Festival de Aurillac foi ocupado pela “dança-luta” das revoltas estudantis no Brasil
21 August 2025

Festival de Aurillac foi ocupado pela “dança-luta” das revoltas estudantis no Brasil

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O espectáculo “Quando Quebra Queima”, da companhia brasileira “ColectivA Ocupação”, levou as revoltas estudantis de São Paulo, em 2015, para um liceu francês e para as ruas do Festival Internacional de Teatro de Rua de Aurillac. Palavras de ordem, dança, canto e música mostraram uma “dança-luta”, uma “coreografia de protesto” e um “coro combate” que reactivaram protestos de ontem e ecoaram com revoltas de hoje. A companhia levou “as ruas para dentro da cena e tornou a rua numa cena”, nas palavras da encenadora Martha Kiss Perrone. O público também participou e repetiu slogans numa ocupação colectiva e festiva do espaço público e do teatro.

Tudo começa no pátio de um liceu, na cidade que acolhe o Festival de Teatro de Rua de Aurillac. O público é convidado a ocupar as cadeiras que existem e a distribuírem-se pelo espaço onde vao interagir com os intérpretes. Esses recordam tempos que viveram durante as ocupações estudantis de 2015 em São Paulo, no Brasil, e falam de injustiças sociais de então e que perduram. Os actores-bailarinos-manifestantes mobilizam dança, canto, música, correm, saltam barreiras, exibem fotografias, fazem os espectadores repetir palavras de ordem e incitam-nos a ocupar o espaço político que o teatro também comporta. A peça desenrola-se num liceu, mas acaba invadindo as ruas da cidade, numa grande manifestação colectiva, festiva e poética.

Martha Kiss Perrone, encenadora de “Quando Quebra Queima”, esteve à conversa com a RFI no final da peça.

RFI: Como descreve “Quando Quebra Queima”?

Martha Kiss Perrone, Encenadora de "Quando Quebra Queima” : “A gente desenvolveu algumas novas ideias e vocabulários sobre teatro. Esse espetáculo é uma dança-luta que é uma coreografia de manifestação, que é um coro combate. Então, é um espetáculo onde a gente não representa uma luta, mas a gente é, em si, uma manifestação, uma luta, uma festa. É uma feitura de teatro que desloca o que aconteceu nas ruas para dentro da cena e torna a cena numa rua.”

Há a pretensão de também revolucionar, de certa forma, o teatro?  

“Sim. A ideia da ocupação que, em 2015, aconteceu dentro das escolas, ela também acontece dentro da linguagem. Então, a própria linguagem das artes cénicas, do teatro, da dança e tudo o que envolve as artes performativas também é ocupada e transformada por essa luta.”

Como é que se transforma em dramaturgia essas lutas que habitualmente estão nas ruas?

“Primeiro, a dramaturgia nasce da experiência. Ela nasce dessas pessoas, desses secundaristas que hoje são artistas, e das vivências deles. São atores, performers, dançarinos que são autores da dramaturgia. Ela não está baseada somente na palavra, mas primeiro numa experiência política e depois numa experiência poética que é sobretudo elaborada e criada pelos artistas em cena.”

A peça é co-criada com o público? Há essa intenção de trazer o público para dentro do palco?

“Sim. Num primeiro momento, num processo de criação, ela nasce através das experiências pessoais, biográficas e que são coletivas. Num segundo momento, quando a gente recebe o público, elas são transformadas. Então, não é um espetáculo para o público, mas é um espetáculo com o público. Ele também é convidado a fazer parte dessa manifestação. Tanto é que esta noite a gente pôde ver isso, o público mais do que interagiu, ele também é sujeito da história. Ele também se sente muito livre para se manifestar, para falar, para dançar e também agir.”

Sentiu-se um lado extremamente político e politizado, que contagiou o público. O objectivo também é esse?

