
A Venezuela decretou sete dias de luto nacional após uma operação dos Estados Unidos realizada no fim-de-semana que levou à captura do Presidente Nicolás Maduro e provocou a morte de dezenas de militares. Delcy Rodríguez, que assumiu a presidência interina após a detenção de Maduro, anunciou a nomeação de um ex-director do Banco Central como vice-presidente responsável pela economia, uma das áreas consideradas prioritárias pelo novo Governo. Em paralelo, o Executivo publicou um decreto de estado de emergência que amplia os poderes das autoridades e gerou receios quanto a possíveis restrições à liberdade de expressão. Em entrevista à RFI, Fernando Campos Topa, conselheiro das Comunidades Portuguesas para a área consular em Caracas, afirma que, apesar de uma aparente calma nas ruas, muitos venezuelanos continuam a viver com medo de se expressar, classificando a escolha de Delcy Rodríguez como “um mal necessário”.
Actualmente, em que estado está o país?
Está numa calma aparente, uma calma tensa. As pessoas já voltaram ao seu trabalho desde o dia de ontem. Os comércios já estão a funcionar. É importante ressalvar que, neste momento, as pessoas na Venezuela estão muito condicionadas a um hermetismo muito grande. As pessoas não querem falar. Saiu um decreto, inclusive, para controlar, digamos, a opinião pública, onde, de alguma maneira, vai haver um controlo até sobre as redes sociais. Estar atento ao que a pessoa escreve ou ao que as pessoas publicaram. As pessoas, com certeza, estão muito preocupadas com essa situação e realmente não falam.
Agora, uma situação como esta é inédita. A Venezuela nunca tinha sido bombardeada dessa maneira. O acesso às divisas, aos dólares, também está muito difícil. As pessoas não estavam preparadas para esta situação, ainda que muita gente estivesse à espera que pudesse acontecer alguma coisa. O certo é que as pessoas tiveram agora de sair para comprar, adquirir os bens essenciais, com muita dificuldade.
O país declarou estado de emergência. A presidente interina diz que a economia representa a prioridade desta administração. Considera que Delcy Rodríguez tem condições para se manter à frente do poder na Venezuela?
Bom, eu acredito que, neste momento, era um mal necessário. Vamos lá ver. Nicolás Maduro saiu. Levaram-no. Mas o regime não caiu. Não era um mal necessário no sentido de apoiar o regime, mas no sentido de que, para evitar talvez uma situação de algum confronto nacional, era preciso ter à frente do poder alguém que, de alguma forma, controlasse as Forças Armadas, as milícias armadas, porque realmente havia um perigo sério de poder acontecer alguma situação. Não vou dizer uma guerra civil, mas uma situação de confrontação.
Delcy Rodríguez controla as armas?
Eu não sei até que ponto controla as armas, mas tem, de alguma maneira, o apoio dos militares e, inclusive, ela já fez algumas mexidas no Alto Comando Militar. Eu não sei se o controlo será total e absoluto, mas, pelo menos, tem alguma ascendência sobre a cúpula militar, o que permite que não se apresentem confrontos, porque a sociedade venezuelana continua muito dividida e fracturada. Não podia ser uma situação de “sai para entrar eu”. Ou seja, isso seria catastrófico para o país.
Na ausência do Presidente, a vice-presidente assume o poder, mas depois o país tem de realizar eleições no prazo de 30 dias…
Isso é o que se está a escrever. Eu considero que se deve passar por um processo eleitoral com garantias que permitam realmente que o voto das pessoas seja respeitado. É uma situação em que deve haver uma participação política de todos os actores, incluindo os que estão agora. Tem de haver um processo de cura de feridas, de união do país e com participação política de todos.
Todavia, não se pode ir a umas eleições com o actual Conselho Nacional Eleitoral -CNE. Tem de haver um processo de consenso e de participação internacional que permita que o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela seja realmente apolítico e, a partir disto, que realmente se faça respeitar a opinião dos venezuelanos.
Mas as autoridades que estão no poder actualmente serão capazes de fazer essa transformação ou será feita com a ajuda da comunidade internacional?
