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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
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18 May 2022

"Deus e o Diabo na Terra do Sol" em Cannes: "Obra de Glauber resiste ao tempo", diz Paloma Rocha

RFI Brasil
“Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, é o único filme brasileiro selecionado este ano para o Festival de Cannes. O longa-metragem será exibido nesta quarta-feira (18), na sessão Cannes Classics, dedicada à preservação do patrimônio cinematográfico mundial.  O longa retorna ao festival quase 60 anos depois de sua primeira exibição, em 1964, quando Cannes e o mundo descobriam o genial diretor baiano e o Cinema Novo brasileiro. Foi a primeira participação de Glauber no festival francês, que iria recompensá-lo com o Fipresci da Crítica Internacional por “Terra em Transe”, em 1967, e com o prêmio de melhor direção por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, em 1969. A versão em 4k será apresentada em Cannes por Paloma Rocha, cineasta e filha de Glauber, e pelo produtor e cineasta Lino Meireles, que participou do projeto de restauração do filme. A ideia de fazer a nova versão foi de Meireles, que queria “trazer para o digital filmes não muito acessíveis de Glauber”. Ele entrou em contato com Paloma, que propôs “Deus e o Diabo”. “Eu sabia que o negativo estava na Cinemateca Brasileira e conversei com o Lino sobre a importâcia de restaurar esse filme dentro do projeto de preservação da obra do Glauber”, diz ela. A restauração contou ainda com a participação de Walter Lima Júnior, assistente de direção do filme, com o fotógrafo Luis Abramo e com o engenheiro de som José Luiz Sasso. “Foi um trabalho minucioso”, conta Paloma Rocha. A nova versão revela detalhes imperceptíveis da cópia em DVD que estava disponível até agora. “Na minha opinião, é uma nova revelação. Eu vi coisas que eu nunca tinha visto ou ouvido no filme”, afirma a filha do diretor baiano, morto em 1981 aos 42 anos. “Nada foi mudado. A gente apenas transformou o negativo original em digital”, indica Meireles. A intenção com o restauro é que as pessoas em Cannes, e depois no resto do mundo, “possam assistir ao filme como ele foi projetado aqui em 1964". O ciclo se renova, diz ele. "'Deus e o Diabo na Terra do Sol’ volta para o mundo", celebra o produtor e cineasta brasiliense. Crítica social Paloma Rocha acha “inexplicável” o filme do pai ser o único longa brasileiro selecionado para o Festival de Cannes este ano. “Nós atravessamos esse processo cultural e econômico que o Brasil está passando nesse momento, e o filme chega pela própria força dele, a própria resistência”, avalia. Glauber Rocha “volta ao seu certame original, que é o certame dos grandes cineastas do mundo", destaca. "Que isso sirva de estímulo ao jovens diretores brasileiros”, espera a cineasta. “Deus e o  Diabo na Terra do Sol” é o primeiro longa da trilogia da Terra, de Glauber, que faz uma crítica social feroz com uma estética própria. Ele conta a história do vaqueiro Manuel que, explorado, abandona a fazenda onde trabalhava para seguir um beato e termina o filme integrando o bando do cangaceiro Corisco.  “A pretensão do Cinema Novo era explicar o Brasil para conscientizar o espectador", recorda Meireles. "O que o Glauber faz no ‘Deus e o Diabo’ é mostrar mitos populares, a visão de um Brasil que busca uma liderença", explica. "Ele refletia o Brasil do passado para fazer o país caminhar para um outro futuro”, estima o produtor. “Todos os filmes tratam da mesma coisa: do mundo rico e do mundo pobre, do colonialismo", acrescenta Paloma Rocha. "No caso, a briga pela terra que está acontecendo até hoje, e também da autocolonização, que é a questão do messianismo, que também está presente no Brasil de hoje", aponta a cineasta. "É uma ideologia muito viva”, destaca a filha de Glauber. “Praticamente, o Brasil de hoje está traduzido neste filme”, conclui.
18 May 2022

Um estupro a cada dez minutos: “Precisamos discutir saúde sexual desde a infância”, defende ativista

