
Curioso por Ciência #97: Pesquisa mostra como identificar placas perigosas na carótida pelo ultrassom
Curioso por Ciência - USP
O Curioso por Ciência desta semana traz os resultados de uma pesquisa que analisou placas de gordura na artéria carótida, estruturas silenciosas que podem decidir o destino de um AVC. O estudo investigou como essas placas se comportam no ultrassom e por que algumas são estáveis, enquanto outras têm maior chance de se romper, liberar fragmentos e interromper o fluxo de sangue no cérebro.
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico e o Ataque Isquêmico Transitório (AIT) ocorrem quando o sangue deixa de chegar a partes do cérebro. Uma das causas mais comuns desse bloqueio é o acúmulo de placas nas carótidas, artérias que levam sangue à cabeça. Embora muitas dessas placas convivam quietas por anos, algumas têm um perfil que as torna perigosas, e a diferenciação entre elas ainda não é bem estabelecida nos protocolos clínicos.
Pesquisadores acompanharam 54 pacientes que sofreram AIT ou AVC isquêmico entre 2022 e 2024, examinando 184 placas nas carótidas com ultrassom e correlacionando achados de imagem com dados clínicos, laboratoriais e fatores de risco cardiovascular. A hipótese era simples: se a aparência e o comportamento das placas no ultrassom pudessem indicar vulnerabilidade, seria possível prever quem corre risco de novo evento isquêmico.
Dessas 184, 46 placas foram definidas como definitivamente vulneráveis, ou seja, com maior potencial de desencadear um novo problema. E um aspecto que saltou aos olhos foi a relação entre certas características ecográficas e lesões cerebrais silenciosas no lado afetado pelo AVC. Placas mais escuras no ultrassom (hipoecogênicas), especialmente quando exibiam ulcerações ou presença de trombo, foram as que mais se associaram ao risco aumentado de pequenas lesões cerebrais, indicações de microeventos isquêmicos que passam despercebidos a olho nu.
A partir desses achados, os autores propuseram um protocolo que combina três elementos: características morfológicas da placa no ultrassom, avaliação do fluxo sanguíneo cerebral e perfil de comorbidades cardiovasculares do paciente. A ideia é ir além dos métodos tradicionais, que muitas vezes se baseiam apenas na porcentagem de obstrução, e construir uma avaliação mais ampla e personalizada do risco de novo AVC.
Os resultados sugerem que o ultrassom pode ser uma ferramenta ainda mais valiosa do que se imaginava, não apenas para detectar a presença de placas, mas para compreender seu comportamento e ajudar a prever quem está em maior risco. Com isso, equipes médicas podem melhorar a identificação de pacientes que precisam de intervenções mais agressivas ou monitoramento mais rigoroso, fortalecendo estratégias de prevenção.
A pesquisa Caracterização das Placas do Sistema Carotídeo em Pacientes com Acidente Vascular Cerebral Isquêmico ou Ataque Isquêmico Transitório foi desenvolvida como dissertação de mestrado de Amanda Sanae Esaki, com orientação da professora Millene Rodrigues Camilo, no Programa de Pós-Graduação em Neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, concluída em 2024.