Não, isso tem de ser feito com a ajuda da comunidade internacional. Ou seja, se deixarmos isso tudo nas mãos dos actuais responsáveis do país, corremos o sério risco de que as eleições não tenham a expressão que têm de ter e que o voto das pessoas possa não ser respeitado novamente. Nós temos de estar seguros de que realmente as coisas são reais, ou seja, que há realmente uma vontade de o fazer.
A administração de Trump veio exigir que Caracas corte relações com a China, Rússia, Irão e Cuba como condição para poder explorar e vender o petróleo. Relativamente ao petróleo venezuelano, têm sido claras as ambições de Donald Trump. As novas autoridades vão acatar esta exigência?
Acho que o Trump diz umas coisas e depois a gente não sabe se aquilo é só falar e não passa disso. Os EUA têm interesse no petróleo. Mas então e os outros? O que queriam? Ou seja, todos os demais que estavam lá, o que queriam? Não era o bem-estar dos venezuelanos, queriam apenas o petróleo.
Não o choca as declarações de Donald Trump? Não estamos aqui a falar de ingerência…
Com certeza que é uma ingerência. Certamente. Mas vamos lá ver: será que, actualmente, as autoridades venezuelanas podem dizer que anteriormente não havia ingerência? Nós temos 25 anos com uma indústria petrolífera a cair todos estes anos. Realmente, quem levava petróleo e pagava eram os americanos, porque os russos, os chineses, os iranianos… tudo era por convénios de que realmente o povo venezuelano não beneficiava, absolutamente nada disso. A compra de petróleo pelos americanos é importante para a economia da Venezuela.
É o regresso da política de Monroe? Os Estados Unidos já vieram avisar a Colômbia e até Cuba…
Não me parece que esse seja o caminho. Têm de ser os povos a resolver a situação de cada um. Não me parece que essa seja a solução. E mesmo no caso de as pessoas falarem, houve, sem dúvida, uma ingerência de um país. Eu estou claríssimo nisso.
Também não estou de acordo com isso. É preciso ver que a situação ainda não está muito clara. É preciso continuar a negociar, a falar. Tem de haver abertura, tem de haver reconciliação, tem de haver a participação de todos.
Nicolás Maduro foi capturado e levado para os Estados Unidos para ser julgado, acusado de facilitar o narcoterrorismo. Qual será o destino de Nicolás Maduro?
Adivinhar não posso. Não estou a dizer com isto que esteja de acordo com o facto de terem levado Nicolás Maduro. Agora, o que eu acredito é que Nicolás Maduro não vai voltar e, enquanto Trump estiver no poder, menos ainda. Ou seja, eu acredito que Trump agora fez o que fez, bem ou mal, mas agora não pode andar para trás.
Não é que Nicolás Maduro, para a semana, volte à Venezuela, porque isso seria deitar tudo ao chão, como se não tivesse passado nada, e a coisa seria pior. O julgamento vai continuar e será julgado e, lamentavelmente, será detido.
Donald Trump diz que quer combater o tráfico de droga. Porém, o Presidente das Honduras, condenado pelos EUA a 45 anos de prisão, recebeu o perdão do homólogo norte-americano em Dezembro passado. Estamos aqui perante dois pesos e duas medidas?
Com certeza. Tem sido sempre assim. E não são só os americanos. Somos todos nós. Vamos ver: as grandes potências fazem isso. O que é que a Rússia tem feito? Agora critica por um lado, mas então e na Ucrânia? Ou seja, isto é tudo assim.
Neste momento, era mais fácil, para os EUA, “atacarem” a Venezuela?
Foi a solução que eles encontraram. Eles falam muito no hemisfério ocidental e eu penso que o que fizeram foi talvez o mais fácil para eles. No meu entender, não era realmente a solução, porque foi uma solução que trouxe outros problemas.
Mas isso, no fundo, é a geopolítica internacional e são os interesses de cada uma das potências, que falam muito mais alto do que qualquer outra coisa. Ou seja, não há ninguém que possa atirar pedras para o ar quando tem telhados de vidro.