RFI Brasil
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública são alarmantes: a cada dez minutos uma menina ou uma mulher foi estuprada no Brasil em 2021. Apesar da recorrência do crime, o silenciamento das vítimas ainda é a regra, resultado de uma cultura machista e patriarcal, explica a gerente de projetos da ONG Plan International Brasil, Elaine Amazonas. Para quebrar este ciclo, a educação sexual e reprodutiva de crianças e adolescentes tem papel fundamental, defende a ativista. Toda mulher brasileira já sentiu ou sente medo de ser estuprada em algum momento de seu cotidiano. A violência sexual é tão normalizada que parte dos abusos levam tempo para serem entendidos como tal ou são silenciados pelo medo do discurso que culpabiliza a vítima. "Ela não poderia estar andando na rua à noite", ou "ela não poderia estar com a roupa curta" fazem parte das frases que muitas vezes reforçam esse discurso. É este ciclo que precisa ser quebrado e, para isso, é preciso ampliar a educação sobre saúde sexual para crianças, aponta Elaine Amazonas. "Nós precisamos discutir saúde sexual e reprodutiva desde a infância. A escola é fundamental nesse processo. As nossas crianças precisam estar prontas para se defender e encontrar os canais de denúncia em caso de abuso", defende. A ativista explica que o ensino de saúde sexual deve ajudar as crianças e adolescentes a compreenderem o que é consentimento e conhecer o seu próprio corpo. "As crianças precisam saber aonde pode ser tocado o seu corpo, que isso precisa ser feito com permissão e os professores são fundamentais nesse processo. Falar sobre educação sexual e reprodutiva não é incentivar crianças e adolescentes a terem relações sexuais. Pelo contrário, é para que eles conheçam seu corpo, saibam o que acontece na sua vida e possam tomar decisões mais assertivas que vão evitar abusos e exploração sexual, e também vai evitar uma gravidez precoce", diz. O tema, no entanto, tem sido cada vez mais silenciado no país, o que só aumenta a vulnerabilidade de crianças e adolescentes. "O Brasil passa hoje por um momento extremamente delicado no que tange as discussões de gênero e de educação reprodutiva", lamenta. Vídeo-choque Para sair desse silêncio que protege agressores, a ONG lançou no dia nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, 18 de maio, um vídeo-choque sobre estupros de jovens. A campanha de pouco mais de um minuto mostra uma adolescente andando na rua e sendo perseguida e atacada por um homem, encenando um estupro como os tantos que acontecem a cada dez minutos no país.  Elaine Amazonas lembra que, ao lado do Ministério Público da Bahia e do Unicef, a ONG trabalha em um projeto de conscientização de profissionais de saúde e professores sobre o tema. Esses profissionais devem soar o alarme dos órgãos competentes quando perceberem sinais de abusos em crianças e adolescentes. Além disso, qualquer pessoa pode fazer uma denúncia anônima pelo Disque100, em um Conselho Tutelar, nas delegacias de proteção à criança e ao adolescente, nos CRAS (Centros de Referências de Assistência Social) ou mesmo nos ministérios públicos.  "Hoje no Brasil talvez não nos faltem canais de denúncia. Mas falta a compreensão de que crianças e adolescentes devem ser protegidos. Não existe isso de 'a menina quis', 'a menina estava se oferecendo'. A vítima nunca é a culpada, ela precisa de acolhimento e do encaminhamento necessário", finaliza a ativista.
17 May 2022

Relato da mídia sobre UPPs reforçou visão binária da segurança pública, analisa pesquisadora

RFI Brasil
A pesquisadora brasileira Camila Cabral Salles, doutora em Ciências da Informação e da Comunicação na universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, dá detalhes sobre a tese que desenvolveu na França a partir das narrativas midiáticas sobre a atuação das UPPs no Rio, as Unidades da Polícia Pacificadora, criadas em 2008. Ela disserta sobre como a representação das UPPs na mídia brasileira evoluiu ao longo do tempo e de que forma ela moldou a opinião brasileira nesse período. "Desenvolvi esse trabalho na minha tese de doutorado, ele se chama 'Segurança para quem, e a que preço?' nas Unidades de Polícia Pacificadora no jornal O Globo, analisando um período de 10 anos", conta a pesquisadora Camila Cabral Salles. "Analisei como o principal jornal do Rio de Janeiro narrou essa política de pacificação implementada nas favelas cariocas que, no início foram apresentadas - tanto midiaticamente quanto pelo governo - como uma política que traria paz e cidadania, e que hoje em dia está em decadência", explica. "O que foi priorizado na minha pesquisa foi uma questão temporal, que eu analisei de 2008 a 2018: como essas UPPs foram apresentadas midiaticamente por esse jornal carioca", detalha Salles. História das UPPs e o desaparecimento de Amarildo "Estas unidades foram muito bem recebidas no início do projeto em 2008, desde seu lançamento, assim que a primeira UPP foi inaugurada na favela Dona Marta, o jornal O Globo anunciou em título 'Dona Marta livre dos bandidos'. Foi uma política recebida midiaticamente com uma grande efervescência, e que de fato mostrou resultados muito positivos, principalmente neste início do projeto, mas que, a partir de 2013, com o desaparecimento do Amarildo na favela da Rocinha, começou a ser questionada", conta. "De fato era uma política que prometia muitos benefícios para os moradores das favelas, e não só o braço policial. Foi a partir do desaparecimento de Amarildo que eu consegui identificar, na minha pesquisa, através dessa narrativa de O Globo, que as UPPs começaram a ser questionadas. As pessoas começaram a se perguntar o que aconteceria a partir dali... Como um morador de uma favela é solicitado a entrar no carro da polícia, é levado à UPP na Rocinha e nunca mais volta para casa?", questiona a pesquisadora. Instrumentalização da questão securitária pela mídia "O que pude observar um pouco nesse estudo é que as narrativas midiáticas reforçam uma certa concepção em relação à segurança pública de uma forma um pouco binária. É o bom versus mal, a polícia versus o bandido, a favela versus o asfalto. Esse tipo de narrativa corrobora esse pensamento que tem um nós versus eu, e que isso serviria para justificar políticas que são opressoras e que servem para um controle social, que colocam certas populações - favelas, negros, indígenas - como sendo inimigos, um 'outro' que não é reconhecido pelo sistema", analisa. *Para assistir à entrevista na íntegra, clique na foto da matéria
16 May 2022

