Meio Ambiente

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Entrevistas sobre todos os temas relacionados ao meio ambiente. Análises sobre os principais desafios no combate ao aquecimento global, à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.
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12 May 2022

Conferência da ONU busca soluções para degradação dos solos, que já atinge 40% do planeta

RFI Brasil
No continente mais afetado do mundo pela desertificação dos solos, uma cúpula internacional tenta encontrar alternativas para evitar que o fenômeno não se espalhe ainda mais – não só na África, como em todo o planeta. A conferência da ONU sobre o tema acontece na Costa do Marfim durante duas semanas. Participantes de 197 países se reúnem para discutir soluções para o problema, que já atinge mais de 40% das superfícies do globo. Se nada for feito, o que já é ruim vai ficar pior: com menos terras produtivas disponíveis, cresce a tensão para o aumento da produção alimentar nas áreas cultiváveis, levando a uma degradação de novas regiões. Em 2050, ela poderia atingir uma área equivalente a toda a América do Sul, com impacto não só na segurança alimentar e hídrica, mas também nas mudanças do clima e na biodiversidade. "Sessenta e cinco por centro das terras cultiváveis na África foram perdidas nos últimos 70 anos. Neste período, a população africana cresceu pelo menos 600%”, disse o secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas pela Luta contra a Desertificação, Ibrahim Thiaw, em entrevista à RFI. "Ou seja, enfrentamos uma situação em que, embora o continente não seja superpopuloso, a exploração dos recursos naturais se tornou insustentável.” Causas naturais e humanas Com extensas áreas secas e áridas, a África é ainda mais vulnerável ao impacto do aquecimento do planeta, já que as condições climáticas acentuam a desertificação, observa Patrice Burger, membro do painel de especialistas das Nações Unidas sobre o fenômeno e fundador da organização Cari, que atua no continente.  “Costumamos dizer que a degradação dos solos é causada por causas naturais, como a seca, mas também pelo aumento das temperaturas e outros fenômenos que até parecem paradoxais, como quando ocorre uma chuva abundante sobre a terra seca. É nesse momento que ocorrem tremendas erosões sob o solo”, explica Burger, ao programa C'est Pas du Vent, da RFI. "O problema da erosão é que quando a água vem, ela só escorre e evapora neste solo. A água não entra mais nesta terra degradada e o solo não pode mais ter o seu papel de esponja, fazendo com que a desertificação se amplifique.” A atuação humana, porém, também é altamente responsável pela degradação dos solos, a exemplo das queimadas e do abuso de agrotóxicos no Brasil. “As causas humanas são as más práticas agrícolas, deixar o solo descoberto, revirar o solo em grandes profundidades, reduzir a biodiversidade viva no solo, o que inclui usar produtos químicos que matam a vida do solo. A base de um solo, para que ele funcione e faça circular o ar e a água, é ter micro-organismos vivos”, ressalta o especialista. Recuperação e conservação As soluções existem, mas demandam mudanças profundas de práticas e investimentos. Ibrahim Thiaw destaca o exemplo da Grande Muralha Verde do Sahel, projeto faraônico iniciado em 2007 em onze países africanos, para tentar restaurar 100 milhões de hectares de terras.  “É um programa extremamente ambicioso, que está em curso, com a promessa de financiamento de alguns parceiros que chega a US$ 19 bilhões, nos próximos cinco anos. Os países da África Austral querem fazer o mesmo e estão organizando um programa similar”, salienta. "E o norte da África poderia fazer parte da grande iniciativa do Oriente Médio, lançada pela Arábia Saudita e que poderia ir até o Magreb africano”, complementa o secretário-executivo da UNCCD.  Além de restaurar as áreas degradadas, outro aspecto importante das discussões na COP da Desertificação é avançar na criação de extensas áreas protegidas. O objetivo seria chegar a um total de 4 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente aos territórios da Índia e do Paquistão. 
05 May 2022

Estudo aponta risco para Cerrado e Pantanal com adoção pela UE de definição de florestas da FAO

