
Valente Cuambe é um dos rostos da investigação em Santa Maria, nos Açores. Natural de Moçambique, chegou à ilha há quase quatro anos, integrado no projecto RAEGE - Rede Atlântica de Estações Geodinâmicas e Espaciais. O astrofísico coordena a investigação em rádio-astronomia e a geodesia espacial, área que mede o movimento das placas tectónicas e fornece sistemas de referência essenciais para tecnologias como o GPS.
A escolha de Santa Maria não foi por acaso: “A ilha tem o privilégio de ter estes equipamentos que acredito serem únicos em Portugal Continental. E eu tenho a sorte de fazer parte do grupo de investigadores que explora esta área da ciência aqui.”
A estação integra uma rede internacional, com antenas espalhadas pela Europa, Estados Unidos, Ásia, Austrália e África do Sul. O objectivo é medir com elevada precisão o afastamento e o movimento das placas tectónicas. “Aqui há uma junção tripla de placas tectónicas. Colocando antenas em diferentes placas, conseguimos estudar o afastamento ou o ajuntamento delas. Usamos uma técnica chamada de linha de base muito longa, que permite correlacionar sinais recebidos por antenas distantes ao observar fontes extragalácticas.”
A informação recolhida é fundamental. “Usamos isto como sistemas de referência. Precisamos de pontos fixos para medir distâncias. É a base do funcionamento do GPS. Nós fornecemos essas referências internacionais para que os sistemas consigam medir correctamente.”
Além da geodesia, a estação em Santa Maria tem vindo a provar o seu valor na rádio-astronomia. A antena de 13 metros mede radiação entre os 12 e os 14 gigahertz e permite observar buracos negros supermassivos e regiões de formação de estrelas. “Recentemente submetemos o nosso primeiro artigo para publicação. Queremos provar à comunidade científica que estes equipamentos também servem para fazer rádio-astronomia olhando para o espaço, para além da geodesia espacial”, salientou.
Questionado sobre um possível regresso a Moçambique, o investigador é claro: “não está em cima da mesa, não só porque Moçambique não tem esse tipo de capacidade, como também os Açores precisam de potenciar a investigação. Santa Maria é privilegiada por contemplar estes equipamentos.”