Ômicron abala retomada econômica mundial, mas otimismo com "luz no fim do túnel" permanece
12 January 2022

Ômicron abala retomada econômica mundial, mas otimismo com "luz no fim do túnel" permanece

RFI Brasil

Depois de dois anos de tsunami na economia mundial, um céu nublado paira sobre 2022. O avanço vertiginoso da variante ômicron da Covid-19, já majoritária nos países desenvolvidos e em vias de espalhar pelo hemisfério sul, abala as expectativas de uma retomada robusta neste ano, mas o otimismo quanto à superação da fase mais dramática da pandemia permanece. O cenário de transtornos sob controle ganha força nos países atingidos em cheio pela nova onda, na medida em que o número de casos explodiu e o de hospitalizações, cresceu – mas o de mortes permanece relativamente baixo, na comparação com as variantes anteriores do coronavírus. A maior parte dos atores econômicos se mostra inclinada a acreditar que 2022 será o ano em que o mundo vai finalmente conseguir conviver com a Covid-19 e limitar seus estragos. Foi o que ocorreu na África do Sul, berço da ômicron, uma cepa mais contagiosa, porém menos grave, especialmente em pessoas vacinadas contra a doença. "Tem muitas empresas e investidores que estão apostando numa recuperação, ao aceitar a versão de que a ômicron é a variante que vai levar ao enfraquecimento do vírus. Isso explica por que teve uma valorização de ações de companhias de cruzeiro e aéreas como a Air France, entre outras”, afirma Gabriel Gimenez-Roche, professor de Economia da Neoma Business School, na França. "Os preços das ações refletem as expectativas de ganhos futuros.” FMI prevê rebaixar previsões de crescimento As incertezas permanecem – a Covid-19 ainda pode levar anos para se tornar banal. Em dezembro, o FMI alertou que, devido à ômicron, vai revisar para baixo a sua previsão de crescimento econômico mundial para este ano, de inicialmente 4,9%. A atual onda de contaminações trouxe a volta de restrições de deslocamentos, principalmente nos países europeus, que enfrentam a chegada da variante em pleno inverno. Essa situação tende a se repetir pelo mundo e a gerar problemas como a redução do pessoal nas empresas, frisa André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, de São Paulo. Ele avalia, porém, que fechamentos drásticos como os que ocorreram em 2020 e 2021 não voltarão mais a se repetir. "A ômicron pode criar uma diminuição da força de trabalho significativa ao longo dos próximos meses, que tende a se normalizar a partir de junho. Sim, é um transtorno. Sim, vai ser difícil para todos os países. Mas agora a questão é menos da reação do poder público e mais objetiva, de a pessoa contaminada não poder ir trabalhar por alguns dias”, explica o consultor. Comércio mundial Um foco de preocupações é o comportamento da China, um dos motores da economia mundial e que permanece inflexível na sua estratégia de "zero Covid”. Entretanto, o país tem demonstrado ser capaz de promover fechamentos radicais e temporários apenas nas cidades atingidas por casos, porém sem interromper a atividade no restante do território chinês. "Talvez não vá ter uma acelerada brutal da recuperação, mas ela ocorre. Talvez seja um pouco mais lenta, mas ela está acontecendo”, frisa Gimenez-Roche. "O problema mais é para o outro lado, dos que pedem encomendas dos chineses. É isso que ainda fica mais paralisado, já que os portos fecham, os aeroportos diminuem o fluxo", salienta. Inflação mundial Para o professor da Neoma Business School, a maior ameaça à retomada é a inflação – que, segundo ele, chegou para ficar. "Há uma inflação mundial, na Europa, nos Estados Unidos, onde chegou a um pico de 6% anual. O problema é que quanto mais durar a ameaça do vírus, mais teremos dependência de políticas públicas para sustentar a economia, como as ajudas para certas indústrias, o seguro-desemprego prolongado. Só que isso não se financia sozinho”, destaca. "Tem muito dinheiro dos Bancos Centrais circulando para sustentar tudo isso – e esse dinheiro vai se converter cada vez mais em inflação." Nos países onde a pressão inflacionária já é um problema, como o Brasil, o efeito recessivo se torna devastador para a economia como um todo. André Perfeito observa que, tradicionalmente, anos eleitorais movimentam mais verbas públicas, para a finalização de obras, por exemplo. Mas esses investimentos não bastarão para livrar o país de mais um ano difícil. "A atividade econômica no Brasil vai ser muito próxima de zero neste ano”, sentencia. "O rendimento das pessoas caiu muito com a inflação. Em termos reais, o rendimento médio real habitual do IBGE está no patamar de março de 2012. Esse é o tamanho da desaceleração da renda das pessoas”, comenta o economista.