RFI Brasil
Estudo lançado na terça-feira (3) pelo MapBiomas - uma rede de ONGs, universidades e start-ups que estuda a transformação ambiental no território brasileiro - faz um alerta sobre a possível adoção pela União Europeia (EU) da definição de florestas usada pela FAO, a Agência da ONU para a Agricultura, para evitar a importação de produtos que causam desmatamento. Caso esse conceito seja adotado, 3 milhões de quilômetros quadrados de vegetação nativa ficariam desprotegidos. Ambientalistas temem que essa área equivalente a mais de cinco vezes o tamanho da França seja alvo de desmatamento para agricultura e pecuária. “O estudo avaliou o quanto de ecossistemas da América do Sul ficariam protegidos com o escopo da lei europeia, que é a definição de floresta da FAO,” explica Jean-François Timmers, da WWF Brasil, co-autor do estudo.  De acordo com a definição da agência, uma floresta é um terreno cujo índice de densidade da cobertura arbórea é superior a 10 % e que tem superfície maior que 0,5 hectares. As árvores devem atingir uma altura mínima de 5 metros quando maduras. "Mas há muitos ecossistemas que não estão dentro dessa categoria e que têm um amplo valor biológico e também são muito ameaçados pela expansão da agricultura e da produção de commodities”, alerta. O especialista mostra que nem sempre é possível pensar em “classificações fechadas”, quando falamos da natureza, pois “há muitos ambientes intermediários”. Em geral, “você tem transições entre os diversos ecossistemas que dificultam esse limite do que é floresta ou não”, diz Timmers. “Outra coisa importante, é que esses ecossistemas dependem um do outro. Não há um valor maior para um ecossistema porque ele tem árvores maiores, já que você pode ter um ecossistema baixo, mas com uma grande riqueza de plantas, como orquídeas e plantas endêmicas, além de fauna endêmica”, acrescenta. É o caso do pantanal, um patrimônio da Humanidade, lar de jacarés, onças e jaburus, que tem apenas 24% de sua área coberta por florestas que atendem à definição da FAO. O assunto ganha relevância diante do desafio climático e de uma crise sem precedentes de extinção de espécies. Evitar a expansão do desmatamento sobre os ecossistemas restantes no planeta deveria ser uma prioridade. Iniciativa da EU é um primeiro passo Ainda que a iniciativa europeia seja um avanço para evitar a entrada no bloco de produtos oriundos do desmatamento, os esforços ainda não são suficientes, explica Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas. “Nesse estudo, nós pegamos os sete principais biomas da América do Sul, Amazônia, Cerrado, Chaco, Pantanal, Pampa, Mata Atlântica e Caatinga e, para cada um deles, aplicamos qual seria a área protegida do bioma, para que não houvesse desmatamento, ou os produtos não entrariam na Europa”, explica. “E vimos que cerca de 30% desses sete principais biomas não seriam protegidas. Ou seja, se houvesse desmatamento nessa área que não entra na definição da FAO, não haveria problema para os produtos entrarem na Europa. Essa é a questão central”, alerta. De acordo com Tasso Azevedo, 16% da Amazônia ficaria de fora das ações de proteção; 25% do Chaco, 70% do Pampa, do Pantanal e do Cerrado. Já no caso da Caatinga, mais de 90% não teriam qualquer proteção. A solução, explicam os ambientalistas, seria considerar todos os ecossistemas naturais remanescentes e que já são bem mapeados. “Muitas vezes, quando se fala do Brasil no exterior se pensa na Amazônia. E ela é realmente um grande desafio global de conservação. Mas você tem o Cerrado, o Pampa, o Pantanal e a Caatinga que são ecossistemas muito valiosos e que não estão no radar”, reforça Jean-François Timmers. Expandir a agricultura sem desmatar Além das florestas, esses outros biomas, incluindo campos naturais e as savanas, também estocam muito carbono. Porém, diferentemente das florestas, o acúmulo de carbono se dá abaixo da terra. Para um dos autores do estudo, o desafio atual é inspirar o setor econômico a ter um compromisso com a eliminação do desmatamento nas cadeias produtivas. “Até hoje, não existe na Europa uma restrição legal sobre a importação de produtos oriundos de desmatamento. A legislação europeia em discussão introduz uma inovação muito importante de você criar uma demanda de mercado para fazer expansão agrícola sem desmatar”, explica Timmers. “E existe possibilidade para isso. No Cerrado, uma terra apta a expansão de soja, dá para duplicar ou triplicar a produção sem cortar uma árvore”, destaca. A legislação proposta pela EU, ele explica, “cria um precedente para que o sistema alimentar global, aos poucos, possa se tornar sustentável, se diversificar e ser eficiente sem destruir os ecossistemas que sobraram”. No entanto, se não houver uma adaptação das normas, o risco é de haver ainda mais pressão sobre os biomas que não estão contemplados na lei.
27 April 2022

"Planificação ecológica" anunciada por Macron é oportunidade inédita, mas suscita ceticismo

RFI Brasil
Cobrado pelas propostas ambientais fracas para o seu segundo mandato, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou já no discurso de vitória, no domingo (24), que quer transformar a França em uma “nação ecológica”. Mas depois de muitas promessas e poucos atos, especialistas demonstram ceticismo. Lúcia Müzell, da RFI No plano político, o país sai desta eleição fraturado, inclusive sobre a importância da ecologia. Operários e agricultores, que votaram em massa na candidata da extrema direita Marine Le Pen, têm dificuldade em aceitar os sacrifícios que a transição ecológica exige e não se sentem representados por Macron. Dessa ruptura, decorre um primeiro grande desafio: convencer o conjunto da população sobre a importância do problema. "Acho que, intelectualmente, Macron percebeu o fenômeno da crise climática. Mas eu penso que também continua preso à sua socialização política: é um político que foi criado sob o imaginário do máximo de crescimento, do pleno emprego, do poder aquisitivo etc. É alguém persuadido dos benefícios da economia liberal de mercado e tem dificuldades de conciliar os transtornos da ecologia com a ideia de que é preciso limitar, de fato, o desenvolvimento no modelo neoliberal para poder responder aos desafios ambientais”, observa Bruno Villalba, pesquisador da AgroParisTech e autor de “A Ecologia Política na França”. Primeiro-ministro à frente do planejamento ambiental Às vésperas do segundo turno e preocupado em conquistar o voto da esquerda, o candidato Macron tomou para si uma proposta do seu concorrente Jean-Luc Mélenchon, de esquerda radical: designar um primeiro-ministro encarregado da “planificação ecológica” do país. A ideia é que os temas ambientais estejam no coração do desenvolvimento, de maneira transversal entre os ministérios. "Isso pode resolver um problema que sempre existiu: a ecologia não pode ser um setor do governo, mas sim deve atingir todas as áreas de um governo. Um primeiro-ministro encarregado desse planejamento poderia ser a solução, mas ainda não temos mais detalhes sobre as definições dessa função”, explica o cientista político Daniel Boy, também especialista em ecologia política, na Sciences Po de Paris. "Por exemplo, não temos a menor ideia do que vai acontecer com o ministério da Ecologia. Ele vai desaparecer ou continuar? E se sim, como seria a divisão de funções entre o ministro e o primeiro-ministro?”, questiona. Daniel Boy avalia que só será possível ter mais clareza sobre as verdadeiras intenções do presidente quando for detalhado o projeto para a França chegar ao objetivo que está sobre a mesa: atingir a neutralidade de emissões de carbono até 2050. "Para chegar a essa meta, ainda não sabemos nada sobre o que será feito. A única coisa que podemos fazer é acreditar ou não numa promessa. É uma questão de fé”, salienta. "Crescimento verde" Com a plano de ampliação das energias renováveis, incluindo 50 parques de eólicas offshore, a construção de seis novas centrais nucleares de nova geração e subsídios para fabricação e compra de veículos elétricos, Macron deseja que a transição ecológica seja o motor da reindustrialização francesa. Entretanto, para Bruno Villalba, o chefe de Estado francês continua com as prioridades equivocadas, face à crise climática. "A França pode talvez se tornar um exemplo de crescimento verde, mas certamente não será um exemplo em matéria de ecologia. Reindustrializar significa consumir mais recursos naturais, mesmo se você conseguir otimizar tudo com progressos técnicos que desperdiçam menos. Produzir mais carros elétricos continua sendo produzir mais carros. E os carros vão muito além deles próprios: significam imensas infraestruturas para eles, estradas, estacionamentos, impermeabilização dos solos”, contextualiza o professor da AgroParisTech. “Ou seja, ver a questão ecológica como sendo a mera substituição das energias fósseis não resolve o fundamental do problema. Em nome dos imperativos de um crescimento que rebatizamos ‘verde’, continuamos sem modificar os nossos objetivos de sempre, como a reindustrialização, que são incompatíveis com os limites do planeta”, resume. O especialista em energias da organização France Nature Environnement Michel Dubromel complementa: "No nível europeu, só tem um país que está atrasado em relação às energias renováveis. Adivinhe qual? A França”, acusa. “Sem contar que, para nós, a energia nuclear não é uma solução para o clima, ao contrário do que pensa Macron. Essa é uma solução de longo prazo, de 15, 20 anos, enquanto que implementar energias renováveis pode ser feito no período de um ano. E eu ressalto ainda que, depois de 50 anos, ainda não sabemos como tratar os dejetos nucleares”, adverte. Dubromel lembra ainda outras promessas não cumpridas por Macron, como promover o isolamento térmico dos imóveis para limitar o consumo de energia. O candidato voltou a destacar esse projeto para se reeleger. "É muito discurso, mas decisões contrárias aos discursos”, lamenta. Retrocesso na agricultura Na agricultura, outro setor em que as transformações são cruciais, a guerra na Ucrânia e a escassez de matérias-primas bastaram para Macron recuar na estratégia de uma produção agrícola menos industrial, mais local e com menos agrotóxicos. Jean-Claude Bevillard, também France Nature Environnement, afirma que se opor ao acordo União Europeia-Mercosul por questões ambientais não basta para fazer de Macron um defensor do planeta. Ele nota que a França ainda é muito dependente do exterior e vê em Macron um líder adepto de um livre comércio sem regulação, prejudicial ao meio ambiente. “De um lado, a gente fica dependente e, do outro, danificamos esses lugares de onde compramos soja, óleo de palma e outros. É evidente que a crise atual é uma ocasião de tornar a nossa economia muito mais resiliente, de produzir na França e na Europa tudo que realmente precisamos, sem desperdiçar as matérias-primas, e produzir sob uma  perspectiva de durabilidade”, argumenta o ambientalista. "Se orientarmos a indústria e a economia nesse sentido, daremos de novo ao nosso país verdadeiramente um futuro, e uma força para enfrentar os desafios de hoje.” O presidente também não encabeça questionamentos sobre os hábitos da sociedade, apontados como especialistas e até pela ONU como essenciais para um futuro, com menos emissões de gases de efeito estufa, que provocam o aquecimento da Terra. “Ele não questiona a abundância e a diversidade agrícola, o consumo de carne. Há hábitos cujos impactos o consumidor tem dificuldade de visualizar, mas para produzir um quilo de carne bovina, precisa-se de 80 litros de petróleo, em energia”, salienta Villalba. “Não podemos continuar assim.”
14 April 2022

