
“Expectativas sempre altas” e frustrações persistentes marcam os 50 anos de Angola independente, segundo Eugénio Costa Almeida. O investigador luso-angolano aponta a lentidão das mudanças e o uso selectivo do passado, mas destaca uma juventude pós-guerra “mais consciente e crítica”, que pode anunciar novos ciclos de contestação e a necessidade de um governo focado no desenvolvimento social.
Eugénio Costa Almeida, luso-angolano, investigador e professor universitário com uma longa ligação académica a Angola e aos Estudos Africanos, acompanha há décadas a evolução política, social e estratégica do país. Ao observar a Angola de hoje, sublinha que “as expectativas continuam sempre altas”, porque existe, pelo menos ao nível do discurso, a vontade de melhorar as condições de vida da população. O problema, diz, é que “cinquenta anos ficaram muito aquém daquilo que eram as nossas expectativas desde o início”.
Sem ignorar o peso da história, recorda que Angola viveu “problemas políticos muito graves” e uma longa guerra civil, factores que marcaram o Estado e a sociedade. Ainda assim, Eugénio Costa Almeida considera que isso não explica tudo. Nota, por exemplo, que o país “nunca passou por um golpe de Estado”, ao contrário de outros países, o que torna mais evidente a frustração perante o ritmo lento das transformações.
O passado colonial surge no debate político, mas de forma selectiva. “Quando convém, sim, o passado é usado para justificar o presente”, afirma, sublinhando que essa prática não é exclusiva de Angola. “Todos os países fazem isso, mesmo Portugal”, acrescenta, apontando que muitas vezes a população “come e cala”, seja por cansaço, seja por uma memória curta.
Essa lógica, porém, começa a chocar com uma realidade demográfica nova. Mais de metade da população angolana é jovem e já nasceu depois da guerra. “Essa juventude não passou pela guerra civil, é toda pós-2002”, lembra. E isso faz toda a diferença, porque se trata de uma geração que observa o poder com menos reverência e mais espírito crítico.
Questionado sobre o grau de consciência política dessa juventude, Eugénio Costa Almeida é peremptório: “É muito mais consciente, muito mais avançada, muito mais criativa e, acima de tudo, muito mais intelectualizada.” Na sua leitura, Angola ainda não foi plenamente tocada por fenómenos de contestação, mas “não estará muito longe”, à semelhança do que aconteceu noutros países africanos, europeus e asiáticos.
“Não existe um contrato social”, afirma, reconhecendo que pode haver vontades individuais dentro do Estado, mas que o sistema continua marcado pela “predominância do poder”. Essa lógica manifesta-se, inclusive, dentro do próprio partido governante, onde “já se notam sinais de combate político e social”, muito antes das eleições de 2027.
O cenário partidário, aliás, revela contrastes. Enquanto no seio do poder crescem tensões internas, recentes processos na oposição evidenciaram “uma democraticidade que não era muito visível nos partidos políticos nacionais”. Esse factor, acredita, poderá influenciar decisivamente os equilíbrios futuros, sobretudo com a aproximação dos próximos congressos partidários.
As comemorações dos 50 anos da Independência foram vividas com sentimentos ambivalentes. “Não foi com nostalgia do que aconteceu, mas do que queríamos que tivesse acontecido”, confessa. O momento foi marcado mais por “ansiedade futura” do que por celebração, inserido num olhar mais amplo sobre os percursos dos países africanos de língua portuguesa desde as independências.
A memória pessoal do 11 de Novembro permanece viva. “Foi sempre o dia da minha independência”, recorda, evocando a experiência de acompanhar os acontecimentos à distância, pela rádio e pelos jornais, já em Portugal. Uma vivência discreta, mas carregada de significado identitário e político.
Quanto às prioridades para o futuro, “é uma pergunta de um milhão”, admite. Ainda assim, aponta um caminho: “um governo de unidade nacional focado no desenvolvimento social”. Para o investigador luso-angolano, só uma sociedade minimamente desenvolvida pode sustentar uma economia diversificada, uma vida política mais participada e um país menos refém de soluções de curto prazo. O ideal, reconhece, “pode ser um pouco utópico”, mas continua a ser, insiste, “o que faria mais sentido para Angola”.