
A ilustradora portuguesa Catarina Sobral foi recentemente premiada com o "Purple Island", um dos quatro prémios do Nami Concours 2026, o concurso internacional de livro ilustrado da ilha de Nami, na Coreia do Sul. A distinção reconheceu o seu trabalho no livro "As Pessoas São Esquisitas", escrito por Victor D. O. Santos. Com um percurso marcado por diversas vitórias, incluindo o Prémio Internacional de Ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha, Catarina Sobral é considerado uma das mais premiadas autoras de livros ilustrados em Portugal. Em entrevista, a ilustradora partilha o processo criativo das suas obras e reflecte sobre o universo das crianças e a importância de uma linguagem acessível sem perder a profundidade.
Como é que foi a experiência de receber o prémio "Purple Island" no Nami Concours 2026?
Foi muita boa. Gosto muito deste concurso, porque é muito internacional. Eles convidam-nos sempre para passamos lá uma semana, fazem uma exposição incrível a partir das ilustrações dos livros, com esculturas. É espectacular!
Este festival internacional é dedicado à ilustração e aos livros para crianças. "As Pessoas São Esquisitas", editado em Portugal pela Orfeu Negro, foi o livro distinguido. Como é que foi o processo de ilustração deste livro? E do que é que fala?
O livro é uma espécie de sátira. As esquisitices não são só dos adultos, mas a maioria das esquisitices que o narrador, que é uma criança, são nos adultos, muitas vezes porque não tem o filtro que a nossa socialização nos impõe e que nos faz olhar com naturalidade para algumas coisas que, se virmos bem, na verdade não são muito lógicas.
Mas o livro é também uma ode a ser-se esquisito, a ser diferente e não procurar seguir padrões. O texto foi escrito pelo Vícto [D O Santos ], ele enviou-me por e-mail e pediu-me para fazer a ilustração. Nós trabalhámos juntos no projecto do princípio ao fim, com o designer Daniel Cabral, que também escreve e ilustra. Portanto, somos os três a trabalhar no meio. Depois, propusemos o projecto a várias editoras em Portugal. Em Portugal, quem publicou foi a Orfeu Negro, mas o livro também já foi publicado no Brasil, em inglês -por uma editora canadiana- em francês, no México, em espanhol e vai sair em muitas outras línguas. Estava vendido para iraniano, grego, coreano…
E como de desenrola o processo criativo?
Primeiro, tento procurar a linguagem que melhor espelha aquilo que o texto me inspira. Este é um texto cómico, por isso queria que as personagens tivessem um pouco de humor, mas não queria que fosse exagerado ou caricatural. Não queria que fosse demasiado "querido" também. A personagem principal tem um melhor amigo, que é um cão. E, no final, ficamos sem perceber se quem está a narrar a história é a criança ou o cão. Então, começo por fazer umas primeiras ilustrações. Muitas vezes, já esboço a cores para procurar a linguagem, não só o vocabulário, mas também como são as personagens, os ambientes, a paleta de cores, as perspectivas, o tipo de pincéis que vou usar, a profundidade… Se vou usar camadas ou se vai ser mais plano, quantos planos vou ter… E vou explorando isso até chegar a um resultado.
Chego normalmente a duas ou três ilustrações iniciais e, depois, quando a linguagem está definida, quando acho que já está "ok", começo a fazer as outras. Uma coisa que acrescentei neste livro foram os "easter eggs". Como há coisas esquisitas, o livro também tem detalhes curiosos que os leitores podem descobrir em cada página, como uma banana a sair de uma chaminé ou uma pêra gigante transformada numa escultura. Agora estou a falar de frutas, mas também há uma imagem de um avião em que, através da janela, vemos o King Kong no Chrysler Building. Há muitos pormenores cómicos, coisas que estão fora do sítio, que os leitores têm de investigar, e que não têm nada a ver com o texto. São só esquisitices.
Isso exige ao leitor uma certa atenção...
Exactamente. E depois, o final. A última ilustração não tem texto, É a ilustração que conta a história e nos leva ao significado. A última situação, o que se vai representar na última ilustração, também foi um processo de reflexão, porque tivemos de "partir pedra". Não sei se é um spoiler, mas é importante dizer que o miúdo que narra também é esquisito, e também poderia ser alvo de análise por alguém que olhasse para as coisas esquisitas.
Quando se trabalha para crianças, o processo criativo tende a ser mais exigente?
Eu diria que sim, é mais exigente. Temos de pensar em todas as audiências. Não se trata de criar uma síntese que infantilize o público, mas de permitir que o livro também chegue às crianças, sem perder a profundidade. Um bom livro não é só aquele que as crianças gostam, mas também que os adultos apreciam. E não é porque os adultos não gostam, mas porque há camadas de leitura que os atraem também. O livro tem de ser algo que se pode redescobrir a cada vez que se pega nele. Acho que esse é o desafio. Mas, claro, escrever um romance também pode ser muito exigente, não acho que se deva comparar. Sei que há uma preocupação maior quando se usa uma linguagem para crianças, que quem escreve para adultos não tem de ter. Existem outras preocupações, claro.
A Catarina é uma das autoras portuguesas mais premiadas no campo do livro ilustrado. Em 2014, venceu o Prémio Internacional de Ilustração da Feira do Livro Infantil de Bolonha com o livro "O Meu Avô". Em 2024, venceu o Prémio Nacional de Ilustração pelo livro "Fantasmas, Bananas e Avestruzes" e, como já foi mencionado, já havia recebido prémios em 2007 na Coreia do Sul. Quando se é uma das autoras mais premiadas, sente o peso disso no momento de criar?
Já senti mais. Quando passei a ser jurada de alguns concursos e a assistir mais frequentemente aos debates sobre os critérios de escolha nos júris de prémios, percebi que há critérios objectivos, mas há uma grande parte de subjectividade. A ilustração está muito boa, há imensa gente talentosa, o que torna as escolhas muito subjectivas. Há uma diferença clara entre o que é mau e o que é bom, entre o mediano e o bom, mas dentro do "muito bom" acaba por ser sempre uma escolha mais subjectiva.
Onde vai buscar a inspiração para o seu trabalho?
Normalmente, procuro inspiração em outras obras de arte, não necessariamente na ilustração. A arte, de uma forma geral, inspira-me muito, assim como o dia-a-dia, os desenhos das crianças. Mas as cartas, curiosamente, são o que mais me inspira.
Neste momento, está a desenvolver algum projecto novo?
Sim. Acabei de apresentar um espectáculo de teatro em Lisboa, que inclui ilustrações manipuladas ao vivo, e que foi escrito por mim. E agora, tenho alguns livros novos previstos para este ano, que ainda não comecei a fazer, mas já estão encomendados.
A Catarina também teve um programa de rádio. O universo das crianças é algo que a fascina?
Sim, para mim, escrever ou desenhar para crianças, fazer espectáculos de teatro para crianças ou fazer filmes, tem as mesmas premissas. O que muda é o meio, mas, claro, ao mudar o meio, há coisas processuais e outras que têm de ser tidas em conta. Para mim, a ideia de síntese é muito importante. Escrever ou desenhar a partir das emoções, tentar encontrar uma forma de comunicar com as crianças através de algo que é comum a todos. E esta perspectiva de ser universal, sem infantilizar, de abrir a obra artística o mais possível para que seja desfrutada por várias audiências… ao ser suficientemente aberta e livre, pode ser interpretada de forma mais próxima. Cada pessoa pode identificar-se com aquela experiência ou história à luz da sua própria vivência.