50 anos depois de alerta bombástico, limites do planeta estão sendo atingidos

RFI Brasil
Como o crescimento econômico poderá ser infinito num mundo cujos recursos têm um fim? Em 1972, um relatório dirigido pelos cientistas americanos Donella e Dennis Meadows, Jørgen Randers e William Behrens no MIT (Massachussets Institut of Technology) analisou em profundidade os limites do nosso modelo de crescimento e se tornou um livro best seller, que vendeu 30 milhões de exemplares no mundo. Cinquenta anos depois, a humanidade toma o rumo dos piores cenários antecipados pelos cientistas. Em quase todos os países e em especial nos desenvolvidos, tudo é feito em excesso: produção, consumo, poluição, alimentação, pesca, emissões de gases de efeito estufa. O livro previa que, se continuássemos na busca cada vez mais intensa por crescimento, o sistema planetário sofreria um "bug" no século 21. "O que podemos dizer claramente é que aquilo estava pré-configurado nos anos 1970 e início dos 1980, no relatório Meadows, são coisas que, a maior parte delas, foram confirmadas nas décadas seguintes e, algumas delas, de forma até mais intensa do que previsto, como as mudanças climáticas. Na época, elas foram levadas em conta de maneira limitada”, afirma o pesquisador-adjunto do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França) Aurélien Boutaud, doutor em Ciências da Terra, em entrevista ao programa C’est Pas Du Vent da RFI. "Então, as conclusões gerais do relatório não poderiam ser mais atuais." No ano em que foi redigido, o estudo teve o impacto de um primeiro grande alerta da comunidade científica, com repercussão mundial, sobre os riscos que estavam por vir. Desde então, nove limites planetários ao abuso dos recursos naturais e à atividade humana foram desenhados pelos especialistas – dos quais cinco já foram atingidos. “É difícil dizer quantos limites de fato existem, mas a literatura científica hoje identificou dez. São variáveis que determinam os grandes equilíbrios ecológicos da escala planetária, como a integridade da biosfera, da biodiversidade, a mudança no uso dos solos, a utilização de águas doces, os ciclos biogeoquímicos do fósforo e do azoto, entre outros”, explica Boutaud, autor de um livro sobre o tema. "O que constatamos é que, há um século e meio, alguns desses elementos estão sendo perturbados pela atividade humana, de uma forma que pode ser irreversível.” Mudança de paradigmas O pesquisador francês explica que as mudanças climáticas são um exemplo claro desses desequilíbrios da Terra, assim como a acidificação dos oceanos. Há 50 anos, estabilizar o crescimento econômico e da população mundial teriam sido suficiente para evitar uma degradação tão séria do planeta. Hoje, porém, todo o desafio é minimizar os danos. O consenso apontado em estudos como os do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas, indica que a única alternativa para evitar uma catástrofe ainda maior para as próximas gerações é o mundo desacelerar: reverter um modelo de progresso que busca cada vez mais. "Nós sempre precisaremos dos sistemas de produção industrial, da agricultura, da saúde etc. Mas como podemos reorganizar tudo isso de maneira que eles sejam não pouco, mas muito mais econômicos, sóbrios, em matéria de energia? Em muitos casos, isso nos parece possível”, comenta Matthieu Auzanneau, diretor do think tank The Shift Project, especializado na transição energética. Fim das energias fósseis Desde o Protocolo de Kyoto, primeiro marco internacional para tratar do problema, os cientistas apontam as energias fósseis como as maiores vilãs do círculo vicioso que conduz a Terra a graves alterações. No Acordo de Paris sobre o Clima, os líderes globais concordaram que seria necessário acelerar o abandono do carvão e petróleo – mas, na prática, quase nada foi feito nesse sentido. Agora, a guerra da Ucrânia leva a Europa a acordar para o perigo da dependência dos combustíveis russos – uma nova oportunidade para acelerar a transição energética. "Temos que esperar isso, mas me faz pensar em um doente que já recebeu um diagnóstico há muito tempo, mas que precisa chegar ao limite do que os médicos dizem. Sentir na pele os efeitos, para chegar à conclusão de que ele precisa parar de fumar”, lamenta Auzanneau. "Aqui na Europa, nós sabemos há muito tempo que somos dependentes demais dos recursos controlados por Vladimir Putin. E se já tivéssemos encaminhado a saída do petróleo, como previa Kyoto, Putin não teria tanto poder quanto tem hoje”, analisa.
31 March 2022