Arte da contestação? Caricatura foi usada para defender Império no Brasil, aponta historiadora

RFI Brasil
Mais do que uma fonte de humor, a caricatura é um testemunho da sociedade. No livro Être Caricaturiste (Ser Caricaturista, em tradução livre), lançado na França pela editora Le Poisson Volant, a historiadora brasileira Aline dell’Orto analisa os desenhos produzidos ao longo do século XIX no Rio de Janeiro. Em entrevista à RFI Brasil, ela explica como a caricatura “usa o riso como arma de crítica social”, mas serve, também, para forjar uma ideia de país. Durante sete anos, a historiadora e professora de história e geografia em Paris analisou revistas dos anos 1840 a 1880. Boa parte desse material ela encontrou no acervo digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. “O interessante é entender que um país não é feito só de instâncias oficiais e de política. A nossa vida cotidiana, uma caricatura que a gente olha no jornal e ri pode ajudar a construir um país e forjar uma nação,” observa. Entretanto, no Brasil, a caricatura teve características particulares, por ter sido incentivada por Dom Pedro II. “Na França, pensamos a caricatura como uma arte necessariamente de contestação e revolucionária. Já no Brasil, esse riso foi usado, também, para defender o Império, no século XIX”, explica. Brasil moderno? As caricaturas são o objeto de estudo e o tema de doutorado em história de Aline dell’Orto na Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais da França (EHESS) em cotutela com a PUC-RJ. “O fruto da minha tese foi pensar que modernidade é essa na qual o Brasil queria se inscrever, como esse país escravocrata e monarquista queria entrar nessa modernidade e como a caricatura participou desse processo”, detalha. O livro se divide em três partes: “La Politique”, “La Rédaction” e “La Rue”, ou seja, a política, a redação e a rua. “O objetivo dessa separação é não só analisar as imagens, mas entender a caricatura como um fenômeno social”, diz a escritora. Se, no início, as caricaturas brasileiras são marcadas pela influência de cartunistas europeus e pouco permeáveis ​​à contestação do sistema político, a análise mostra que elas mudaram ao longo de décadas e se tornaram cada vez mais críticas. “Num primeiro momento, a caricatura não é uma arte de contestação, mas participa de um projeto liderado pelo próprio Império de construção da nação brasileira e de inscrição dessa nação num painel mais amplo de civilização”, diz a autora. “Ela é inspirada da caricatura europeia, mais especificamente da francesa, mas servindo a esse projeto liderado pelo Império e, mais tarde, ela vai servir a questões de reforma da sociedade brasileira”, como a luta abolicionista, a luta republicana e de liberdades civis. Ou seja, “no Brasil, a caricatura surgiu com os artistas que faziam parte da Academia Imperial de Belas Artes. Ela nasce no seio da arte oficial,” conclui a autora.
12 May 2022

“O público tem sido incrível e caloroso”, diz Céu em nova turnê por 12 países da Europa