“Sim, mas não é só um objetivo, é um estado de vida onde a política é feita de corpo, de subjectividade, de jogo, de conexão com o outro. Então, ela não é uma ideia, mas é uma poética da relação, como diz o Glissant.

Em termos de denúncias e de utopias e poéticas, quais são as principais linhas de força do espectáculo?

“As linhas de força deste espectáculo, eu acho que é uma pergunta que a gente faz no final. A última fala do espectáculo é “o que nós devemos fazer agora”. Então, não é tanto uma resposta, mas uma pergunta.

As linhas de força, sem dúvida, estão na colectividade, no encontro e no entendimento dessa experiência que nasceu na rua e que esta política é feita a partir de uma ideia, de uma política do encantamento, de uma política de festa, de uma política de alteridade, de uma política horizontal, autónoma e, sobretudo, em aliança com a alteridade do outro e o outro e o público.”

Há temáticas que estão muito presentes, por exemplo, a valorização dos corpos negros, a valorização das heranças indígenas… Tudo isso também está muito presente. Também há uma vontade de denunciar tudo aquilo que foi alvo de uma tentativa de silenciamento?

“A gente não costuma usar muito a palavra denunciar, apesar de ela ser muito justa e legítima. É uma manifestação na medida em que as pessoas e as artistas que estão em cena, essas são as ancestralidades delas. Então, também existe um lugar que, ao falar disso, não é falar mais somente de um lugar da dor, da tragédia e do silenciamento, mas um lugar também de vitória.”

Como aconteceu toda a escolha da música, por exemplo, já que tem uma componente muito forte em termos de música, com música brasileira, música francesa, música electrónica. Aliás, em cena, está escrito “Funk não é crime”. Como é que foi essa escolha?

"Tudo é música para nós. Tudo começa com a música. Isso tem a ver sobretudo, com a experiência afro-indígena e diaspórica do Brasil, onde a música é, vamos dizer, a nossa escrita também. É uma forma de viver a música que não nasce como um conceito, mas como uma pulsão de vida. E a música neste espetáculo nasceu como uma necessidade em conjunto. Ela é também uma personagem e nasce não como uma ideia, mas como uma pulsão. Durante a criação, durante os ensaios, essas músicas elas eram o “start” para a gente criar uma cena, muitas vezes ela nasce muito antes da palavra.”

Porque é que escolheu terminar a peça nas ruas aqui no Festival de Teatro de Rua de Aurillac?

“Esse espectáculo teve a sua estreia em 2018 e, desde o início, a gente tinha um entendimento que ele já terminaria na rua, que é o lugar onde ele começou. Então, ao longo desses anos, nós sempre terminamos na rua e muitas vezes nós bloqueamos a rua. Então, a gente estreou no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. A gente apresentou na Avenida Paulista e nós bloqueámos a Paulista. A gente apresentou em Londres e bloqueou uma rua de Londres e hoje em Aurillac é como uma continuação. As ruas mudam, mas a nossa relação sempre é encontrar a origem de onde começou este espetáculo.”

O Festival de Aurillac é de teatro de rua. Tem uma simbologia especial para vocês estarem num festival de teatro de rua que devolve esse lugar ao teatro?

“Sem dúvida. Foi muito importante para a gente a apresentação desta noite porque este espectáculo nós não fazíamos há muito tempo e estar num festival que é de teatro de rua é como retomar a nossa terra, retomar as origens que produziram este espectáculo. E isso está muito presente. O público é completamente diferente de um público de teatro, de sala. A gente sentiu. A gente está muito emocionada porque é um público muito activo, que fala, que se posiciona.

A rua também não é só o espaço público fora, mas a rua é um estado, é um jeito de ser. A gente também trouxe a rua para dentro do espectáculo. Foi muito emocionante. E talvez a gente precise sempre de retomar esse lugar que é a rua.”

E devolvê-la ao teatro?

“E devolvê-la ao teatro. Ocupar a rua e a rua entrar no teatro. Ocupar o teatro.”