Eleição francesa: crise ambiental é ignorada até por Macron na campanha para a presidência

RFI Brasil
A 10 dias do primeiro turno das eleições presidenciais francesas, um tema crucial acabou negligenciado na campanha, ofuscado pela guerra na Ucrânia: a crise climática. Apesar de a França desempenhar um papel protagonista sobre a questão no âmbito internacional, no plano interno os desafios ambientais foram pouco abordados pela maioria dos candidatos. Antes mesmo do conflito no leste europeu, o assunto só ocupava 3% do tempo de fala na corrida presidencial, apontou um levantamento da organização Amigos da Terra. Já em fevereiro, a ausência da ecologia no debate presidencial francês levou um grupo de mais de 1,4 mil pesquisadores da área a publicar um apelo por mais destaque à crise climática. A diretora emérita de pesquisas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas), Amy Dahan, especialista nas relações entre a política e os estudos do clima, foi uma das signatárias do texto. “Eles entram pouco nos verdadeiros problemas que estão colocados. Reduzem demais o debate a polêmicas como a favor ou contra a energia nuclear, a favor ou contra as eólicas, mas os perigos que nos ameaçam não se resumem a essas questões”, afirma Dahan. "Quem vai pagar os investimentos que precisaremos fazer? Precisamos entrar numa nova perspectiva e, para isso, saber quais são as novas políticas que nos preparam melhor para enfrentar esses novos desafios – mas isso não está, definitivamente, na ordem do dia da campanha”, lamenta a especialista. Programas de governo vagos ou inexistentes O ecologista Yannick Jadot, em sexto lugar nas pesquisas de intenções de voto, é o único a colocar as preocupações ambientais no centro das suas propostas, qualquer que seja a área de atuação. O candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa), cotado entre 12 a 15% dos votos, é considerado o segundo mais “verde" entre os que disputam a presidência, com um ambicioso programa ambiental, enquanto a socialista Anne Hidalgo (2%), conhecida pela transformação ambiental na prefeitura de Paris, também dá atenção especial ao tema, embora com propostas menos consistentes. Entretanto, em meio à maior alta da inflação em 14 anos no país e aos preços exorbitantes dos combustíveis, os dois têm preferido centralizar o foco nas políticas sociais. Confortável com cerca de 30% de intenções de votos nas pesquisas, o atual presidente, Emmanuel Macron (República em Marcha), tem se preocupado mais em exercer o cargo do que em fazer campanha. Seu programa de governo, revelado a menos de um mês do primeiro turno, não propõe medidas à altura dos desafios do clima, lamentam organizações ambientalistas. Ao analisar em detalhes os programas de todos os candidatos, a rede de organizações ambientalistas Ação Clima colocou o projeto de Macron entre os últimos colocados, julgando que “não apresenta solução a curto e a médio prazo para as energias renováveis e tem propostas limitadas para os transportes”. Já os candidatos da direita conservadora, Valérie Pécresse, do Republicanos, e principalmente da extrema direita, Marine Le Pen, do Reunião Nacional e Éric Zemmour (Reconquista!), dedicam pouco ou nenhum espaço ao assunto em seus programas de governo. Desconexão com preocupações da população “Para começar, acho que alguns dos candidatos, sejam de direita ou de esquerda, são bastante incompetentes sobre o assunto, não conhecem nada. Respondem que a França é pequena, é responsável por apenas 1% das emissões e por isso não haveria nada a ser feito”, critica a professora emérita do CNRS. “Porém o clima, a biodiversidade e outros aspectos são cada vez mais importantes para o nosso país e a população – e ela está claramente preocupada com isso, como mostram todas as pesquisas. Um terço dos habitantes da França já foi atingida por ondas de calor, tempestades, enchentes, e se preocupa em saber o que vai acontecer”, ressalta. Uma sondagem do instituto Ipsos mostrou que, entre os eleitores de até 30 anos, a crise climática é o segundo problema que gera mais preocupação, atrás apenas do poder aquisitivo. A pesquisadora sublinha que, apesar de praticamente ignorados na campanha, os desafios diante de qualquer presidente serão cada vez maiores para o enfrentamento não só das causas do aquecimento do planeta – ou seja, a redução de emissões de gases de efeito estufa –, como as consequências do problema. Os próximos anos, frisa Amy Dahan, serão determinantes para os países conseguirem limitar a alta de temperaturas a menos de 2ºC até o fim do século, como estipula o Acordo de Paris sobre o Clima. "Se os franceses não têm a chance de escolher e a palavra deles não é ouvida sobre tudo isso e todos os riscos envolvidos, como podemos considerar que uma democracia está funcionando bem? Eu também acho que os candidatos, por uma certa covardia, evitam abordar assuntos que incomodam e que exigiriam algumas reorientações drásticas na sociedade, e então preferem se calar sobre os grandes problemas que teremos de enfrentar”, analisa a cientista.
24 March 2022