RFI Brasil
De volta aos palcos internacionais para apresentar seu mais recente álbum, "Um gosto de Sol", a cantora Céu faz show nesta quinta-feira (12) em Paris, uma das etapas mais importantes e aguardadas de sua turnê, a maior de sua carreira no exterior. “O show circunda em torno desse sol do disco, que é meu último lançamento. Mas também trago canções de outros álbuns. É um show bem misturado, com uma roupagem voltada mais para o violão acústico e os arranjos que têm em ‘Um gosto de Sol’, mas com um repertório que passeia por toda a minha obra”, diz a cantora ao chegar à capital francesa. Saudada na França como uma das “mais belas vozes da jovem geração de cantoras brasileiras”, Céu conquistou também a imprensa especializada com o seu sexto álbum. Dessa vez não há músicas inéditas, o trabalho reúne suas interpretações de canções e artistas que moldaram sua formação musical. Estão no repertório clássicos de samba tradicional, como o de Ismael Silva (“Ao romper da Aurora”), mas também a bossa nova de João Gilberto (“Bim Bom”), o rock de Rita Lee e Roberto de Carvalho (“Chega Mais”), e sucessos planetários de Morris Albert (“Feelings”), Sade (“Paradise”), entre outros. Transitando entre diferentes gêneros e países, ela diz revelar uma “nova faceta” para seus fãs, antigos e novos, e promete que "Um gosto de Sol" é apenas o início de uma proposta que terá desdobramentos.   “Vou fazer o capítulo 2, 3 e até mais, pois foram muitos os artistas que me formaram”, brinca a cantora e compositora, que já conquistou três Grammy Latino. Consolidar a carreira no exterior Céu afirma que essa turnê, a mais longa da trajetória artística, com dezenas de países por três continentes, reflete seu desejo de consolidar sua carreira no exterior em um momento que considera ainda complexo, pois as salas de espetáculo estão reabrindo aos poucos depois de um longo período fechadas devido à pandemia da Covid-19. “Foi um momento muito difícil para a classe artística. Poder reafirmar o que eu faço há muitos anos é um privilégio enorme e também um desejo. Para onde me chamarem, eu vou”, diz ela em entrevista à RFI Brasil. Céu também comemora seu reencontro com o público, que tem demonstrado saudades de vê-la nos palcos. Para seu show em Paris, os ingressos foram vendidos rapidamente, o que não tem acontecido com outros artistas.  “O contato com o público tem sido muito incrível, maravilhoso e caloroso. Eu sinto que o propósito de fazer música voltou para seu devido lugar. Quando a gente volta para o palco, entende o propósito e o sentido de tocar, de ver e sentir a energia das pessoas, é isso que importa. A pandemia trouxe esse significado ao máximo”, declarou.
11 May 2022

Cravista brasileira apresenta em Paris composições do imperador D. Pedro I

RFI Brasil
A cravista Rosana Lanzelotte, fundadora do portal Musica Brasilis, traz para Paris o recital "A Música da Independência", com obras de D. Pedro I e de outros musicistas importantes daquele período. O espetáculo será apresentado nesta quinta-feira (12) na Embaixada do Brasil em Paris, como parte das comemorações do bicentenário da Independência, que será festejado em 7 de setembro. Rosana Lanzelotte dividirá a cena com Antonio Interlandi, ator brasileiro radicado há vários anos na França e que interpretará, neste recital, o imperador brasileiro. As peças, exibidas recentemente em um espetáculo semelhante  no Rio de Janeiro, fazem parte do novo projeto do Musica Brasilis, que se propõe a resgatar e digitalizar 5 mil partituras de compositores brasileiros nos próximos três anos. "É muito bom poder nesses 200 anos da Independência valorizar esse aspecto que é desconhecido do nosso imperador", diz Rosana Lanzelotte, em entrevista à RFI. Ele tocava diversos instrumentos, como piano forte, clarinete e outros instrumentos de sopro, além de cantar bem, segundo fontes da época. "D. Pedro I era um bom compositor e colocou o seu talento a favor do Brasil e de Portugal", aponta a cravista.  Em Paris, o público conhecerá as duas obras mais importantes e mais conhecidas do regente português, que são o Hino Constitucional, que ele escreveu no Brasil em 1821, mas que se tornou o hino oficial português de 1834 até 1910, quando é proclamada a República em Portugal. "E o nosso querido Hino da Independência, que é um dos que mais gostamos", diz Lanzelotte. "Eu tenho essa admiração por um homem que tinha uma vida muito intensa, que não foi prolífico como compositor, mas o que ele nos deixou é digno de nossa admiração e desse resgate", acrescenta a cravista. Principais compositores da época Ao lado das criações do imperador, que abdicou ao trono brasileiro em 1831 e retornou para Portugal, serão apresentadas obras de outros autores relevantes daquele período, como José Maurício Nunes Garcia, o mais importante compositor brasileiro do fim do século 18 e início do 19, de Marcos Portugal, organista, maestro, autor de mais de 40 óperas e obras sacras, e também do pianista austríaco Sigismund von Neukomm, professor de D. Pedro I no Rio de Janeiro.  "Todas essas partituras, assim como as de outros compositores em domínio público, fazem parte deste projeto que iniciamos este ano, em que temos a 'missão' de resgatar quase 5 mil partituras de músicos brasileiros", explica Lanzelotte. Esse trabalho de pesquisa, de identificação de manuscritos em acervos e instituições, seja no Brasil ou em Portugal, é fundamental para que a equipe do Musica Brasilis possa transcrevê-los em partituras, digitalizá-las e, em seguida, colocar em acesso gratuito no portal. "Se os músicos não podem tocar, o público não pode conhecer", diz a cravista.  Os manuscritos, inacessíveis por falta de edições, serão editados com patrocínio do Instituto Cultural Vale e apoio financeiro do BNDES, no projeto denominado Acervo Digital de Partituras Brasileiras. Nos próximos três anos, a equipe do Musica Brasilis pretende quadruplicar o atual acervo, de cerca de 1.700 peças de 300 compositores.
10 May 2022

