Conexões Afro-Lusófonas #11: O racismo no Brasil sob o olhar de intercambistas africanos
04 May 2026

Conexões Afro-Lusófonas #11: O racismo no Brasil sob o olhar de intercambistas africanos

Conexões Afro-Lusófonas

About
Na chegada ao Brasil, os professores Paulo Balaca, João Samoma Fernando e José Bembo Manoel trouxeram consigo conhecimentos prévios sobre a cultura, a educação e o clima brasileiros. Hoje, já integrados ao cotidiano do País, os docentes relatam neste segundo episódio do Conexões Afro-Lusófonas que, embora tenham sido bem recebidos, um dos aspectos que mais os impactou foi se deparar com o racismo estrutural.
Da esquerda para à direita: Paulo Balaca, José Bembo, João Samoma Fernando e Antonio Carlos Quinto. Foto: Julio Cesar Bazanini
“As expectativas eram muitas”, destaca João Samoma Fernando. Professor de Álgebra Linear no Instituto Superior de Educação de Huambo, em Angola, ele está no Brasil há dois anos para o doutorado em Engenharia Naval na Poli-USP. “Fui bem recebido, apesar de notar algumas coisas estranhas, entre elas, o racismo e a discriminação que ocorrem por aqui”, declara. Samoma compartilha experiências marcantes, como situações vividas no transporte público: “Ao subir em um ônibus e sentar ao lado de uma pessoa não negra, ela se levantou. Isso aconteceu comigo mais de uma vez, inclusive no metrô”.
Discriminação racial e social
Para Paulo Balaca, a questão racial no Brasil vem junto do preconceito social. “As pessoas de menor poder aquisitivo são claramente discriminadas”, avalia o pós-doutorando da Poli Mecânica. Com a experiência de ter cursado mestrado em Coimbra, Portugal, Balaca estabelece um comparativo: “Lá, o racismo é mais evidente e declarado. Aqui, mesmo com as dificuldades, aprendemos a nos ‘desviar’ disso. Como estrangeiros e africanos, racionalizamos essas situações e, com o tempo, aprendemos a lidar com a lógica local”.
Na opinião de José Bembo Manoel, que cursa o programa de doutorado na Faculdade de Educação da USP, ressalta que, apesar do racismo, encontrou muitas pessoas de bem no Brasil. No entanto, o convívio diário no campus trouxe estratégias de autoproteção. Os professores aprenderam, por exemplo, que o uso de vestimentas com a identificação da universidade funciona como um “escudo” social. “Usar uma camiseta ou um moletom escrito ‘USP’ faz com que as pessoas nos olhem com um pouco mais de respeito. Seguimos esse conselho”, revela Bembo.
Além dos desafios sociais, os docentes comentaram sobre a adaptação às oscilações meteorológicas da capital paulista. “É sempre bom ter um guarda-chuva às mãos; ainda estamos nos adaptando ao clima da cidade”, finaliza Bembo.

Conexões Afro-Lusófonas
Conexões Afro-Lusófonas têm o objetivo de fortalecer os laços culturais entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa. O programa apresenta entrevistas exclusivas explorando as culturas, músicas, diversidades e políticas desses países, promovendo um intercâmbio de conhecimentos. Conexões Afro-Lusófonas vai ao ar na primeira sexta-feira de cada mês na Rádio USP (93,7 MHz, em São Paulo, e 107,9 MHz, em Ribeirão Preto) Apresentador: Antonio Carlos Quinto Narradora: Tabita Said Participação: Ricardo Alexino Ferreira Edição e captação de áudio: Julio Cesar BazaniniIdentidade Sonora: Bruno Torres Coordenadora de Programas Especiais: Magaly Prado É possível também sintonizar a versão podcast pela internet em jornal.usp.br/podcasts/ Todos os episódios de Conexões Afro-Lusófonas estão disponíveis na página de seu arquivo neste link.