Guerra na Ucrânia coloca em xeque objetivos climáticos da União Europeia

RFI Brasil
A guerra na Ucrânia impacta o abastecimento alimentar e energético na Europa e obriga os países membros da União Europeia a reavaliarem o planejamento ambiental do bloco. A ofensiva russa no país vizinho ameaça o ambicioso pacote europeu de desenvolvimento sustentável e redução de emissões de gases de efeito estufa, o Pacto Verde (Green Deal), anunciado em julho de 2021. Lúcia Müzell, da RFI As sanções ocidentais a Moscou, em represália à invasão da Ucrânia, levam os integrantes do bloco europeu a cogitarem postergar os planos de abandonar as usinas a carvão – uma medida que, a longo prazo, teria um forte impacto no objetivo de atingir a neutralidade de CO2 até 2050. A dependência do gás russo, principalmente para o aquecimento dos prédios e abastecer indústrias e transportes, se tornou um problema para países como Alemanha, Hungria e Eslováquia, que agora buscam outros fornecedores mais distantes, como Catar e Estados Unidos. A demanda restante acabará sendo atendida por centrais a carvão – mas ambas soluções implicarão em uma explosão das emissões de gás carbônico na Europa, o contrário do que prevê o Pacto Verde. "Se não tivermos mais gás, faremos funcionar mais as centrais a carvão. Mas há uma outra solução na qual os europeus precisam pensar a sério: a eficiência energética”, frisa o professor emérito da Universidade de Montpellier Jacques Percebois, diretor do Centro de Pesquisas em Economia e Direito Energético (Creden). “Também temos de aceitar reduzir o consumo nas horas de pico e fazer alguns esforços. Se quisermos realmente ajudar a Ucrânia e mantermos o Pacto Verde de pé, teremos que aceitar diminuir a temperatura em casa no inverno, consumir menos e até ter alguns cortes de energia." Transição energética Organizações e políticos ambientalistas preferem ver o momento atual como uma oportunidade para acelerar a transição energética no bloco. Neil Makaroff, coordenador da seção Europa da Rede Ação pelo Clima, hub de organizações ambientais francesas, ressalta que as fontes renováveis são as únicas que podem ser desenvolvidas rapidamente face ao desafio urgente imposto pela guerra. A médio prazo, a renovação energética dos prédios permitiria diminuir a demanda de energia. "Diante da crise exacerbada pela guerra na Ucrânia, a energia nuclear pode parecer uma solução, ao não emitir CO2. Mas não podemos esquecer que para construir uma central nuclear, precisamos de 15 a 20 anos. Por demorar tanto, essa opção não atende aos nossos objetivos climáticos até 2030, de reduzir pelo menos 55% das nossas emissões até o fim da década”, explica o ativista. "A única solução facilmente aplicável e barata são as energias renováveis, eólica, solar e biogás. Elas precisam decolar para substituir o gás, o petróleo, mas também o carvão russos."  Jacques Percebois, entretanto, ressalta as limitações das energias verdes, ainda muito dependentes de condições climáticas favoráveis que, no caso, europeu, não podem ser garantidas. "Não são as renováveis que vão resolver todo o problema. Podemos acelerar as pesquisas de desenvolvimento técnico para a estocagem das renováveis, mas isso será a longo prazo. Precisa tempo”, observa o especialista. Agricultura verde a perigo  Já na agricultura, a estratégia apelidada de “da fazenda para o garfo” visa transformar o modelo produtivo no bloco em mais sustentável e respeitoso ao meio ambiente. Mas agora, para fazer frente ao corte de importações de fertilizantes russos e aos riscos de ruptura de estoques de cereais – já que Moscou e Kiev são grandes exportadores mundiais –, a Comissão Europeia se vê obrigada a repensar os planos, sob forte pressão de lobistas do setor, ávidos por aumentar – e não reduzir – a produção de alimentos em escala industrial. Neste contexto, Bruxelas adiou a adoção de medidas de proteção da natureza e da biodiversidade, que previa ampliar a diversidade produtiva nos solos europeus, diminuir pela metade o uso de agrotóxicos e em 20% o de adubos químicos, até 2030. Neil Makaroff afirma que grande parte do cereal importado do leste europeu serve para a alimentação de animais e a produção de carne – que representam 70% das emissões europeias da agricultura, responsável por 13% do total. Para ele, as consequências da guerra significam uma chance de rever esse ciclo. "Tudo está ligado. Precisamos de uma verdadeira transformação e essa crise deve ser um choque que nos faz tomar consciência sobre as nossas vulnerabilidades, e não nos levar para uma agricultura ainda mais tecnológica e dependente de químicos, no futuro”, destaca o ambientalista. "Hoje, temos uma verdadeira ameaça à transição agrícola europeia, por parte de alguns dos dirigentes do bloco, a começar pelo presidente francês, Emmanuel Macron, que disse querer ‘adaptar' a estratégia em curso." Ele lembra ainda que os fertilizantes em si também são uma fonte importante de emissões – não apenas são poluentes, a base de nitrogênio, como necessitam do gás russo para a sua produção.
17 March 2022