“A Língua Portuguesa é uma filosofia de interpretação do mundo”, diz acadêmico brasileiro em Paris

RFI Brasil
O escritor, poeta e romancista brasileiro Marco Lucchesi esteve em Paris para participar de uma conferência na sede da Unesco que celebrou, em 5 de maio, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Nesta passagem pela capital francesa, Lucchesi veio à RFI falar sobre as belezas e características do nosso idioma, falado por cerca de 280 milhões de pessoas em todo o mundo. O ensaísta e tradutor presidiu a Academia Brasileira de Letras, de 2018 a 2020.   “O português tem uma razão profunda de ser. De um grande império das palavras, que não tem mais um instinto colonial, mas de uma comunidade. As possibilidades de se ver no espelho e de encontrar uma parte de mim que está na África, em Portugal e nas ilhas, tudo isso faz com que a compreensão de uma língua como a nossa seja uma língua de fronteira”, ele explica. “O que significa dizer pátria de poetas, escritores, uma língua que se abre para as diferenças”, completa. Quinto idioma mais falado no mundo, depois do inglês, do mandarim, do hindi e do espanhol, o português é a terceira língua mais falada no hemisfério ocidental e dominante no hemisfério sul do planeta. A expansão de Portugal levou a língua portuguesa para as terras conquistadas. Na era das descobertas marítimas, ao Brasil, à África e para outras partes do mundo. O idioma também influenciou outras línguas. Brasil e Portugal são os dois únicos países cuja língua primária é o português. Mas ele é oficialmente falado em antigas colônias, como Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Também há falantes de português em Macau (China), Timor-Leste, Goa (estado no sudeste da Índia), Malaca (Malásia) e na ilha das Flores (Indonésia). Pai da Língua Portuguesa Se pensamos em autores de referência, ou seja, nomes que serviram de unificadores e que ajudaram no estabelecimento de uma língua nacional, poderíamos citar Shakespeare, para o inglês; Molière, para o francês; Dante, para o italiano e Cervantes, para o espanhol. Já no caso do português, Luiz Vaz de Camões, autor de “Os Lusíadas”, é a referência global. “Obviamente, Camões é o grande pai desta língua. Ele nos deu uma embarcação, um mar falado em língua portuguesa”, afirma Lucchesi. “E o trabalho de Fernando Pessoa foi partir dessa grande metáfora da navegação", analisa. "A língua que se navega, a língua que nos navega, a abertura de uma língua para todos os continentes", recorda. "E que trouxe, não somente produtos, mas a maneira de nomear esses produtos”, completa. Falta de estímulo Apesar de ter grandes autores, a literatura brasileira ou lusófona não é tão conhecida mundialmente e uma das razões apontadas é que o português é uma língua marginal, que não abre espaço para os seus escritores no mercado internacional, especialmente para os contemporâneos. Para o ensaísta, tradutor e editor Marco Lucchesi, isso é resultado da falta de uma política de Estado que incentive a literatura. “Há línguas muito mais complexas do que a Língua Portuguesa e que hoje se colocam no mundo porque existem políticas de Estado fortíssimas que decidem que a literatura é um valor", destaca. "Os valores simbólicos da cultura são essenciais”, enfatiza Lucchesi. “O que falta é um trabalho forte de Estado, intergeracional, em que a literatura ocupe o lugar que merece”, completa. Professor titular de literatura comparada da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lucchesi tem na Língua Portuguesa a sua principal ferramenta de trabalho. “A Língua Portuguesa é um perfume, um condensado, uma forma de compreender, uma filosofia de interpretação do mundo”, diz. Riqueza linguística do Brasil Ainda que o Brasil seja conhecido como o maior país lusófono do mundo, Lucchesi destaca que os brasileiros têm uma riqueza linguística admirável. “De acordo com o IBGE, são 275 línguas. Significa dizer que as políticas de Estado, e não de governo, assim como a consciência dos educadores, foram capazes de reconstruir essas línguas magníficas”, aponta. “Esse resgate da memória vem acontecendo em diversas nações indígenas brasileiras. E quando falamos em nação, nós queremos sublinhar a beleza, a riqueza, a pluridiversidade do nosso país”, explica. Nesse contexto, a imigração teve um papel importante, contribuindo para a riqueza do vocabulário. “A imigração é um fato primordial. O Brasil é um país de etnias, que incluem desde os povos originários, mas todos os que ajudaram a tecer esta grande polifonia. As múltiplas vozes que falam o nosso português”, destaca. “A nossa grande riqueza é a riqueza das línguas praticadas no país”, avalia.  Quanto à recentemente reforma da Língua Portuguesa, que aproximou mais o português do Brasil do português de Portugal, Lucchesi acredita que “todo o esforço de aproximação que não dependa apenas de esforços ortográficos, é importante”. Contudo, o essencial, ele acredita, está naquilo que o idioma guarda de sua essência. “Eu me lembro que o grande Eduardo Lourenço dizia que Portugal e Brasil tinham dois defeitos: Portugal estava preso no labirinto da saudade, e o Brasil é como se não tivesse um pai. Esses dois elementos eram aquilo que deveríamos enfrentar. Portugal abandonar o labirinto e o Brasil reconhecer que teve um pai”, conclui.
10 May 2022

