“Mulheres, Literatura e Natureza”, as mulheres na construção de uma sociedade mais sustentável

“Mulheres, Literatura e Natureza”, as mulheres na construção de uma sociedade mais sustentável

RFI Português
00:13:17
Link

Podcast

Ciência
Ciência

About this episode

Decorre esta semana o evento “Mulheres, Literatura e Natureza”, um encontro promovido pela Business as Nature e a editora Exclamação. O colóquio insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e tem como objectivo destacar o papel das mulheres na construção de uma sociedade mais inclusiva e sustentável. 

Decorre esta semana o evento “Mulheres, Literatura e Natureza”, um encontro promovido pela Business as Nature e a editora Exclamação. O colóquio insere-se no Movimento das Mulheres pelo Clima da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e tem como objectivo destacar o papel das mulheres na construção de uma sociedade mais inclusiva e sustentável. 

Susana Viseu, presidente da organização não-governamental Business as Nature, defende que este evento serve para trazer para a linha da frente “a intervenção das mulheres nas diferentes áreas da sociedade e aqui também nas causas de conservação da natureza". 

RFI: “Mulheres, Literatura e Natureza”, que evento é este?

Susana Viseu, presidente da Business as Nature:Este é um evento que vamos realizar no dia 05 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, em Lisboa e, depois, vamos repetir no Porto, no dia 07 de Junho.

Em Lisboa, vamos realizá-lo na Biblioteca do Palácio das Galveias e o objectivo é envolver mulheres que têm diferentes actividades, quer seja na literatura e na importância da literatura e dos movimentos artísticos naquilo que é a conservação da natureza e nas questões do activismo ambiental e climático e, também, as questões do empoderamento feminino e da importância das mulheres na liderança.

Daí, termos um painel em que vai ser lançado um livro de uma mulher indígena, Eva Potiguara, da tribo das Potiguara, mulheres indígenas da Amazónia, que reflecte a luta na autodeterminação da mulher indígena e, portanto, também aquilo que foi a luta deste grupo de activistas na floresta amazónica contra a exploração do petróleo e a sobreexploração da floresta. 

Depois, vamos ter um painel dedicado à Rede das Guardiãs da Natureza, um projecto que a Business as Nature lançou no ano passado, em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas e com o apoio do Fundo Ambiental, e que se desenrolou de norte a sul do país, em várias áreas protegidas. Vamos trazer mulheres-guardiãs de diferentes áreas protegidas em Portugal, desde o litoral norte de Esposende, a Ria Formosa, o Estuário do Sado, o Vale do Guadiana, a Serra da Estrela pelo Brasil, Dunas de São Jacinto e Montesinho. Portanto, umas mulheres vão intervir no evento na região norte e outras vão intervir no evento em Lisboa.

Teremos também um painel ligado à literatura. A literatura como cimento cultural das minorias, em que pretendemos trazer a importância da escrita nesta defesa do património cultural. Neste caso, por exemplo, na região norte, vamos trazer a língua e a cultura mirandesa, mas também a cultura de minorias, como uma advogada de cultura e etnia cigana, como vários representantes de minorias, que também através da manifestação cultural e em especial da literatura, trazem para a praça pública aquilo que são as preocupações e o respeito pelos seus valores culturais. 

Temos também um painel de mulheres na liderança de empresas e dos desafios que estão relacionados com os indicadores de sustentabilidade (Environmental, Social and Governance). Que cada vez mais são uma exigência europeia dos balanços não financeiros por parte das empresas. Vamos também ter um painel de mulheres líderes empresariais para discutir este tema. 

Por fim, vamos ter uma tertúlia, uma conversa descomprometida sobre os desafios das políticas ambientais para a próxima década, trazendo diferentes gerações, diferentes visões sobre aquilo que são as políticas ambientais, para podermos projectar os próximos tempos em termos das questões de ambiente, alterações climáticas, conservação da natureza, etc. 

Terminamos em beleza, com o momento musical, com uma banda relacionada com o Brasil, com as comunidades indígenas e com a possibilidade de visionar o filme “A Flor do Buriti” de João Salaviza, que traz de uma forma muito expressiva e muito sentida daquilo que são as lutas das comunidades indígenas na Amazónia. 

Como é que se chega a este encontro? Mulheres e natureza é uma relação óbvia. Cada vez se fala mais do próprio papel da mulher no combate às alterações climáticas, mas também do facto de ser a mulher e a menina as que mais sofrem com as alterações climáticas. Como é que se junta aqui a questão da literatura?

Desde sempre, até descobertas recentes o concluíram, até nas pinturas rupestres foram as mulheres que primeiro começaram a fazer a representação artística daquilo que eram as caçadas e as vivências do quotidiano na altura do Neolítico.

De facto, as mulheres têm sempre muito presente esta questão da sensibilidade artística, embora tenha sido pouco revelada ao longo da história. 

Sabemos que no século XIX e meados do século XX, muitas vezes, as mulheres escreviam sobre um pseudónimo masculino porque se achava que as mulheres não tinham a capacidade para serem escritoras e para viverem da escrita.