Bolsonaro usa guerra na Ucrânia para acelerar mineração em terras indígenas

RFI Brasil
A guerra na Ucrânia virou uma desculpa para o governo de Jair Bolsonaro alavancar um dos dos seus projetos mais ambiciosos na área ambiental: autorizar a exploração de minérios, petróleo e gás em terras indígenas, principalmente na Amazônia. Com o argumento de que o país precisa diminuir as importações russas de fertilizantes para a agricultura, abaladas pelo conflito armado, Brasília conseguiu fazer aprovar em regime de urgência a votação de um projeto de lei sobre o tema. A aceleração do procedimento, a sete meses das eleições, fará com que o texto seja apreciado pela Câmara dos Deputados em meados de abril. Coube ao presidente da Casa, o ruralista Arthur Lira, retirar o projeto da gaveta. Em resumo, o PL 191/2020 autoriza a mineração e a construção de hidrelétricas em terras indígenas, além de legalizar o garimpo. "A nossa Constituição de 1988 conseguiu limitar muito bem o que podia ou não ser feito dentro das terras indígenas, porém deixou um precedente. Mas não é qualquer mineração, não é da forma como eles querem aplicar”, afirma Dinaman Tuxá, advogado da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). "Ela deve ser feita por meio de uma lei complementar, em casos específicos, que respeitem a vida dos povos indígenas, as suas crenças, tradições e o seu território. Não é simplesmente chegar com um maquinário e destruir tudo." O governo alega que as medidas são urgentes para o país ser menos dependentes dos fertilizantes russos, essenciais para a agricultura, e poder aumentar a produção nacional. Para isso, precisaria extrair mais potássio do solo brasileiro. Reservas de potássio estão em outros locais O problema, alegam agroambientalistas contrários à proposta, é que apenas 11% das reservas brasileiras da matéria-prima estão sob terras indígenas. As maiores áreas encontram-se em Minas Gerais, São Paulo e no Nordeste, portanto fora da Amazônia. Marcello Brito, membro da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura e ex-presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), explica as razões pelas quais 85% dos fertilizantes utilizados no país vêm de fora. "Se não houve investimentos em potássio e em outras fontes minerais no Brasil, não é porque é proibido minerar em terra indígena, mas porque a energia elétrica é cara, a logística é cara, o sistema tributário não funciona, a insegurança jurídica é imensa. Todas essas coisas que nós resumimos chamando de 'custo Brasil' estão no cerne da falta de desenvolvimento do país”, ressalta. "Vemos um processo de desindustrialização do país nos últimos 30 anos, e agora você vê o governo com um argumento completamente falacioso para fazer uma invasão sobre terras indígenas que não precisa.” Brito lembra que existem mais de 500 solicitações paradas na Agência Nacional de Mineração, algumas há mais de décadas, em outras regiões brasileiras. Enquanto isso, o país se tornou refém dos insumos russos e agora poderá se encontrar sem produtos suficientes já para a próxima safra – não há previsão de estoque sequer para o período de um ano. Impacto no exterior A Coalizão Brasil, que reúne mais de 300 entidades e pesquisadores ligados à atividade agropecuária, avalia que o PL 191 coloca “em risco a integridade ambiental das terras indígenas, áreas cruciais para a estabilidade climática do país”. Marcello Brito afirma que o texto e outros projetos que tramitam na Câmara, com impactos de longo prazo, como o da regularização fundiária, são “irresponsáveis”. Para ele, as propostas sofrem de uma "cegueira política e uma miopia comercial e de relações internacionais”, ao prejudicarem ainda mais o comércio do país com o resto do mundo. "Nós temos condições de fazer diferente. Estamos num momento em que a tecnologia se impõe. Poderíamos implementar biofertilizantes, que não são a solução para o momento, mas é a hora de incentivá-los. Você pode trabalhar melhor o desperdício: mais de 30% dos fertilizantes utilizados no Brasil são desperdiçados”, exemplifica do ex-presidente da Abag. "Há uma série de ações que podem ser feitas sem precisar entrar em terras indígenas, que agride e ataca fortemente a imagem do Brasil no exterior, que já não vai bem”, frisa. “Pacote da Destruição” O PL 191 faz parte do que foi apelidado pelas organizações ambientalistas de Pacote da Destruição do governo. Entre as medidas, estão ainda o afrouxamento de licenciamentos ambientais e a anistia à grilagem (ocupação ilegal de terras), entre outras promessas de campanha de Bolsonaro, na reta final do primeiro mandato. A bancada ruralista, que representa cerca de metade da Câmara e do Senado, pode ser a aliada que o presidente precisa para atingir esses objetivos. "Os povos indígenas não vão permitir mais um saque não só das nossas riquezas, como das nossas vidas, da nossa integridade, da nossa dignidade. Essas bancadas que se firmaram no Congresso, a do agronegócio, da mineração e da bala, elas atendem aos desejos e devaneios do presidente da República, em reflexo aos seus financiadores. Eles estão legislando em causa própria”, acusa Dinaman Tuxá. “O que deixa a gente mais apreensivo e indignado é que não há um enfrentamento, por parte da sociedade brasileira. Nós estamos falando de medidas que vão destruir quilômetros de florestas e há pessoas que vivem lá. É desumano, é criminoso. Esse impacto que está sendo promovido por quatro anos de governo Bolsonaro, nós vamos sentir por pelo menos mais 30 anos”, lamenta o advogado da Apib.
04 March 2022

Janela para enfrentar mudança do clima está se fechando e os mais pobres são os mais atingidos