Filme “Todos os Mortos” ajuda a desfazer imagem de “democracia racial” do Brasil no estrangeiro

RFI Brasil
O longa brasileiro “Todos os Mortos” está sendo lançado na França em DVD e nas plataformas digitais. O cineasta Caetano Gotardo, que codirigiu o filme com Marco Dutra, veio a Paris para participar do pré-lançamento do DVD na França. “Todos os mortos” é um filme de época que se passa na virada do século 19 para o século 20, pouco mais de uma década depois da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República no Brasil. O filme conta a história do declínio de uma família da elite cafeeira de São Paulo e, em paralelo, as dificuldades de inserção de ex-escravizados. O longa fala de fantasmas do passado que não param de assombrar a sociedade brasileira. Todas as personagens principais são mulheres. “Todos os mortos” estreou no Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2020, logo depois veio a pandemia de Covid, que dificultou a exibição nos cinemas. “Foi curioso estrear em Berlim com 2.000 espectadores e duas semanas depois fechou tudo. Foi uma experiência muito maluca isso acontecer longo antes da pandemia. Depois, foi difícil repetir essa experiência de exibição presencial do filme”, lembra Caetano Gotardo. Antes da pandemia, o lançamento em DVD e nas plataformas digitais já era uma etapa importante na carreira de um filme. Agora, no contexto atual passou a ser uma estratégia fundamental. “Todas essas maneiras de assistir filme em casa ganharam uma necessária força nesse período todo. Aqui na França, como no mundo inteiro, muitos filmes ficaram sem poder estrear e, agora, as distribuidoras estão encontrando maneiras de o filme chegar ao público”, contextualiza o cineasta. Caetano Gotardo participou no final de maio de uma sessão de exibição de “Todos os Mortos” na Cinemateca de Paris, que antecedeu o lançamento do DVD na França, marcado para 7 de junho. Fantasmas do passado O cineasta explica que o interesse dele e do codiretor Marco Dutra era pensar “como esse momento pós fim da escravidão, de certa maneira, estabeleceu as bases sobre as quais a sociedade brasileira está organizada até hoje; como aquele período histórico conversa diretamente com o período histórico que a gente vive agora”. Gotardo acredita que o filme alimenta uma discussão em curso no Brasil “sobre a falsa democracia racial que por muito tempo se acreditou que existia no país. Isso está caindo por terra, a gente tem um racismo estrutural muito presente na sociedade brasileira”. Mas, no estrangeiro, essa imagem ainda é forte e “Todos os Mortos” poderia contribuir para explicar o Brasil de hoje à plateias internacionais. “Eu percebo que plateias internacionais, como a francesa, tomam contato a partir do filme com essas questões que estão muito vivas no Brasil, mas que internacionalmente ainda não estão tão evidentes assim no olhar estrangeiro sobre o Brasil. A música, que possibilitou a transmissão oral da tradição africana, tem uma presença central em “Todos os Mortos”. A trilha sonora original é de Salloma Salomão, músico e historiador especializado em culturas de diásporas africanas. “A música tem quase uma dramaturgia própria. (...) O filme abre e termina com o mesmo cântico de candomblé”. Na cena final, o filme dá um salto no tempo e passa da São Paulo do início do século 20 para a São Paulo dos dias de hoje. A ideia, segundo Caetano Gotardo, era jogar no filme sensorialmente com esses dois momentos para mostrar “essas duas épocas misturadas, espelhadas”.
06 May 2022