Nós queremos trazer para a linha da frente, cada vez mais, aquilo que é a intervenção das mulheres nas diferentes áreas da sociedade, da economia, das artes, na literatura… Também porque a literatura sempre foi, nos movimentos e nas correntes transformadoras da sociedade, uma forma fundamental de transmitir as ideias, de fazer com que mais movimentos se juntassem em torno dessas causas. E aqui também nas causas da conservação da natureza, da protecção do ambiente. A escrita das mulheres que escrevem sobre a natureza e com a natureza são fundamentais para aumentar a ligação a estas causas.

Quais são os desafios das políticas ambientais para a próxima década? 

Um dos grandes desafios prende-se mesmo com a necessidade de envolver as populações naquilo que são as causas ambientais. E nós estamos a sentir, a nível da Europa, que é o líder, digamos assim, mundial em termos das políticas ambientais, um risco de algum retrocesso dos avanços que foram desenvolvidos, até devido daquilo que são os processos de negacionismo, de subida dos extremismos, seja de extrema-direita, seja de extrema-esquerda, que têm visões muito negacionistas da própria ciência e que podem levar a esses retrocessos.

A mim preocupa-me que o norte global não estabeleça a necessária cooperação multilateral com os países em desenvolvimento, o chamado sul global. Porque sendo estes problemas transnacionais, que não se resolvem só com políticas de um determinado bloco, seja o europeu, sejam outros, é fundamental esta cooperação. Sem ela não conseguimos realmente implementar os avanços necessários para esta transição. E, depois, temos de compreender também as necessidades destes povos, não olhar para as necessidades destes povos à luz daquilo que é a nossa realidade de países desenvolvidos europeus. 

Mas com os óculos deles, não com as nossas lentes. 

É isso, o que às vezes é muito difícil. E é muito difícil nós, às vezes, compreendermos as necessidades dos diferentes grupos e os interesses dos diferentes grupos, que são muitas vezes legítimas.

O desafio é tentar compatibilizar todas estas visões e todos estes interesses, de forma a encontrar soluções que sejam equilibradas, não só para a preservação ambiental, mas também para as pessoas. 

Não podemos esquecer aqui este elemento para as sociedades, para o combate à pobreza, para evitar a exclusão social de mais pessoas neste processo de transição. Portanto, isto para mim é um grande desafio e todas estas temáticas espero que sejam trazidas neste neste painel.

Estamos a menos de meio ano da COP29, que vai ser realizada em Novembro, em Baku, no Azerbaijão. Qual é o ponto da situação? O que é que já está a ser preparado e o que é que se pode esperar desta COP, realizada novamente num país produtor de petróleo? 

Sim, este até bastante mais do que no caso do Dubai, Emirados Árabes Unidos. No Azerbaijão, cerca de 70% do PIB do país é efectivamente baseado no petróleo e gás. 

Acho importante trazer os diferentes interesses, nomeadamente os interesses do petróleo e gás para cima da mesa. Prefiro que eles estejam na mesa a debater de forma aberta os seus interesses e a tentar encontrar compromissos, do que, como no passado, estarem a tentar influenciar por detrás, mas sem qualquer transparência. 

Dissimulados?

Dissimulados. Prefiro que seja transparente, que seja assumido. Que cada um diga ao que vem, que sejam conhecidos os interesses de cada um, até para que depois nós, nas soluções que resultam da negociação, podermos ter uma visão mais clara de como é que se equilibram as diferentes partes.

Neste momento, vão decorrer as reuniões preparatórias da COP29 em Bona, na Alemanha, onde estaremos presentes para participar nestas sessões preparatórias, em especial nas sessões dedicadas à revisão do Plano de Acção de Lima.

Esta COP29 vai ter um foco muito importante nesta questão do nexo Gender and Climate [Género e Clima]. O Plano de Acção de Lima, que foi estabelecido na COP de Lima [COP20, Dezembro de 2014 ]vai ser revisto este ano em Baku e, portanto, os Estados que assumiram o compromisso têm que agora mostrar o que é que fizeram entretanto e como é que vão assumir de uma forma efectiva o envolvimento das mulheres e das meninas na acção climática; como é que vão proteger estes grupos que são, de facto, os mais vulneráveis às alterações climáticas. Portanto, este vai ser um ponto forte no qual nós esperamos que possam haver avanços e que possam haver compromissos mais efectivos por parte dos diferentes Estados.

Espera-se, também, avanços relativamente ao Fundo das Perdas e Danos, e que é importante perceber o que é que tem vindo a ser feito para operacionalizar esse instrumento e também haver mais contribuições para esse fundo, para que ele possa realmente permitir aos Estados que já estão a ser afectados pelas alterações climáticas, ter a devida compensação e as medidas que permitem a adaptação. Esta questão da adaptação é um foco relevante.

Depois estamos a meio caminho para 2030 e nesse sentido, é muito relevante perceber os avanços que podem ser estabelecidos ao nível dos compromissos dos países. Seguramente não iremos conseguir cumprir a meta de 1,5, mas ver se se consegue, pelo menos, atingir compromissos que não excedam o ponto de não retorno naquilo que são as alterações do sistema climático.