RFI Brasil
O segundo volume do sexto relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas da ONU), divulgado em 28 de fevereiro, traz evidências científicas ainda mais nítidas do ritmo acelerado das mudanças do clima e do quanto algumas consequências do aquecimento do planeta já são “simplesmente irreversíveis”. Num tema no qual as boas notícias são raras, os especialistas advertem que a janela de oportunidades está se fechando para a humanidade reagir ao aquecimento global. Lúcia Müzell, da RFI O foco deste documento, parte de um amplo estudo composto por três partes, são os "impactos, a vulnerabilidade e a adaptação” dos países e populações à crise climática – ou seja, de que maneira, concretamente, o planeta já sofre os efeitos da desregulação do clima, provocada pela ação humana, e como é possível se preparar melhor para enfrentá-la. As ações promovidas até agora ainda deixam muito a desejar, ressalta Patricia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam) e uma das autoras do capítulo sobre desenvolvimento sustentável e pobreza. Os estudos apontam que quem mais vai amargar os impactos de eventos extremos, como enchentes e secas prolongadas, são as populações marginalizadas, em especial nos países em desenvolvimento. No caso brasileiro, os exemplos emblemáticos são o da vulnerabilidade dos moradores das periferias, no meio urbano, e da devastação das florestas, em especial a Amazônia. "Você tem uma floresta degradada, com perda de biodiversidade da qual os povos dependem. Você tem um evento climático extremo, como seca ou calor. Esses elementos são compostos e fazem um efeito dominó, um efeito cascata dentro dessas populações, que está colocando em xeque a capacidade delas de se adaptar”, afirma Pinho. Ambientes fragilizados O pesquisador sênior do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Jean Ometto participou do capítulo sobre florestas e explica que a expansão das atividades agrícolas em diferentes pontos deixa todo o sistema florestal fragilizado diante das mudança climática. Elas têm resiliência natural às alterações do clima, mas essa resistência têm limites – secas prolongadas são altamente prejudiciais para uma floresta tropical e o fenômeno, somado aos efeitos negativos da atividade humana, geram um perigoso círculo vicioso. "A fragmentação da paisagem e das áreas de conectividade da floresta levam a uma vulnerabilidade maior. Mesmo que a gente pare o desmatamento naquela parcela de floresta, ela já está mais vulnerável pela fragmentação”, aponta Ometto. "Vemos isso de uma maneira muito clara na Amazônia e no Cerrado.” O documento do IPCC incorpora, de uma forma inédita, o conhecimento dos povos tradicionais para lidar com as variações do clima e preservar o meio ambiente. Entretanto, a rapidez com que o aumento da temperatura global tem afetado a natureza e atingido até a produtividade agrícola torna os esforços cada vez mais difíceis. "Esse relatório traz a cor, o gênero, a etnia e a geografia de quem está em risco”, resume Pinho. "Por um lado, os povos indígenas aparecem como suscetíveis, como os mais expostos, por o seu modo de vida depender intrinsecamente dos ecossistemas naturais – seja na Amazônia brasileira ou no Ártico, as populações indígenas do hemisfério norte, da Austrália, da África ou da Índia. Mas, ao mesmo tempo, eles detêm um conjunto de estratégias que têm colaborado com a adaptação”, assinala a pesquisadora do Ipam. Embate ricos x pobres Baseado em evidências científicas, trazidas por mais de 260 autores de 67 países, o relatório ressaltou a injustiça de os países desenvolvidos serem os maiores responsáveis pelas emissões que geraram o efeito estufa, enquanto as nações pobres sofrem as suas piores consequências. Sob forte resistência dos países ricos, a expressão “justiça climática”, aclamada por organizações ambientais, não chegou a ser incluída no texto, mas os seus elementos estão presentes, destaca Patricia Pinho. “Essa palavra pode ser não muito confortável e alguns países entram num embate porque existe, sim, uma contribuição histórica, e existe, sim, um compromisso de, pelo menos financeiramente, colaborar com as estratégias de adaptação dos países do sul global”, sublinha a especialista. Os recursos previstos para o financiamento das adaptação, de US$ 100 bilhões por ano, até hoje não se concretizaram, mas já são julgados insuficientes. Por um lado, os países ricos rejeitam que a responsabilidade do problema seja colocada integralmente nas suas costas. Por outro, as instituições encarregadas de analisar os projetos avaliam que as propostas dos países potencialmente beneficiados ainda são debilitados. Os cientistas da ONU advertem, entretanto, que o volume de recursos para adaptação precisa ser, no mínimo, equivalente ao de mitigação (ações de redução de emissões de gases de efeito estufa). Jean Ometto dá o exemplo de que ações podem ser implementadas nas florestas – para além do objetivo número 1 de acabar com o desmatamento. "Primeiro precisamos buscar manter os processos básicos da floresta: a manutenção da biodiversidade, do ciclo hidrológico. Não pode alterar a floresta próximo de cursos d'água e nascentes de rios”, diz o pesquisador do Inpe. "A produção de alimentos tem de ser onde não impacte a vegetação natural ainda mais do que já está sendo impactada. E se quisermos recuperar uma região, tem de haver uma conectividade na paisagem, ter uma área tampão entre a área de produção e a área reflorestada." A última etapa do mais recente relatório do IPCC, sobre mitigação, deve ser divulgada em abril. As conclusões do painel embasam as negociações climáticas no âmbito da ONU – a próxima, a COP 27, acontecerá em novembro, no Egito.
25 February 2022

Transporte marítimo tem longo caminho até zerar as emissões de CO2

RFI Brasil
Dos antigos barcos a vela aos futuros navios cargueiros neutros em emissões de CO2, o caminho se anuncia desafiador. O transporte marítimo internacional, responsável por levar para os quatro cantos do mundo 90% das transações comerciais, está em plena efervescência para encontrar soluções economicamente viáveis para atingir as metas de descarbonização do setor, fixadas pela Organização Mundial do Transporte Marítimo na última Conferência do Clima da ONU, a COP26. O objetivo é cortar pelo menos 40% das emissões de CO2 até 2030 e 70% até 2050. A solução não será nem simples, nem rápida. Os investimentos também serão colossais, até a substituição de imensos navios porta-contêineres alimentados por combustíveis fósseis, como o diesel, por motores a biocombustíveis, como hidrogênio ou amônia verdes, que não emitem carbono e são as duas grandes apostas para o futuro. Na esteira das novas metas para o setor, nasceu uma iniciativa das autoridades aeroportuárias de Cingapura com seis parceiros internacionais de logística e proteção dos oceanos. A presidente da organização, a professora de engenharia da Princeton University Lynn Loo, participou recentemente do One Ocean Summit, na cidade francesa de Brest, e explicou que o centro de pesquisas investe pesado em protótipos e testes, para acelerar os avanços nos mares: "Nós decidimos focar na amônia primeiro não porque nós pensamos que é um combustível singular, que será o do futuro. Mas porque faz parte de uma variedade de combustíveis no horizonte e a amônia é a maior ambição energética para produzir, entre os combustíveis verdes. Por isso escolhemos esse desafio. Quando olhamos para a cadeia de abastecimento dela, percebemos que há pilotos para novos motores e navios, mas há um certo atraso em relação a como transportar a amônia com segurança", diz Lynn Loo. A ausência de regras de segurança faz com que este combustível seja visto com precaução por alguns ambientalistas, que temem os riscos de explosão em alto mar. Enquanto isso, um projeto francês, o Energy Observer, prova que o caminho do hidrogênio é possível. A embarcação, autossuficiente em energia, com hidrogênio produzido a bordo e baterias fotovoltaicas, realiza uma volta ao mundo desde 2017 para sensibilizar os diversos países sobre o tema. O fundador da iniciativa, Victorien Erussard, afirma que uma das maiores dificuldades é baixar as emissões de CO2 dos navios sem perder velocidade. "Nós temos propulsão elétrica de 4 megawatts de potência e não temos máquina térmica a bordo. Testamos desde 2019 uma propulsão a vela também. A 15 nós de velocidade, conseguimos reduzir em média 15% do consumo de energia, e a 12 nós passamos para 40% de diminuição", detalha Victorien Erussard. A segunda fase do projeto, de um total que pode chegar a € 100 milhões, está em curso. Um navio capaz de assegurar um trajeto clássico de transporte de 5 toneladas de produtos dentro das fronteiras europeias, movido a hidrogênio líquido, deve ficar pronto até 2025. Potencial do hidrogênio Uma das gigantes do setor, a CMA CGM avalia o potencial do hidrogênio na sua cadeia, que conta com aparelhos antigos, de mais de 15 anos de uso. Por enquanto, a primeira etapa para limpar os trajetos intercontinentais é a transição para o GNL (gás natural liquefeito) e, num segundo momento, os aparelhos poderão funcionar com biometano e metano sintetizado. A diretora de operações da companhia, Christine Cabau-Woehrel, comemora a realização de um primeiro frete de Xangai a Los Angeles inteiramente a gás natural, previsto para março. "Nós estamos convencidos de que não haverá apenas uma solução tecnológica em termos de propulsão. Haverá várias, para podermos substituir o 100% fóssil por energias verdes. A energia é muito importante, mas o desenho dos navios também conta muito para ajudar a descarbonizar. Nós trabalhamos muito a questão da conectividade do navio, para o trajeto ser o mais eficaz possível quando está no mar, além da concepção hidro e aerodinâmica, de última geração", afirma. Christine Cabau-Woehrel frisa ainda que não cabe apenas aos navios realizarem essa transição: a maior eficiência dos portos é crucial para reduzir o impacto ambiental do setor.
10 February 2022