Filme sobre povo Pankararu teve estreia mundial em Paris

RFI Brasil
O filme Rama Pankararu, que teve estreia mundial no último Festival de Cinema Brasileiro de Paris, traz um foco na comunidade indígena do sertão pernambucano, mas propõe um debate mais amplo sobre questões relacionadas a muitos povos originários do país. Rama Pankararu foi produzido pela Copa Filmes e é dirigido por Pedro Sodré, que co-assina o roteiro com Bia Pankararu, protagonista e fio condutor da obra que mistura ficção com a realidade vivida pela comunidade indígena. A escolha do diretor Pedro Sodré pela etnia Pankakaru foi definida após ter visto o documentário “Do São Francisco ao Pinheiros”, assinado pelos seus amigos João Cláudio de Sena e Paula Morgado, antropóloga da USP. “O filme me inspirou e decidi mostrar a etnia Pankararu”, conta Pedro. Depois do lançamento de seu primeiro longa “Rio Mumbai”, o jovem cineasta optou por voltar ao propósito que o fez escolher a sétima arte. “Voltei às origens do que pretendo fazer no cinema, o ‘cinema-verdade”, ou seja, um filme de ficção ancorado na realidade, com pessoais reais e que vivem seus próprios personagens”, contou. A ideia de construir um roteiro com os próprios personagens foi facilitada pelo encontro com Bia Pankararu, indicada para o trabalho de produção, mas que logo passou a ser protagonista do filme e co-roteirista. "Minha função maior foi decidir o que a gente queria falar. Foi como se Pedro trouxesse o esqueleto do filme, e eu recheei com as histórias, com os conflitos, e com a verdade do que acontece no território”, assinala Bia. “Quis que ela também assinasse 100% o roteiro”, afirmou Pedro na entrevista à RFI.   O ponto de partida sugerido por Bia para o filme foi o de contar sua vida de homossexual em uma aldeia indígena. “Foi o início do projeto e de alguma forma nos norteou. Mas isso mudou drasticamente quando no dia 31 de outubro de 2018, logo após o 2° turno das eleições presidenciais, incêndios criminosos atingiram uma escola infantil e um posto de saúde”, lembra Pedro. Os ataques contra os serviços públicos para a comunidade indígena ampliaram o escopo da obra. “Nós percebemos que tínhamos uma ferramenta e uma oportunidade enorme nas mãos. Trazer a minha vida de mulher indígena, sertaneja, mãe, lésbica, profissional de saúde e que está dentro da comunidade, era uma coisa. Mas quando resolvermos trazer a questão dos incêndios, resolvemos falar e dar protagonismo às questões sociais e política para ser protagonista, mais do que a minha própria vida, que vai norteando todos esses assuntos que vivemos no dia a dia”, conta Bia. “Trazer a questão social e política do filme é a nossa maior contribuição em termos de debate”, acrescenta. Diversidade sexual Com uma linguagem que transita entre ficção e documentário, Rama Pankararu aborda diversas temáticas “difíceis”, como diz a própria protagonista, como as injustiças sociais e o desmanche das políticas públicas dos povos indígenas. “Uma pessoa que nasce indígena no Brasil, já nasce na resistência”, ressalta Bia. Mas houve também preocupação de mostrar cenas com as belezas naturais do território, como os cânions e também as riquezas culturais e tradições como a Corrida de Umbu, que celebra a resistência da comunidade Pankararu. O tema da diversidade sexual também é muito presente na obra, com o objetivo de romper um tabu para muitos povos indígenas. “Na prática Pankararu, nossos encantados nos ensinam que o mais importante é o que a gente faz. Se você dentro da sua comunidade faz o bem, é prestativa, pouco importa o que você deixa de fazer e com quem você se relaciona, desde que você seja uma pessoa de coração bom”, afirma a protagonista. “A gente não tinha ideia de céu, inferno e pecado. Isso não é da nossa tradição, da nossa cultura”, justifica. Aprendizado Para o diretor Pedro Sodré, fazer o filme propõe mais do que dar visibilidade para a cultura, tradições e problemáticas de uma comunidade indígena. “Para mim foi um grande aprendizado fazer esse filme. No Brasil, e no mundo também, temos uma visão equivocada do que são os povos originários. Costumamos fazer estereótipos. Antes de fazer o filme, nem tinha ideia de que existem mais de 300 povos indígenas no Brasil”, revela. “Eu gosto de fazer filmes, descobrindo-os, como se eu fosse o primeiro espectador. Para mim foi e continua sendo um processo de aprendizado do meu próprio país”.     Rodado com poucos recursos e contando com a dedicação e colaboração da própria comunidade, Rama Pankararu teve estreia mundial em Paris e deve ser apresentado em muitos festivais internacionais até estrear no Brasil, em data ainda não definida. “O filme é um grande dedo numa ferida exposta. Um grande convite ao debate. Esperamos estreá-lo no Brasil, mas também espero que esteja logo nas salas de cinema e ganhe o mundo”, diz Bia, esperançosa.
05 May 2022

