Pesquisa mostra impacto da “ansiedade climática” nos jovens, que culpam governos por "traição"
14 September 2021

Pesquisa mostra impacto da “ansiedade climática” nos jovens, que culpam governos por "traição"

RFI Brasil

Um estudo promovido por pesquisadores britânicos em 10 países revelou o peso psicológico da degradação ambiental em adolescentes e jovens. A pesquisa ouviu 10 mil pessoas, inclusive no Brasil, e apontou o quanto a falta de ação dos governos para enfrentar a crise climática acentua o sentimento de ansiedade e preocupação nas novas gerações. O estudo se apresenta como o maior já realizado sobre o tema e será publicado na revista científica Lancet Planetary Health, por pesquisadores da universidade de Bath, do Centro de Inovação em Medicina Stanford, a Fundação Saúde NHS de Oxford, entre outros. "A ansiedade climática não é uma doença mental. É uma resposta racional ao estresse psicológico da realidade das mudanças climáticas, e um tal nível de estresse pode provavelmente acabar impactando na saúde mental”, explica a psicóloga Elizabeth Marks, uma das autoras principais da pesquisa. "Quando perguntamos para eles como eles pensam o futuro das mudanças climáticas, eles descrevem um mundo cheio de oportunidades perdidas, assustador e inseguro.” "Por que viver num mundo que não se importa com as crianças?” Foram ouvidas pessoas de 16 a 25 anos, nos seguintes países: Reino Unido, Finlândia, França, Portugal, Estados Unidos, Austrália, Índia, Filipinas, Nigéria e Brasil. A pesquisa constatou que o sofrimento psicológico causado pela crise climática está “significantemente relacionado” com a falta de ação dos governos – ou seja, a angústia das crianças e jovens aumenta na medida em que os países se recusam a tomar medidas mais ambiciosas para conter o aquecimento do planeta. No total, 58% dos entrevistados disseram ter a sensação de estarem sendo “traídos" pelos seus governos e 61% acham que os governantes não estão protegendo a atual juventude, o planeta e as futuras gerações. Os que vivem nos países do sul, como Brasil e Filipinas, se mostram ainda mais angustiados com o problema. “Nós não sabíamos o quanto eles estão apavorados. Uma criança disse para mim: eu estou com medo de respirar o ar fora da minha casa. Quando iniciamos a pesquisa, sabíamos que a vida cotidiana deles estava sendo afetada por isso, mas não sabíamos o quanto estava abalando a alimentação, o sono, o estudo e as brincadeiras”, afirma a psicoterapeuta Caroline Hickman, a segunda autora principal. "E o que não sabíamos é o quanto esses sentimentos estão correlacionados com a ação ou a inação dos governos. Um adolescente britânico me disse: por que eu deveria querer viver num mundo que não se importa com as crianças, nem os animais?" Jovens sem planos de ter filhos Concretamente, o que a comunidade internacional espera atenuar hoje são as consequências dramáticas no clima previstas pelos cientistas para até o fim deste século. É por isso que um dos efeitos mais práticos desta angústia é o abandono dos planos de ter filhos. A brasiliense Valentina Ruas, de 18 anos, é uma dessas jovens que, a princípio, abrirá mão da maternidade. “Eu já não penso em ter filhos. É claro que o futuro é muito incerto, mas toda a vez que eu vejo notícias, artigos, eu penso que não quero pôr uma pessoa no mundo se eu não sei quão incerto esse futuro será. Se já é incerto para mim, imagina para as próximas gerações”, indica a jovem. O estudo concluiu que quase a metade dos entrevistados, 45%, afirmou que os pensamentos negativos em relação às mudanças climáticas afetam o seu cotidiano e 59% se disseram “muito" ou “extremamente" preocupados com a questão. A chamada “ansiedade climática” inclui sentimentos como medo, raiva, rancor, culpa e vergonha, mas também esperança. Valentina tem preferido olhar o problema sob esta perspectiva – e por isso decidiu agir, se engajando no movimento internacional Fridays for Future, fundado por jovens como a sueca Greta Thumberg. "Quando você se junta a um movimento e vê pessoas do seu lado trabalhando para que aquilo não aconteça, é uma coisa que te anima no sentido de dar uma esperança. Ajuda. É muito difícil pensar em algo concreto porque é muito incerto”, insiste. "A gente sabe que se nada for feito contra a crise climática, vai ser muito ruim, mas o quanto será ruim, eu de fato não sei. Então eu tento canalizar esse pensamento para fazer algo que evite esse cenário.” O estudo é lançado a menos de dois meses da próxima Conferência do Clima da ONU, a COP26, que acontecerá em novembro em Glasgow, na Escócia. O evento, que estava previsto para ser realizado em 2020, foi adiado devido à crise sanitária.