Longe dos olhos, degradação dos oceanos fica em segundo plano em acordos internacionais

RFI Brasil
A França organiza até esta sexta-feira (9) uma cúpula inédita pela proteção dos oceanos, com a presença de chefes de Estado e de governo, ministros, cientistas e organizações ambientais. À espelho dos compromissos que vem sendo alcançados pelo combate às mudanças climáticas, a One Ocean Summit tenta impulsionar os países e engajar o setor privado a passar de promessas a atos concretos para preservar o ambiente marinho, lar de mais de 2,2 milhões de espécies. O tema é crucial também para os objetivos internacionais de redução de emissões de gases de efeito estufa, que causam o aquecimento global: os oceanos absorvem cerca de 30% do CO2 despejado na atmosfera, além de produzir a metade do oxigênio que nós respiramos. Eles são nada menos do que reguladores da temperatura da Terra. As atividades humanas, entretanto, ameaçam o futuro do ecossistema marinho, que sofre um aumento inédito dos seus níveis de acidificação e é sobrecarregado pela pesca excessiva e a poluição, como a de plásticos – sem falar de riscos emergentes, como a exploração do fundo do mar para a extração de gás, minerais preciosos e recursos genéticos marinhos, visados pelas indústrias farmacêutica e cosmética. Não à toa, esta década foi declarada a “Década dos Oceanos” pela ONU, visando aumentar a sensibilização mundial sobre o tema, que não desfruta do mesmo prestígio das cúpulas relacionadas ao clima. Acordo sobre o alto mar As negociações para um acordo global de proteção da biodiversidade em alto mar, por exemplo, só foram engajadas oficialmente em 2019 no âmbito das Nações Unidas. No One Ocean Summit, apenas 20 chefes de Estado e de Governo confirmaram presença, a maioria de países europeus ou africanos – embora os oceanos cubram 70% da superfície terrestre. Françoise Gail, oceanógrafa emérita do CNRS, observa que a falta de acordo beneficia as maiores potências econômicas do planeta, capazes de chegar e explorar os lugares mais distantes. "Hoje, apenas as bordas dos oceanos são monitoradas pelos Estados costeiros. Somente os países que têm condições mais sofisticadas conseguem chegar no alto mar e recolher o que estimam necessário, em detrimento a todos os outros, que não conseguem”, afirma. "Só teremos regras para permitir a todos chegar ao oceano em condições equivalentes se formularmos um enquadramento jurídico”, ressalta. Enquanto um tratado não é firmado, de 11 a 26 milhões de toneladas de peixes são pescados de maneira ilegal a cada ano, no mundo todo. Para combater esses e outros abusos, uma coalizão internacional de “alta ambição para a natureza”, composta por 80 países, defende subir de 8% para pelo menos 30% os espaços terrestres e marinhos do planeta classificados como áreas protegidas, até 2030. Essas áreas seriam delimitadas apenas nas jurisdições nacionais dos países, já regulamentadas. Ausência do Brasil  A França e a Costa Rica desempenham papel de liderança na coalizão, do qual o Brasil não faz parte. Apesar de ter mais de 8 mil quilômetros de costa – a 15ª maior do mundo, em extensão –,  o país não destacou um representante oficial para participar da conferência em Brest. Na América Latina, somente a Colômbia, que tem tentado assumir o protagonismo ambiental deixado pelo Brasil na região, estará presente nas reuniões. Por conta da pandemia de coronavírus, o evento ocorre de forma híbrida, com colaborações presenciais e pela internet. No Rio de Janeiro, o oceanógrafo David Zee, pesquisador da UERJ, ressalta a importância de trazer a sociedade para o debate, com mais informação e educação sobre os riscos da degradação dos oceanos para todo o planeta. Para ele, a fraca sensibilização e as ações limitadas de preservação são resultado do desconhecimento. "Teve mais gente pisando na lua do que pessoas descendo a profundidades superiores a 1.000 metros. A profundidade média dos oceanos é de mais de 2 mil metros”, exemplifica Zee. "Hoje temos a ONU com a década dos Oceanos, num movimento em que se elegeu o plástico como pior inimigo. Todo o mundo está finalmente começando a se preocupar com os plásticos porque ele representa um malefício direto para muitos países e toca no imaginário direto das pessoas. Elas começam a querer participar porque veem um interesse direto.” O ano de 2022 terá uma série de eventos importantes para a proteção dos oceanos: duas reuniões e uma cúpula da ONU em fevereiro, março e abril, sobre a redução dos plásticos e preservação da biodiversidade, e uma conferência específica sobre os oceanos em junho, em Lisboa.