Cantora brasileira Lívia Nestrovski e Filarmônica portuguesa celebram lusofonias em Paris

RFI Brasil
"Temos que voltar a sonhar o Brasil", reflete a cantora Lívia Nestrovski, considerada por Arrigo Barnabé "uma das maiores vozes de sua geração". A intérprete brasileira se apresenta junto com a Orquestra Filarmônica Portuguesa numa peça especialmente criada para ela pelo maestro Luís Tinoco. Ela está em Paris para um concerto especial na sede da Unesco, celebrando nesta quinta-feira (5) o Dia Mundial da Língua Portuguesa.  "Acabo pensando muito sobre a questão da lusofonia por ser cantora, e por lidar com a nossa língua, com uma vertente particular dela, [entre suas] várias vertentes. No Brasil, só a quantidade de sotaques e misturas que você tem, de termos, de formas de dizer, de dialetos, é uma coisa absolutamente diversificada e rica", diz a cantora Lívia Nestrovski, que volta a Paris depois de quase sete anos para a apresentação especial na sede da Unesco. "Quando a gente lida com canção popular, que é o meu caso, por exemplo, canto coco de embolada no show, com milhões de trava-línguas e brincadeiras. Aí você junta com um compositor como Elomar, que é um trovador do sertão brasileiro, com uma linguagem específica, e depois vai disso para um Luiz Tatit, que é o completo oposto, um coloquialismo super urbano... Enfim, só pensando no Brasil, em termos de canção popular, você já tem vertentes e mais vertentes e formas de usar", avalia a intérprete. "Canções de Trabalho" Sobre o convite feito pelo maestro Luís Tinoco para que ela estreasse a peça "Canções de Trabalho", a partir de melodias tradicionais de Portugal e Cabo Verde, Lívia diz que foi "espetacular, a maior honra da vida de um instrumentista, ter uma peça escrita especialmente para ele". "Ele recebeu uma encomenda da orquestra Filarmônica Portuguesa para esse evento da Unesco", conta a cantora, explicando que o compositor trabalhou em cima de canções de trabalho, naturalmente populares. "O maestro Oswaldo Ferreira embarcou também na ideia de me chamar".  "É preciso voltar a sonhar o Brasil" A cantora, que possui uma trajetória heterogênea, participou com o parceiro e guitarrista Fred Ferreira de diversos festivais pelo mundo inteiro e é bacharel em Música Popular pela Unicamp e mestre em Musicologia pela UniRio. "Vivemos uma fase de artistas muito múltiplos. A gente precisa ser múltiplo, porque o mundo também está disperso, e eu adoro essa multiplicidade, cantar muitas coisas diferentes entre si. Eu acho que isso traz muita bagagem. Tem um pouco daquela coisa do artista ir onde o povo está. Mas, mais do isso, acho que eu vou onde a música me transporta, me chama", diz. "Outra dia recebi uma mensagem tão bonita de um doutorando, que me convidava a gravar um poema de Mário de Andrade. Para ele fazia sentido porque achava que eu tinha uma similaridade [com o escritor] nessa coisa múltipla, de explorar o Brasil, o Brasil profundo, de trazer referências, de misturar, de ter uma visão um pouco sonhadora do que o Brasil pode ser", afirma Nestrovski.  "Não chego nem aos pés do que o Mário de Andrade representa e representou, mas é uma figura que eu amo, e também uma figura muito múltipla, que era uma pessoa que articulava, estava à frente de projetos, fundou bibliotecas, quarteto de cordas, e resgatou tanta coisa que se ele não tivesse gravado a gente não teria hoje no Brasil, arquivos importantíssimos da música... Diverso, profundo, incrível, e sonhando com o Brasil, como esses modernistas sonharam. Não é à toa que esse celebramos tanto esse ano essas figuras, porque é preciso voltar a sonhar com o Brasil e se entender nesse lugar tão diverso que o Brasil é", afirma a intérprete. *Para assistir a entrevista na íntegra, clique na foto acima