo. Passamos por tantas coisas, e agora, todo mundo está conosco", vibra. Lucie Berelowitsch, diretora do Centro Nacional de Teatro da Normandia, falou sobre o desejo de ajudar os artistas na Ucrânia. "Uma parte dos artistas ucranianos ficou no país e se mobiliza de todas as maneiras possíveis, tomando a palavra e organizando redes de ajuda entre eles. Hoje em dia a questão não é saber que hospitalidade poderemos lhes oferecer, mas como ajudá-los na Ucrânia", sublinha a diretora. "Estamos criando redes de solidariedade com a Polônia e a Romênia para que possamos ajudar de maneira rápida no acolhimento dos artistas. Eles dizem que sentem uma mobilização muito grande por parte da Europa e que isso é muito importante para eles. Eles dizem sentir a necessidade de lutar para continuarem livres, simplesmente", afirma Berelowitsch. Cancelamento Mas não só de solidariedade que a guerra cultural é feita. Na França, o nome Valery Gergiev é o emblema de uma verdadeira ruptura cultural. O maestro russo pró-Putin, ao mesmo tempo diretor geral do prestigioso Teatro Mariinsky em São Petersburgo e até então um dos maestros mais procurados do mundo, foi ostracizado e está enfrentando uma onda de cancelamentos como um sinal de "solidariedade com o povo ucraniano". Depois do Carnegie Hall em Nova Iorque e dos prestigiosos festivais suíços em Verbier e Lucerna, a Filarmônica de Paris cancelou a presença de Gergiev, agendada para 9 e 10 de abril. Na Bienal de Veneza deste ano não foi diferente: a equipe do pavilhão ucraniano cancelou sua participação, ao mesmo tempo em que convocou no Instagram "a comunidade artística internacional a usar toda nossa influência para deter a invasão russa da Ucrânia". Uma mensagem que foi ouvida. Na segunda-feira 28 de fevereiro, a equipe russa em Veneza renunciou à sua participação no evento, anunciando que o pavilhão russo permaneceria fechado na abertura da Bienal em abril, para não servir de justificativa para uma invasão militar. Assista a mensagem das artistas ucranianas do cabaré punk Dakh Daughters:
18 February 2022

Paris: Memorial do Holocausto expõe o inferno dos homossexuais na Europa nazista

RFI Brasil
Surrados, deportados, estuprados coletivamente e cobaias de experimentos nazistas. Degradados até a última instância do regime de Adolf Hitler, os homossexuais e lésbicas conseguiram, no entanto, ao longo do tempo, transformar o triângulo rosa invertido que os identificava nos campos de concentração em símbolo máximo da resistência do movimento LGBTQI+ no mundo. Grande parte dessa história, ou melhor, dessa memória, é contada numa exposição especial em cartaz no Memorial do Holocausto de Paris. A diretora de atividades culturais do Memorial do Holocausto de Paris, Sophie Nagiscarde, lembra que os homossexuais e lésbicas faziam parte do grupo dos chamados "degenerados", perseguidos intensamente pela ideologia nazista. "Já havia alguns anos que queríamos abordar essa temática, sobretudo porque trabalhamos com o Holocausto, que é a nosso principal foco de estudo. Mas entender como e por que chegamos ao Holocausto é também compreender a ideologia nazista", resume Nagiscarde. "No centro da ideologia nazista, os judeus são evidentemente a primeira obsessão racial, em particular de Adolf Hitler, mas existem outras vítimas de primeira hora como os portadores de deficiência e os homossexuais", lembra a diretora.  No entanto, Sophie Nagiscarde sublinha que homossexuais e lésbicas já eram perseguidos muito antes do advento do Nazismo. "Os homossexuais já eram visados pela lei antes da chegada do regime nazista ao poder na Alemanha porque desde 1871 o Código Penal alemão reprimia a homossexualidade através do famoso parágrafo 175", considera.  "Mais foi verdadeiramente durante o período nazista que vimos uma aceleração das perseguições extremamente significativa, perseguições que continuaram depois da guerra, uma vez que esse parágrafo 175 só foi abolido na República Democrática Alemã depois de Maio de 68, e em 1969 no leste da Alemanha", diz. Para a diretora do Memorial do Holocausto, é interessante notar também as reações poderosas ao nazismo demonstradas pelas personalidades da época. "O que achei particularmente interessante foi o surgimento, a partir do fim do século 19, início do século 20, das primeiras associações em defesa dos direitos dos homossexuais que irão, naturalmente, tentar acabar com o parágrafo 175, com a participação de uma personalidade famosa como Magnus Hirschfeld, diretor do Instituto de Sexologia que existia na época em Berlim, mas também através da arte, do espetáculo, conhecemos, por exemplo, toda a militância dos artistas do Cabaré berlinense; havia um aumento da visibilidade homossexual, mas que continuava, é claro, marginal, porque a sociedade continuava hostil em sua maioria", detalha.  Do triângulo rosa invertido dos campos de concentração nazistas ao triângulo rosa do Orgulho Gay, presente em grupos históricos de resistência e luta homossexual, como o Act Up [da luta contra a AIDS nos anos 1980 e pela visibilidade LGBTIQ+], a exposição mostra também a transformação do símbolo nazista em imagem de resistência. "Vimos na Alemanha do pós-guerra que a homossexualidade continuou a ser perseguida, o que significa que se poderia ir para a prisão, mesmo que não se tratasse mais de um campo de concentração. Demoramos enquanto sociedade quase 100 anos para mudar isso", diz Nagiscarde. "Somente nos anos 1960 e 70 conseguimos mudar a lei, sendo que, na França, mesmo se a homossexualidade era descriminalizada desde 1791, mas havia um parágrafo incluído durante o período da Ocupação nazista que aumentava para 21 anos a idade da maioridade sexual entre pessoas do mesmo sexo. As associações francesas lutaram para retirar esse parágrafo da lei, o que finalmente aconteceu em 1982", lembra a diretora. "Me marcou também essa ambiguidade sexual das imagens homoeróticas produzidas por gente como Leni Riefenstahl, e esses grupos masculinos como os da Juventude Hitlerista, e também a presença de homossexuais notórios dentro das tropas nazistas", destaca a programadora. "Acho muito interessante também o fato de que, na ideologia racial ariana, de um povo eleito, ser homossexual ou lésbica não entrava nos planos do regime nazista. O homossexual era considerado degenerado de um ponto de vista médico da raça ariana", aponta. A exposição Homossexuais e Lésbicas na Europa Nazista fica em cartaz no Memorial do Holocausto de Paris até 22 de maio de 2022.
11 February 2022

Carnaval do Rio de Janeiro é tema de exposição na França

RFI Brasil
A cidade de Moulins, no centro da França, acolhe uma exposição dedicada ao carnaval do Rio de Janeiro. O evento, organizado pelo Centro nacional de figurinos de espetáculo (CNCS na sigla em francês), se concentra nas fantasias da festa brasileira e apresenta mais de uma tonelada de peças, que atravessaram o oceano especialmente para a ocasião.   Silvano Mendes, enviado especial a Moulins  Enquanto no Brasil ninguém tem certeza se haverá carnaval este ano por causa da pandemia, em Moulins, a 2h30 de Paris, a festa já começou e vai até 30 de abril. Pelo menos é o caso nos corredores do no Centre National du Costume de Scène (CNCS), um museu instalado em um complexo militar do século 18, que decidiu homenagear a folia de momo em pleno inverno europeu. A instituição acolhe entre duas e três exposições anuais, sempre tendo como fio condutor expressões artísticas nas quais os figurinos têm uma participação importante. O CNCS já organizou mostras sobre as comédias musicais, sobre a presença cênica das grandes divas dos palcos, como Maria Callas e Montserrat Caballé, ou ainda sobre o bailarino e coreografo Rudolf Noureev, cujos arquivos fazem parte da coleção permanente. “Nós estamos em um museu dedicado aos trajes de espetáculo e o carnaval do Rio de Janeiro é o espetáculo mais espetacular do mundo”, resume Delphine Pinasa, diretora do CNCS e uma das comissárias da mostra. A francesa, que trabalhou junto com o professor universitário brasileiro Felipe Ferreira na realização do projeto, se esforçou para apresentar o carnaval carioca de forma didática, com textos que explicam o funcionamento das escolas de samba, os preparativos no Sambódromo, e o papel de personagens como os destaques ou os carnavalescos. A mostra se organiza como uma verdadeira aula para quem, do outro lado do oceano, se encanta com as imagens vindas do Brasil, sem entender muito bem os ritos por trás das plumas e paetês. Os visitantes se surpreendem quando descobrem, por exemplo, que as escolas de samba não são verdadeiras escolas, ou ainda que desfiles no Sambódromo são, na verdade, um concurso. Os trajes expostos foram emprestados pelas próprias escolas de samba, com peças vindas da Salgueiro, da Grande Rio, da Estácio de Sá, ou ainda da Imperatriz Leopoldinense, da Mocidade, da Portela, da Unidos de Padre Miguel e da Viradouro. Alguns destaques também vieram de colecionadores privados, como o francês Alain Taillard, que há anos desfila no Rio de Janeiro, mas também Zezito Ávila e Alexandre Couto. Carnaval de rua, "característico do povo brasileiro" Uma área também é dedicada ao carnaval de rua e aos bate-bolas, prática carioca menos conhecida que os desfiles tradicionais na Marquês de Sapucaí. “Era importante para nós mostrar, na medida do possível, todas as facetas do carnaval do Rio de Janeiro, inclusive esse lado popular, com os blocos”, conta a comissária. “Os desfiles do Sambódromo são muito organizados e estruturados, com datas precisas, um júri e um concurso para o qual as escolas investem o que podem para ganhar. Mas a população também participa do carnaval pulando, cantando e dançando nas ruas do Rio de Janeiro. Esse é um fenômeno popular muito característico do povo brasileiro, que temos bem menos aqui na França”, compara Delphine Pinasa, lembrando que mesmo se os franceses têm os carnavais de Nice ou de Dunkerque, nenhum se compara a espontaneidade do evento brasileiro. Fantasias para todos os gostos Mas a exposição de Moulins vai bem além do lado didático “para francês ver”. Nos corredores do museu o visitante pode apreciar de perto inúmeras fantasias dos destaques de escola de samba, trajes de baianas e esplendores, além de vídeos e fotos que colocam o público em clima de festa. Não é raro ver crianças curiosas, perguntando “quem é essa rainha”, diante de uma porta-bandeira ao lado de seu mestre-sala. Os guias que acompanham os grupos de alunos aproveitam as questões dos pequenos para explicar que o carnaval brasileiro é feito de misturas, com influências que vindas da África e dos povos indígenas, mas também da Europa. Daí os vestidos armados e as coroas que pontuam o percurso, ressaltam. A exposição também aborda, nas entrelinhas, a dimensão social do carnaval brasileiro. “As escolas de samba, que frequentemente ficam em bairros pobres, nas favelas, são também a ocasião de reunir, durante um ano inteiro, uma população carente. Eles cantam, aprendem a letra do samba enredo. Mas esses ensaios também reúnem pessoas que, fora dessas associações que são as escolas de samba, não têm acesso a todos os dispositivos [sociais], como a educação, o trabalho ou até o acesso à própria cidade”, conclui Delphine Pinasa.